A Marinha do Equador inaugurou seu Centro de Credibilidade e Confiança, para fortalecer a luta contra a corrupção e incrementar a transparência. A iniciativa contou com o apoio dos EUA em seu desenvolvimento, que incluiu doações de equipamentos e capacitação do pessoal de unidades especiais.
A instalação foi inaugurada em 7 de julho pelo Almirante de Esquadra Pablo Caicedo Salvador, comandante geral da Marinha do Equador, e por Erik Martini, cônsul-geral dos EUA no Equador, que destacou o compromisso dos EUA na luta contra o narcotráfico e o crime organizado, para um hemisfério mais seguro.
Cooperação bilateral

O principal objetivo do Centro é servir como uma medida preventiva de contrainteligência, para combater a corrupção e o crime organizado dentro das Forças Armadas. Ele visa investigar militares e policiais, para garantir que eles não tenham sido comprometidos por organizações criminosas transnacionais (OCTs). O Centro utilizará testes de polígrafo e outras tecnologias para obter essas evidências.
“O objetivo desse centro é elaborar uma lista das pessoas que apresentam maior risco de corrupção ou de serem infiltradas, para garantir que elas não tenham sido cooptadas pelo crime organizado”, disse à Diálogo Jean Paul Pinto, analista internacional equatoriano . “Tudo isso significa que aqueles que operam em áreas fronteiriças ou costeiras, particularmente nas áreas mais violentas e de maior risco de contaminação, devem passar por testes recorrentes de confiabilidade.”
Embora a instalação tenha sido inaugurada pela Marinha, espera-se que seus serviços beneficiem todas as Forças Armadas equatorianas e outras agências importantes de aplicação da lei. Isso inclui unidades militares que operam em áreas importantes, como as regiões fronteiriças da Amazônia e ao longo da costa do país, bem como aquelas que fornecem segurança ao sistema prisional, que tem sofrido infiltração de gangues. A capacidade do Centro de “purgar” as fileiras de pessoal comprometido fortalecerá a integridade institucional e melhorará a eficácia de suas operações contra as OCTs.
“Isso nos permitirá avaliar a confiabilidade de nossos membros e fortalecer a integridade institucional”, afirmou a Marinha do Equador. “Nossos avaliadores serão a primeira linha de defesa contra a corrupção interna e a infiltração de interesses não relacionados à nossa missão institucional.”
O apoio dos EUA ao Centro é um resultado direto de um acordo bilateral de cooperação em segurança, no valor de US$ 25 milhões, assinado com o Equador em setembro de 2024. Essa assistência, fornecida pelo Departamento de Assuntos Internacionais contra o Narcotráfico e Aplicação da Lei (INL), do Departamento de Estado dos EUA, é um componente essencial de sua missão de apoiar o desenvolvimento de capacidades das agências de aplicação da lei das nações parceiras. Além da doação inicial de equipamentos e da capacitação, espera-se que a assistência dos EUA inclua conhecimentos técnicos, orientação e financiamento operacional, para garantir a viabilidade do Centro a longo prazo. O objetivo geral do acordo é fortalecer as instituições democráticas para combater as OCTs, promover a segurança dos cidadãos, garantir a aplicação da lei e fortalecer o Estado de Direito.
O presidente do Equador, Daniel Noboa, concentrou seus esforços no fortalecimento das forças de segurança, por meio do aumento de financiamento e da ampliação de suas atribuições, informou InSight Crime. Apesar do aumento dos recursos, a falta de financiamento nos anos anteriores continua a tornar os agentes da lei vulneráveis aos subornos, indicou a organização dedicada ao estudo do crime organizado na América Latina. Entre 2013 e 2017, aproximadamente 1.000 agentes, incluindo oficiais de alto escalão, foram demitidos, quase a metade por supostas condutas criminosas relacionadas à extorsão, ao narcotráfico e ao uso de veículos policiais para transportar estupefacientes, notificou InSight Crime.
Prevenção em primeiro lugar
Especialistas concordam que, além da militarização, a situação da criminalidade e da segurança no Equador deve ser abordada com uma perspectiva abrangente, que coloque a prevenção em seu núcleo.
“O Centro de Credibilidade e Confiança da Marinha do Equador é uma medida de contrainteligência. Não é possível melhorar a segurança sem primeiro identificar aqueles que já estão infiltrados e fazem parte do crime organizado”, advertiu Pinto. “Sem essa fase preliminar, nenhuma estratégia vai funcionar.”
Para Vanessa Cárdenas, investigadora de crime organizado do Observatório de Assuntos Internacionais da Universidade Finis Terrae, no Chile, é essencial aprimorar tanto a capacidade de inteligência, como o equipamento e a capacitação policial, bem como fortalecer o sistema prisional no Equador. “[Devemos] avançar na área de prevenção, à qual os países tendem a alocar poucos recursos, porque não é visível e não produz resultados imediatos”, disse à Diálogo.
“Além do aumento das apreensões de drogas, precisamos entender que existe uma relação entre segurança e desenvolvimento. A regra é clara: maior equidade significa menos violência em uma sociedade”, afirmou Pinto.
“Qualquer iniciativa para combater o crime transnacional que integre a cooperação regional e internacional é muito positiva para o Equador”, concluiu Cárdenas. “Centros como o recém inaugurado podem ter um impacto muito positivo, desde que tenham autonomia real e supervisão das autoridades civis.”


