Argentina cria unidade de apoio para reconstrução da Venezuela

Argentina Creates Support Unit for Venezuela’s Reconstruction

Por Juan Delgado/Diálogo
abril 02, 2019

Diante da grave crise que a Venezuela vem atravessando, o governo da Argentina anunciou, no dia 14 de fevereiro, a criação da Unidade de Gestão para o Apoio à Reconstrução da Venezuela. Em um comunicado, o Ministério de Relações Exteriores e Culto da Argentina informou que a missão da unidade será colaborar com a ajuda humanitária para atender às necessidades do povo venezuelano.

“A unidade recolherá e sistematizará informações sobre as necessidades humanitárias naquele país, bem como os requisitos e necessidades de infraestrutura e fortalecimento institucional”, declarou o Ministério de Relações Exteriores e Culto. “A instituição coordenará a recepção, a administração e o envio de doações e/ou outra assistência humanitária.”

A nova unidade conta com o apoio da organização civil humanitária Comissão de Capacetes Brancos, órgão do Ministério de Relações Exteriores e Culto. A sua missão será também facilitar a participação de entidades argentinas – instituições privadas, estabelecimentos acadêmicos e organizações não governamentais, entre outras –, em diversas tarefas, como iniciativas de cooperação, assistência nas questões de direitos humanos e capacitação.

Coordenar a assistência humanitária

No dia 4 de março, membros da Comissão de Capacetes Brancos, com a participação de Elisa Trotta Gamus, representante diplomática da Venezuela na Argentina, designada pelo presidente interino daquele país, Juan Guaidó, iniciaram a capacitação dos voluntários que integrarão a unidade. As jornadas de treinamento iniciais serão realizadas nas instalações da Intendência Naval Buenos Aires da Marinha Argentina.

“Nessa unidade, somos os encarregados de coordenar a assistência humanitária”, disse à Diálogo Alejandro Daneri, presidente da Comissão dos Capacetes Brancos, que destacou o apoio da Marinha Argentina no treinamento dos voluntários. “Há um acompanhamento permanente para o desenvolvimento dessa tarefa conjunta.”

Os voluntários venezuelanos que imigraram para a Argentina, para escapar da crise em seu país, aprenderam como deverão receber as doações e administrar os depósitos onde os bens serão armazenados, entre outras atividades. Eles serão encarregados de recolher e classificar os alimentos, os remédios e outros artigos de primeira necessidade, como massas, açúcar, sucos em pó, sabão, creme dental e toalhas, entre outros, que serão enviados como parte da ajuda humanitária.

“Nossos especialistas treinarão os cidadãos venezuelanos residentes na Argentina na administração dos depósitos e no armazenamento das mercadorias doadas, que serão em seguida enviadas a Cúcuta [cidade da Colômbia na fronteira com a Venezuela]”, disse Daneri. “O mais importante é a assistência humanitária na questão da Venezuela. As pessoas estão passando por uma situação muito difícil.”

O governo da Argentina estima que mais de 130.000 venezuelanos se encontram no país em exílio forçado. Segundo a Organização dos Estados Americanos, os refugiados venezuelanos na América Latina são mais de 3 milhões, sendo que mais de 1 milhão na Colômbia, e poderão ultrapassar 5 milhões até o final de 2019.

Em junho de 2018, um grupo de Capacetes Brancos viajou à Colômbia para prestar assistência médica aos venezuelanos em Cúcuta e oferecer serviços de medicina geral, pediatria, ginecologia e psicologia, bem como exames de laboratório, imagens de diagnóstico e fornecimento de medicamentos. A missão de seis meses atendeu a milhares de venezuelanos, priorizando as mulheres em idade fértil e os jovens menores de 17 anos.

Daneri também ressaltou a participação de membros dos Capacetes Brancos que integraram a missão humanitária do navio-hospital USNS Comfort da Marinha dos EUA, como parte da Missão Promessa Duradoura do Comando Sul dos EUA, realizada entre outubro e dezembro de 2018. A bordo do navio, os voluntários argentinos prestaram atendimento de saúde às comunidades necessitadas do Equador, do Peru, da Colômbia e de Honduras, bem como aos migrantes venezuelanos que haviam fugido da crise no seu país. “Participar dessa missão foi uma grande experiência e reflete a cooperação e o bom relacionamento entre os Capacetes Brancos e os Estados Unidos”, disse Daneri.

Apoio a Juan Guaidó

Com a criação da unidade, o governo da Argentina reafirma seu patrocínio ao programa de diretrizes de Guaidó, que prioriza realizar ações pacíficas, autorizar a entrada de ajuda humanitária na Venezuela e estender a mão aos militares da Força Armada Nacional Bolivariana para restabelecer a ordem constitucional com seu apoio. Dias depois do anúncio, no dia 23 de fevereiro, o governo de Maduro impediu a entrada de artigos de primeira necessidade, que eram parte da assistência internacional, nas fronteiras que a Venezuela compartilha com a Colômbia e o Brasil.

O Grupo de Lima, bem como os Estados Unidos, condenou os atos de Maduro, a violência e o bloqueio de toneladas de ajuda humanitária. Em um comunicado publicado no dia 25 de fevereiro, os líderes do Grupo de Lima, entre eles a Argentina, conclamaram os militares venezuelanos a reconhecer Guaidó como seu comandante em chefe e a “parar de servir como instrumentos do regime ilegítimo de Nicolás Maduro.”

No dia 1º de março, Guaidó foi recebido em Buenos Aires pelo presidente argentino Mauricio Macri, como parte de sua série de viagens para reforçar o apoio contra o regime de Maduro. Os líderes discutiram sobre como organizar a transição democrática na Venezuela e a ajuda humanitária, entre outros temas.

“A Argentina acolheu um enorme número de venezuelanos e agradecemos o gesto para com nossos compatriotas”, disse Guaidó em uma entrevista coletiva. “Este é o início de uma nova etapa de relações entre a Venezuela e a Argentina. Trata-se de uma relação baseada em valores fundamentais e não no interesse de poucos.”

Em seu perfil oficial no Twitter, Macri condenou mais uma vez a atuação de Maduro e reafirmou o apoio da Argentina ao povo venezuelano. “A situação que os venezuelanos estão enfrentando é dramática. A Argentina apoiará todos os esforços de reconstrução da democracia venezuelana e o restabelecimento das condições de vida dignas para todos os seus cidadãos”, declarou.
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