A empresa estatal EP Petroecuador anunciou, no início de maio, que contratou a empresa chinesa Sinopec para realizar uma campanha de perfuração, com o objetivo de aumentar a produção total de petróleo para 12.000 barris por dia. Essa medida destaca a crescente e preocupante influência de Pequim no setor energético vital do país.
A EP Petroecuador especificou que o contrato, que ascende a US$ 105,5 milhões, tem como objetivo a perfuração e o acondicionamento de novos poços nas províncias de Orellana e Sucumbíos, localizadas no nordeste da Amazônia equatoriana. Sinopec começou a trabalhar no final de maio nessa região rica em reservas de petróleo.
Sinopec na Amazônia equatoriana
A Sinopec, em colaboração com a estatal chinesa CNPC, já tem uma presença consolidada na região amazônica equatoriana, por meio das joint ventures Andes Petroleum e PetrOriental, que operam em Sucumbíos e Orellana. Essas operações são preocupantes, devido ao histórico de graves problemas ambientais na região, como a proliferação de piscinas abandonadas cheias de petróleo e a contaminação do solo e das fontes de água, que afetam comunidades indígenas e ecossistemas frágeis, informou a plataforma de notícias do meio ambiente Mongabay. Embora existam comunidades que realizam um acompanhamento, os especialistas continuam preocupados com a eficácia da regulamentação e das medidas de remediação.
Vários relatórios de organizações como o Centro de Direitos Econômicos e Sociais (CDES) e estudos científicos sobre o Parque Nacional Yasuní documentaram que a exploração petrolífera na Amazônia equatoriana gerou danos ambientais persistentes, afetando a biodiversidade e a saúde das comunidades locais. Um exemplo claro é o derramamento de petróleo de 2020, o maior em 15 anos, quando a ruptura de oleodutos, devido à erosão maciça dos rios, contaminou os rios Coca e Napo. Os especialistas relacionaram a erosão agravada com a barragem hidrelétrica Coca Codo Sinclair, construída e financiada pela empresa chinesa Sinohydro, o que acarreta graves consequências para os rios e as comunidades indígenas.
“A crescente necessidade da China por recursos naturais na América Latina nos últimos anos, entre eles o petróleo – insumo básico para sua economia –, diante da grande demanda de consumo, não parou”, afirmou o especialista argentino em Relações Internacionais e questões de segurança, Luis Somoza, em entrevista à Diálogo. Sinopec espera que em julho sua produção alcance a meta de 12.000 barris adicionais.
Dúvida, opacidade e controle estratégico
A produção média diária do Equador diminuiu nos últimos anos, em parte devido à falta de investimento e manutenção nos campos petrolíferos. “A média diária em 2023 foi de 487.280 barris, e caiu para 475.280 no ano passado”, informou o diário argentino La Voz. Esta diminuição torna o papel da China como financiadora cada vez mais importante, mas também preocupante, devido aos problemas de transparência associados.
A cooperação petrolífera entre a China e o Equador remonta a 2009, quando o governo de Rafael Correa, após enfrentar a exclusão dos mercados internacionais, por uma dívida externa declarada ilegítima, recorreu à China para obter financiamento. Desde então, o Equador recebeu mais de US$ 11 bilhões em empréstimos de bancos chineses, a maioria garantida por contratos de pré-venda de petróleo, escreve The New York Times.
Entre 2010 e 2016, foram assinados quatro acordos de empréstimo com o Banco de Desenvolvimento da China, no valor total de US$ 7 bilhões, vinculados a compromissos de entrega de petróleo bruto à PetroChina e à Unipec, informou na época a presidência equatoriana.
“Concretamente, entre 2005 e 2023, Pequim concedeu 133 créditos na América Latina e no Caribe, que totalizaram US$ 120 bilhões, gerando um valor médio de US$ 905 milhões por cada empréstimo”, indicou o think tank Fundação Andrés Bello. A China é atualmente um dos principais financiadores do Equador, com quase um terço dos seus empréstimos destinados ao setor energético. A dívida do Equador com a China atingiu o seu máximo em 2016, com US$ 9,6 bilhões, quase 10 por cento do seu produto interno bruto.
Em março, o Equador concedeu o bloco Sacha – o maior campo petrolífero do país – a um consórcio liderado pela Sinopec, em um processo sem licitação destinado a aumentar a produção e os rendimentos do Estado. Embora a concessão tenha enfrentado exigências iniciais do governo de pagamentos antecipados, finalmente acabou sendo realizada.
Ampliação das preocupações regionais
Um relatório publicado em 6 de junho pelo Conselho de Relações Exteriores dos EUA alertou sobre a crescente influência da China na América Latina. Pequim fez importantes investimentos nos setores latino-americanos de energia, infraestrutura e espacial; e reforçou seus laços militares com vários países, em particular, com a Venezuela.
Em 2024, o comércio entre a China e a América Latina ultrapassou US$ 518 bilhões. No setor energético, a China investiu mais de US$ 30 bilhões em petróleo e gás na região, desde 2005, e continua expandindo sua presença em energias renováveis e mineração de minerais críticos, como cobre e lítio.
Para Somoza, a agressiva expansão regional da China apresenta “aspectos obscuros”, uma vez que os empréstimos e investimentos petrolíferos são negociados à porta fechada entre representantes do governo chinês e dos países anfitriões.
“Os bancos estatais chineses não publicam sistematicamente dados sobre seus empréstimos e investimentos no exterior e, quando o fazem, as informações geralmente não são detalhadas”, concluiu o analista argentino. “É de vital importância alertar que a China está operando na região com suas empresas que dependem diretamente do Partido Comunista Chinês, e essa é a maneira de gerar um desembarque no continente americano, onde recursos como petróleo, cobre, ferro, soja e lítio são fundamentais para Pequim.”


