Exércitos do Brasil, da Colômbia e do Peru conduzem ampla operação conjunta na Amazônia

Por Dialogo
maio 24, 2016







Os exércitos do Brasil, da Colômbia e do Peru se uniram na operação mais abrangente já realizada pelas três forças na região de fronteira da Amazônia. Os países trabalham em conjunto para combater o narcotráfico e a mineração ilegal, apontada pelos comandos militares como fonte de renda para grupos criminosos.

A Operação Traíra envolveu o maior efetivo empregado até hoje de tropas das organizações militares do Comando Militar da Amazônia (CMA), com sede em Manaus, em ações com as forças vizinhas. Foram 1.082 militares diretamente envolvidos entre 4 e 8 de abril, mas a mobilização e a reversão ocorreram entre 20 de março e 20 de abril.

“As medidas de integração são fundamentais e precisamos de cada vez mais de recursos, efetivo e tecnologias para defender a Amazônia Ocidental”, diz o General de Exército Guilherme Cals Theophilo Gaspar de Oliveira, que acompanhou pessoalmente a Traíra, encerrando seu período à frente do CMA em 15 de abril. “[A região] é permeável ao crime organizado, pois tem uma cobertura vegetal que dificulta muito a vigilância. Sabemos que 80% dos crimes registrados em Manaus estão ligados a drogas, e informações da Polícia Federal (PF) brasileira indicam que somente o Peru fornece 300 toneladas de pasta-base de cocaína por ano [ao Brasil].”

Operações como a Traíra envolvem planejamento e trabalho de inteligência prévios dos três exércitos, explica o comandante da 6ª Divisão de Exército da Colômbia, General Francisco Javier Cruz Ricci. Um dos objetivos dessas operações é reduzir a destruição ambiental e por isso ocorre a vigilância nos rios, com integração entre os militares das três nações. “A extração de ouro e outros minerais financia grupos transacionais, e isso afeta os três países”, afirma o general.

As cidades localizadas na região da tríplice fronteira têm dinâmicas particulares. Portanto, é essencial que os países trabalhem em conjunto para conter a mineração ilegal e o tráfico de madeira e de drogas, diz Daniel Castillo, representante consular peruano na cidade colombiana de Leticia, no departamento do Amazonas. “Essa operação [Traíra] mostra que há esforços concretos nesse sentido.”

Do lado brasileiro, o CMA acionou três brigadas, três batalhões (um de aviação), uma companhia de forças especiais e seu Comando de Operações (COP). Colômbia e Peru estabeleceram intercâmbio de informações e coordenação das unidades situadas próximo à linha fronteiriça de cada lado.

Um dos focos foi a proteção dos rios. As tropas brasileiras e colombianas patrulharam em voadeiras os rios Caquetá e Putumayo (lado colombiano), ou Japurá e Içá (como são chamados no lado brasileiro), diz o Gen Cruz.

Combate ao crime na fronteira


A Traíra foi a segunda operação conjunta entre os exércitos do Brasil e da Colômbia em quatro meses. Em dezembro de 2015, as duas forças realizaram movimentações dentro da Operação São Joaquim (nome brasileiro) e Operação Anostomus II (nome colombiano)
. O esforço se restringiu à luta contra o narcotráfico na porção norte da fronteira entre os países, uma área conhecida como Cabeça do Cachorro devido aos contornos territoriais.

Mas o alcance da Traíra foi muito maior. A operação abrangeu uma área de 1.426 quilômetros de extensão e 1.150 km de profundidade, avançando para o interior do Brasil entre os estados do Amazonas e Acre. “Temos uma guerra de fronteira que precisa unir toda a Amazônia e que estamos perdendo, pois o dinheiro dos grandes cartéis internacionais deságua nessa região, onde é distribuído a traficantes”, afirma o Gen Ex Theophilo, ressaltando a importância da atuação interagências no Brasil.

A Traíra reuniu PF, Polícia Militar, Ministério Público Federal, Agência Brasileira de Inteligência (ABIN), Força Nacional de Segurança Pública, Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e dos Recursos Renováveis (IBAMA) e Fundação Nacional do Índio (FUNAI).

Operação Traíra


Em fevereiro, o CMA estabeleceu um posto essencial em Tabatinga, situada 1.105 quilômetros a oeste de Manaus e parte da tríplice fronteira com a cidade colombiana de Leticia e a peruana Santa Rosa. Tabatinga e Leticia são conectadas pela avenida da Amizade, enquanto Santa Rosa fica no outro lado da fronteira. O município de Benjamin Constant, situado no lado brasileiro em frente a Santa Rosa, sediou o destacamento do Solimões.

“A notícia [da operação] corre, e a tendência é os criminosos pararem de agir e se esconderem. Com isso se reduz muito a probabilidade de fazer apreensões”, diz o General de Brigada Edson Skora Rosty, comandante da 16ª Brigada de Infantaria de Selva.

Os efetivos dos Pelotões Especiais de Fronteira (PEFs) do EB em Pari-Cachoeira e Vila Mormes, pertencentes à 2ª Brigada de Infantaria de Selva (Bda Inf Sl), em Gabriel da Cachoeira; Ipiranga, Vila Bittencourt, Estirão do Equador e Palmeiras do Javari, na abrangência da 16ª Bda Inf Sl, sediada em Tefé, cumpriram a missão na fronteira do estado do Amazonas. No Sul da região, no Acre, a 17ª Brigada de Infantaria de Selva (Bda Inf Sl) montou bloqueios às margens de rios em Marechal Thaumaturgo e Porto Valter.

Longas distâncias


O comandante do COP, General de Brigada Antônio Manuel de Barros, diz que o primeiro obstáculo da Operação Traíra foi percorrer a distância – sobretudo por água ou ar – de 31.240 quilômetros em 1.000 horas. “É como fazer quase quatro vezes o percurso entre Manaus e Londres (cada trajeto soma 8.281 km) ou como se fôssemos oito vezes de Manaus a São Paulo (cada viagem é de 3.879 km). Por isso, a logística deve estar funcionando. É um trabalho muito silencioso e pesado”, resume.

Foram consumidos 171.600 litros de óleo diesel e gasolina, mais de US$ 142.450, cerca de um terço da despesa da operação, que totalizou US$ 481.481.

O 4º Batalhão de Aviação do Exército (BAvEx) partiu da base em Manaus em 2 de abril em um helicóptero Black Hawk e um Pantera rumo a Cruzeiro do Sul, no Acre, de onde foi coordenada a missão na fronteira com o Peru.

“Auxiliamos na logística das tropas, para levar mantimentos e deslocar homens”, diz o Major Luiz Haruo Kato, comandante do Black Hawk. “A vantagem é que o Black Hawk é uma aeronave de guerra e blindada, ideal para situações de ataque, caso sejamos alvo.”

Capturas e apreensões


As três brigadas (2ª, 16ª e 17ª) acionaram os PEFs ao longo da fronteira e montaram destacamentos fixos e móveis, onde as tropas avançavam em ferry boats, como no Alto Solimões. Em 6 de abril, as unidades apreenderam duas dragas usadas na extração de ouro e prenderam um peruano que monitorava as máquinas em Santo Antonio de lçá.

Em Tabatinga, um ferry boat ficou atracado no porto fluvial do 8º Batalhão de Infantaria de Selva (8º BIS) e virou quartel-general do Posto de Comando (PC), monitorando as evoluções da tropa entre 27 de março e 10 de abril.

“A área que cobrimos equivale a um estado de São Paulo”, diz o Gen Rosty, que realizava reuniões diárias, repassava objetivos da missão com seu estado-maior e se comunicava por rádio com postos mais distantes. “A embarcação, construída pela engenharia do Exército, estreou nesse tipo de operação. O ferry boat passou no teste.”

No total, as forças passaram 890 horas atravessando rios.

Reativação da Base Anzol


A Operação Traíra marcou a reativação da base Anzol, pertencente ao 8º BIS, com sede em Tabatinga. A Anzol está atracada às margens do rio Solimões e só pode ser acessada de barco.

A pesada balsa foi instalada pela Polícia Federal, mas ficou desativada vários meses por falta de recursos financeiros. Quinze homens do EB se revezam a cada 15 dias para guarnecer o que é considerado um dos acessos mais usados por narcotraficantes vindos do Peru e Colômbia para levarem drogas e armas ao exterior, usando a malha hidroviária amazonense.

“A maior chance de apreender ilícitos é quando estão adentrando no nosso território, mas muitos usam igarapés (riachos) para se desviarem da fiscalização”, diz o Capitão Leonardo Oliveira Santos, chefe da Seção de Operações do 8º BIS. “Nossa maior dificuldade é o tamanho da Amazônia. São 1.632 km de rios. Como fiscalizar todas as vias fluviais em todos os momentos?”

Na Traíra, não houve apreensão de drogas na região da Anzol, mas o Cap Santos diz que a tropa já flagrou tentativas de passar entorpecentes escondidos dentro de cilindros de mergulho, garrafas de refrigerante e até fundo falso de porão de barco. Em 2015, a PF apreendeu 1,04 tonelada de cocaína em todo o estado do Amazonas. Foi o terceiro maior volume, atrás de Mato Grosso do Sul (4,19 t) e Mato Grosso (3,24 t).

Na operação, o Exército também atuou com a Força Nacional de Segurança Pública para montar barreiras diárias na avenida da Amizade, em Tabatinga. “Com essa operação, intensificamos as abordagens em um trabalho interagências, revistando veículos e coibindo o tráfico”, diz o Tenente-Coronel Julio Cesar Belaguarda Nagy de Oliveira, Comandante do 8º BIS. “O fato de ocorrer a movimentação também inibe a atuação de criminosos.”

No período da operação, o EB registrou 2.638 interceptações, inspeções, vistorias e revistas de pessoas e veículos na área de abrangência da ação.

Exploração dos rios


O General de Brigada Ricardo Augusto Ferreira Costa Neves, Comandante da 17ª Brigada de Infantaria de Selva, explicou que é um desafio impedir que os narcotraficantes entrem no Brasil vindos do Peru. “Os traficantes entram pelo rio Japurá, chegam a Cruzeiro do Sul e trocam de transporte. Depois entram Brasil afora.”

No Acre, a dificuldade é a menor cobertura de postos militares na fronteira. “No Amazonas, a vantagem é que os PEFs ficam de frente para os postos colombianos. Aqui as distâncias são de dezenas de quilômetros entre as unidades”, compara o Gen Brig Costa Neves.

Durante a Traíra, o 61º BIS, que integra a 17ª Brigada de Infantaria de Selva, alterou o tipo de barco que utiliza, optando pelos menores e mais leves para conseguir vencer o plano de vigilância e fazer o cerco aos criminosos. O intercâmbio entre os exércitos brasileiro, colombiano e peruano também despertou a atenção da Bolívia, que compartilha fronteira com os estados de Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Rondônia, sede da 17ª Brigada de Infantaria de Selva. A Bolívia enviou oficiais do Exército, da Marinha e da Força Aérea para que acompanhassem durante dois dias a Operação Traíra, deslocando-se até os pontos de bloqueio nas áreas mais visadas e consideradas corredor do tráfico de drogas.

Ação social


Para combater os crimes transnacionais, o EB considera estratégico ter como aliadas as populações que residem nas regiões de fronteira, afirma o Gen Brig Barros. “Os moradores podem fornecer informações importantes e têm muitas necessidades. Por isso, a promoção de Ações Cívico-Sociais (ACISO) também fez parte da operação, para alcançar assistência em saúde e serviços gratuitos.”

Na Traíra, o Exército instalou estruturas para acolher a população em 11 localidades, entre municípios e aldeias indígenas, desde o norte do Amazonas até o Acre. Em Porto Valter, por exemplo, consultórios médicos, odontológicos e postos de distribuição de medicamentos foram instalados em uma escola para a ACISO, permitindo que os militares cuidassem de um grande fluxo de pacientes.

A dona de casa Maria Alzeneide Freitas Souza viajou quatro horas de barco para que seu filho Francisco, de sete anos, que estava doente, pudesse ser atendido.

“É muito difícil conseguir médico [onde moro]”, disse.


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