• Home »
  • Notícias »
  • Análise: Rússia continua investindo na Venezuela com a intenção de controlar a América Latina

Análise: Rússia continua investindo na Venezuela com a intenção de controlar a América Latina

Análise: Rússia continua investindo na Venezuela com a intenção de controlar a América Latina

Por Antonio Belchi / Voz da América
março 06, 2020

Nos últimos anos, a petrolífera russa Rosneft aumentou sua presença na Venezuela. Com que intenção? Vários analistas consultados pela Voz da América garantem que o plano da empresa, cujo proprietário é o governo russo, não se atém às necessidades de gás e petróleo, mas sim que seu interesse está em “razões geopolíticas”, para conseguir controlar a região latino-americana.

“A Rússia quer manter presença importante na Venezuela, da mesma forma como vem atuando historicamente nos últimos 50 anos em Cuba”, afirmou Edward Glab, diretor do Fórum de Energia da Universidade Internacional da Flórida.

Na sua opinião, o aumento dos investimentos na Venezuela se deve “a uma política exterior” do governo da Rússia, ao qual o regime de Nicolás Maduro deve bilhões de dólares em dívidas contraídas devido à venda de petróleo cru em baixa.

A delicada situação que vive o país em consequência da grave crise econômica, social e política, na sua opinião, não beneficia o investimento estrangeiro, pois existem outros lugares no mundo com muito mais segurança e estabilidade econômica, com capacidade de exportar petróleo.

Assim sendo, Glab insistiu no fato de que os investimentos multimilionários que a petrolífera russa continua realizando na Venezuela têm relação com essa estratégia do Kremlin para controlar a América do Sul.

“A Rosneft tem condições favoráveis para investir na Venezuela. Entretanto, quem investirá mais dinheiro na Venezuela em vista desses fatos e dessa dívida tão alta?”, perguntou o especialista, que durante 25 anos trabalhou em várias operações da Exxon na Venezuela.

A grave situação da PDVSA
Juan Fernández, que trabalhou na Petróleos da Venezuela Sociedade Anônima (PDVSA) durante quase duas décadas, ressaltou que “o grau de deterioração da indústria petrolífera venezuelana é enorme” e acrescentou que, hoje em dia, “estamos nos níveis do século passado”.

“Apesar da cantilena de que ali existem as maiores reservas mundiais de petróleo, a indústria petrolífera venezuelana praticamente não tem qualquer influência”, enfatizou, lembrando que o país “já foi o primeiro produtor de petróleo do mundo, o primeiro exportador de petróleo do mundo e também um dos países fundadores da OPEP [Organização dos Países Exportadores de Petróleo].”

Fernández, que em 2002 fundou “Gente do Petróleo” e que vive exilado no sul da Flórida, acha que o petróleo e o negócio da mineração continuam sendo “uma alavanca para a recuperação econômica da qual o país necessita”.

No entanto, ele considera que é “importante que o modelo a ser aplicado na economia” leve em conta o setor privado: “Que termine o monopólio do estado na indústria petrolífera e em outras indústrias, como os setores de mineração ou de eletricidade.”

Como a Rosneft ajuda a evitar as sanções dos Estados Unidos?
Nos últimos tempos, a PDVSA tem sido afetada pelas duras sanções dos Estados Unidos à empresa e a altos funcionários da companhia estatal. Segundo o especialista venezuelano, a conjuntura econômica e comercial obrigou a Venezuela a recorrer à Rosneft, que se tornou “o braço comercializador da Petróleos da Venezuela”. Tudo isso com a intenção de poder “colocar barris no mercado” internacional.

A TNK e a Procerium Energy são duas companhias que dependem diretamente da Rosneft.

A denominada “estrutura de exportação” para escapar das sanções contra a PDVSA é, segundo os especialistas, a medida adotada pela Venezuela nos últimos tempos.

“Os barris exportados pela Rosneft vão para uma refinaria na Índia denominada Nayara Energy, que processa petróleo cru pesado. A TNK e a Procerium enviam a carga para Singapura, para poder processar o petróleo cru pesado na China”, informa.

“Quando se exporta petróleo e se descarrega em um tanque da Rosneft, imediatamente a propriedade desse petróleo passa a ser dos russos”, comentou Fernández, referindo-se também às operações “ship to ship” de intercâmbio de petróleo cru entre as embarcações em alto mar.

Essa é outra maneira de exportar o petróleo cru para os mercados internacionais, afirma, porque o “petróleo não tem DNA” e é impossível identificar a sua procedência.

A dívida venezuelana no setor petrolífero
Horacio Medina, que conhece muito bem o mercado venezuelano, porque trabalhou na PDVSA entre 1980 e 2002, diz que não se sabe qual será o futuro do setor na Venezuela, nem que impacto a Rosneft poderá ter na região em um futuro próximo.

Ainda se desconhece o valor da dívida da Venezuela com a Rússia, mas o Kremlin continua apostando no país. “Do ponto de vista estritamente comercial, a China, a Rússia ou a Índia estariam muito mais interessadas que a Venezuela passasse por um processo de transição que possibilitasse algum tipo de garantia sobre as dívidas contraídas”, ressalta.

Contudo, parece que a Rosneft continuará operando na Venezuela com perspectivas de longo prazo. Esse não é o melhor cenário, dizem os analistas, mas o país é o mais estratégico para que mantenham maior presença e poder no mercado latino-americano.

Share