A Bolívia reafirmou recentemente seu profundo compromisso com a luta contra as organizações criminosas transnacionais (OCTs) e o tráfico de drogas, reconhecendo que a cooperação internacional é essencial para erradicar esses problemas.
O ministro do governo, Roberto Ríos, enfatizou que combater as gangues criminosas será uma prioridade: “A luta contra o crime organizado deve ser realizada em estrito cumprimento das leis nacionais e internacionais”, declarou a agência estatal Agencia Boliviana de Información. Ressaltou que essa tarefa se baseará na cooperação, coordenação, responsabilidade e respeito pela vida e pelos direitos humanos.
O plano do governo inclui acelerar a erradicação do cultivo da folha de coca – insumo fundamental para a produção de cocaína – e desarticular as OCTs que operam na cadeia do narcotráfico. Para isso, o Executivo prevê uma coordenação mais estreita com os vizinhos regionais e parceiros internacionais importantes, como os Estados Unidos.
Retomada do intercâmbio de informações
Um dos anúncios mais relevantes desta nova etapa é o retorno iminente da Administração para o Controle de Drogas dos EUA (DEA) à Bolívia.
O vice-ministro da Defesa Social e Substâncias Controladas, Ernesto Justiniano, foi inequívoco ao afirmar que o primeiro passo será restabelecer o intercâmbio de informações. “A DEA retornará muito em breve, porque existe um compromisso político e isso é o mais importante”. Ele acrescentou que a ajuda internacional é uma necessidade. “Sabemos que há cartéis internacionais operando na Bolívia e não podemos enfrentar o narcotráfico apenas com a força local. Precisamos integrar-nos e precisamos de cooperação”, afirmou.
Além do surgimento de gangues locais, a principal ameaça operacional à segurança da Bolívia vem de grupos internacionais que se aproveitam da posição do país como um dos maiores produtores de cocaína do mundo. O restabelecimento do intercâmbio de inteligência é crucial para combater atores poderosos, como os cartéis mexicanos de Sinaloa e Jalisco Nova Geração (CJNG), que coordenam o envio de várias toneladas de cocaína que saem da região.
Além disso, as OCTs na Bolívia estão diversificando cada vez mais seu portfólio e a mineração ilegal de ouro e o contrabando estão se tornando uma importante fonte de renda. Essa atividade não só causa danos ambientais catastróficos, mas também é usada para lavar bilhões de dólares provenientes do narcotráfico.
Combater essa complexa rede de tráfico de drogas, contrabando de ouro e fraude de identidade é o objetivo da atual campanha para renovar as alianças internacionais.
Reforço da segurança na fronteira com o Brasil
A nova abordagem da administração já se refletiu em novas medidas de controle nas fronteiras, especialmente com o Brasil. A Bolívia aumentou a vigilância nas regiões de Pando, Beni e Santa Cruz. Isso é uma resposta à atividade criminosa em curso e à possibilidade de membros das OCTs entrarem no país, após as recentes operações policiais no Brasil.
O vice-ministro do Regime Interno e Polícia, Johnny Aguilera, explicou ao jornal boliviano Opinión que o plano de controle inclui uma operação em duas fases e a criação de inteligência fronteiriça dedicada a comparar a colaboração em andamento com o Brasil, para detectar e agir contra cidadãos estrangeiros que entram com documentação falsificada e obtêm carteiras de identidade bolivianas. “Eles chegam fugindo de seus países, mudam sua identidade e apresentam-se como empresários prósperos, mas por trás disso existem redes criminosas que buscam operar na Bolívia”, enfatizou Aguilera.
Chile e Bolívia: operações conjuntas contra as OCTs
A abordagem boliviana encontrou eco no Chile, país fronteiriço comprometido com o aprofundamento da cooperação bilateral. O ministro das Relações Exteriores do Chile, Alberto van Klaveren, expressou a importância de fortalecer a cooperação para combater o crime organizado na fronteira compartilhada, salvaguardar os direitos e facilitar o trânsito legítimo.
A crescente ameaça das OCTs exige um roteiro de segurança compartilhada. Analistas indicam que é essencial estabelecer acordos de cooperação em matéria de segurança, combate ao contrabando, tráfico de pessoas, retorno e reorientação de migrantes irregulares, tráfico de drogas e controle de fronteiras. Atualmente, as autoridades bolivianas participam de operações conjuntas e intercâmbios de informações com seus homólogos chilenos, para investigar as OCTs, o que ressalta seu compromisso com a ação combinada e transfronteiriça.
O desafio das gangues criminosas transfronteiriças
O fortalecimento da cooperação regional surge como resposta à crescente presença de perigosas gangues criminosas transfronteiriças, como o Tren de Aragua (TdA). Essa organização se expandiu rapidamente pela América do Sul e América Central, e sua presença na Bolívia representa um grande desafio para a segurança interna.
O TdA, um antigo grupo criminoso prisional, é agora uma sofisticada organização terrorista com células estabelecidas em vários países, incluindo a Bolívia, que usa a crise migratória como cobertura para suas operações. Analistas e relatórios sugerem que o grupo opera com a proteção explícita ou tácita do regime de Nicolás Maduro, o que torna seu crescimento uma preocupação geopolítica ainda maior.
As atividades do TdA na região mostram uma diversificação alarmante da criminalidade, o que o torna um foco de atenção crítico para as autoridades bolivianas. A gangue aproveita a fronteira compartilhada com o Chile para operar extensas redes de tráfico de pessoas e exploração sexual, voltadas especialmente para mulheres e meninas migrantes vulneráveis, e o território boliviano serve como ponto de trânsito crucial para esses movimentos transfronteiriços ilícitos.
Além disso, o TdA ganha rapidamente controle, por meio do uso de esquemas de proteção, extorquindo empresas locais e o comércio informal nas áreas onde estabelece sua presença. Os membros do TdA também são conhecidos por falsificar documentos de identidade, o que lhes permite circular livremente, passar por empresários legítimos e proteger-se das forças da lei, uma tática que as autoridades bolivianas já reconheceram como alvo.
A ameaça é ainda mais agravada pela capacidade do TdA de formar alianças poderosas com outras importantes organizações de tráfico de drogas na região, como o Primeiro Comando da Capital (PCC) do Brasil. Essa colaboração cria uma frente unificada, que complica os esforços de interdição do tráfico de drogas e da lavagem de dinheiro ao longo das fronteiras orientais da Bolívia. A rápida expansão do TdA é uma das principais razões pelas quais se promove com urgência um maior intercâmbio de informações de inteligência, em particular com os países vizinhos e os Estados Unidos, uma vez que seu modelo de franquia está se mostrando muito resistente e difícil de desmantelar, utilizando apenas as forças locais.
A Bolívia se encontra em um momento decisivo em sua luta contra o crime organizado. Ao fortalecer as alianças internacionais e a cooperação regional, o país está mais bem equipado para enfrentar as ameaças complexas e transnacionais que desafiam a segurança de toda a América do Sul.


