Argentina ativa Comando Conjunto Antártico permanente

Argentina Activates Permanent Antarctic Joint Command

Por Eduardo Szklarz/Diálogo
novembro 13, 2018

As Forças Armadas Argentinas ativaram o Comando Conjunto Antártico (COCOANTAR), inaugurando o processo de reestruturação. Formado por integrantes da Marinha, do Exército e da Força Aérea, o COCOANTAR é o responsável pelo planejamento e pela execução do apoio logístico às bases argentinas, através da Campanha Antártica de Verão (CAV) anual. No entanto, sua estrutura era em sistema de rodízio e mudava antes de cada campanha. Agora o comando conduz as operações de forma estável e contínua.

As autoridades assumiram no dia 15 de agosto de 2018, efetivando a mudança. O Coronel da Força Aérea Argentina Enrique Oscar Videla, 2º comandante conjunto antártico, e o 1º Tenente do Exército Argentino Diego Fabián Nieva, responsável pelas relações institucionais da entidade, receberam Diálogo na sede da instituição, em Buenos Aires.

“Antigamente, o COCOANTAR era formado três meses antes de cada CAV e desarticulado quando a campanha terminava. Agora, o que melhorou é que esse grupo de pessoas se mantém e atua de forma permanente durante o ano inteiro”, disse o Cel Videla. “Já não precisamos começar a cada mês de setembro com pessoal novo. Essa continuidade garante um planejamento muito mais preciso.”

Reestruturação das Forças Armadas Argentinas

A formação do COCOANTAR de modo permanente é o primeiro passo para a reestruturação das Forças Armadas Argentinas, anunciada em julho de 2018 pelo presidente Mauricio Macri. “A reestruturação é uma política de Estado que busca dar mais eficiência à sua organização. E uma das etapas dessa reestruturação é essa mudança que ocorreu no COCOANTAR”, explicou o 1º Ten Nieva.

“Reestruturar é otimizar recursos”, acrescentou o Cel Videla. “A ideia é começar a trabalhar de forma mais conjunta entre as forças, o que também reduz os gastos para o funcionamento.”

Segundo o Cel Videla, a tendência mundial das forças armadas é implementar doutrinas, operações de paz e forças especiais conjuntas. “Tudo tende a ser conjunto”, afirmou. “A Campanha Antártica sempre foi feita em conjunto, mas de lugares diferentes. Com isso agora começamos a nos amalgamar um pouco mais.”

Logística das bases

A Argentina é o país com a maior quantidade de bases operacionais na Antártida. São 13 ao todo: seis permanentes, que funcionam o ano inteiro (Orcadas, San Martín, Carlini, Esperanza, Belgrano II e Marambio) e sete temporárias, que só são ativadas no verão (Matienzo, Petrel, Brown, Primavera, Cámara, Decepción e Melchior).

O COCOANTAR abastece toda essa estrutura, levando combustível, roupas, alimentos, medicamentos e ferramentas, além de organizar a substituição das equipes e apoiar a atividade científica. Na CAV 2017-2018, por exemplo, foram transportadas 2.400 toneladas de carga, incluindo gasóleo antártico (um combustível que contém um aditivo anticongelante), garrafas de gás e materiais de construção. Além disso, os militares levam para a Argentina os resíduos, recipientes, caixas de plástico e todo o lixo doméstico produzido pela vida na Antártida.

“No inverno, uma base pequena abriga de 20 a 25 pessoas. Uma base grande, como a Esperanza, entre 50 e 60”, disse o 1º Ten Nieva. “O número aumenta no verão, quando temos cerca de 90 pessoas em Esperanza e entre 70 e 80 em Carlini, por exemplo.” Para a CAV 2018-2019, que começará em meados de dezembro, os militares argentinos utilizarão o quebra-gelo Almirante Irizar, dois navios polares, um avião Hércules C-130, dois helicópteros e um avião Twin Otter, além dos veículos anfíbios e terrestres do Exército e da Marinha.

Mais de 100 anos de presença

A Argentina é também o país com a mais longa presença contínua no continente branco: 114 anos. A gestão começou no dia 22 de fevereiro de 1904, quando os argentinos hastearam a bandeira nacional nas ilhas Orcadas e ali instalaram uma estação meteorológica.

“Isso, para nós, é um fator de orgulho e compromisso, não apenas pela longa presença e pela maior quantidade de bases destacadas no verão, mas também pela nossa proximidade com a Antártida”, disse o Cel Videla. “E mais ainda pela importância da atividade científica que se efetua ali. Temos que fazer tudo com muita precisão.”

As bases argentinas mantêm convênios de cooperação científica com os Estados Unidos, a Dinamarca, a Espanha, a Finlândia, a Itália e o Reino Unido, entre outros países. A base Carlini, inclusive, abriga um laboratório alemão. Essa interação nos permite estudar desde os efeitos da mudança climática até os poluentes químicos, a radiação, os mamíferos e o plâncton marinho.

“A camaradagem antártica é nítida não apenas entre as diferentes forças, mas também entre os diferentes países”, comentou o 1º Ten Nieva. “Eu estive, por exemplo, com alemães e americanos na base Carlini. A relação pessoal é única e todos querem voltar.”

“O que os mais de 100 anos na Antártida nos proporcionam? Eles nos proporcionam um conhecimento, uma experiência que nem todos os países têm. E é um motivo de orgulho poder oferecer esse conhecimento”, concluiu o 1º Ten Nieva.

O companheirismo também se reflete na ajuda mútua entre os países. Em março de de 2018, por exemplo, o quebra-gelo Almirante Irízar resgatou cinco cientistas americanos que estavam atolados em um acampamento na ilha Joinville. “Muito obrigado, Argentina, por enviar o Almirante Irízar para auxiliar os nossos cientistas isolados na região antártica, reafirmando o espírito de cooperação que anima as nossas relações”, afirmou na ocasião a Embaixada dos EUA em Buenos Aires, no seu perfil oficial no Twitter.
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