A luta contra o Tren de Aragua vem se intensificando na América Latina com vários feitos, graças em parte ao aumento da cooperação e do intercâmbio de inteligência entre as forças de segurança das nações parceiras. O Tren de Aragua, que começou na Venezuela e que a Argentina e os Estados Unidos designaram como uma organização terrorista, vem espalhando seus tentáculos e causando estragos em toda a região.
Em 6 de março, na província chilena de Arica, no norte do país, o tribunal criminal condenou 34 membros de Los Gallegos, uma célula do Tren de Aragua, a penas de prisão que somam cerca de 560 anos, informou o jornal chileno La Tribuna. Os condenados, 31 venezuelanos e três chilenos, foram declarados culpados de crimes como associação criminosa, tráfico de drogas e armas, sequestro e homicídio, entre outros.
Em um comunicado, o Ministério Público do Chile classificou o julgamento como “histórico” e disse que era um dos “mais relevantes em nível nacional, na luta contra o crime organizado transnacional”.
Em outra grande operação na capital chilena, Santiago, no final de janeiro, agentes do Ministério Público desmantelaram os Piratas do Tren de Aragua, outra célula da organização criminosa, responsável por sequestros, homicídios e extorsões cometidos entre 2023 e 2024.
Essa quadrilha está ligada ao assassinato do Major Emmanuel Sánchez, de Carabineros, em Santiago, que foi abatido em abril de 2024, quando tentava impedir um crime, e ao assassinato do ex-militar venezuelano, 1º Tenente Ronald Ojeda, dissidente do regime de Nicolás Maduro, que foi assassinado em fevereiro de 2024, perto de Santiago, “supostamente por ordem de Diosdado Cabello”, informou o site de notícias chileno Bio-Bío.
O desmantelamento dos Piratas foi possível devido às incursões em 21 lugares na região metropolitana de Santiago. As batidas incluíram buscas em prisões, nas quais estão detidos os presos ligados à gangue, indicou Héctor Barros, promotor-chefe das Equipes de Crime Organizado e Homicídios, ao jornal chileno La Tercera. No total, as forças policiais prenderam 23 criminosos.
Os Piratas operavam no Chile sob o comando de Adrián Gómez, vulgo El Turco, que foi preso nos Estados Unidos em dezembro de 2024, informou o site de notícias argentino Infobae. Outros membros dos Piratas incluíam Larry Álvarez, vulgo Changa, e Carlos Gómez, vulgo El Bobby, que foram presos na Colômbia.
“As organizações criminosas aumentaram seus crimes. Elas agora são muito mais violentas e prejudiciais à sociedade”, disse à Diálogo a Prefeita Carolina Namor, chefe de Cooperação Internacional da Polícia de Investigação do Chile (PDI). “A eficácia da PDI na perseguição aos criminosos do Tren de Aragua no Chile faz com que eles sintam a pressão e se desloquem para outros países, onde felizmente a coordenação interagências está surtindo efeito e eles estão sendo presos.”
A Prefeita Namor usou como exemplo a prisão dos criminosos envolvidos no sequestro e morte do 1º Ten Ojeda. “Para conseguir isso, trabalhamos em estreita colaboração com a Polícia Nacional da Colômbia e a Agência Federal de Investigação (FBI) dos EUA”, disse. O corpo decomposto do 1º Ten Ojeda foi encontrado em uma mala, envolto em concreto, dias após seu sequestro na capital chilena, em fevereiro de 2024.
Na Colômbia, no final de fevereiro, as autoridades também desferiram um golpe importante contra o Tren de Aragua, ao capturar duas figuras importantes no departamento de Santander: Jeison Lorca Salazar e Derwin Isaías Chávez Mora, ambos envolvidos em tráfico de drogas, extorsão, sequestro e homicídio, informou Infobae.
Acredita-se que Lorca fosse o segundo líder mais importante do Tren Aragua na Colômbia. Por sua vez, Chávez era um dos principais objetivos das autoridades internacionais, devido à sua participação em atividades criminosas de alto impacto, e era requerido pela Interpol, informou Infobae.
A Argentina também está agindo rapidamente para erradicar a presença da quadrilha internacional. Em fevereiro, o Ministério da Segurança da Argentina classificou o Tren de Aragua como uma organização terrorista, “porque representa uma ameaça séria e multifacetada à segurança nacional”. A medida coloca a quadrilha no Registro Público de Indivíduos e Entidades Ligadas a Atos de Terrorismo, que inclui Al-Qaeda e indivíduos ligados ao Hezbollah e ao atentado à AMIA, entre outros.
“Isso significa congelamento de bens, bloqueio de operações e perseguição total”, disse a ministra argentina da Segurança Nacional, Patricia Bullrich, via X. “Estamos enfrentando as máfias de forma decisiva […]; não vamos permitir que essa organização criminosa continue a espalhar o terror em nosso país.”
A medida tomada pelo governo da Argentina segue a do governo dos EUA, que incluiu o Tren de Aragua em sua lista de organizações terroristas globais.
O Tren de Aragua se espalhou por toda a região, “porque se adaptam à dinâmica criminosa urbana de cada cidade onde se instalam”, informou InSight Crime, uma organização que estuda o crime organizado na América Latina.
“[Os membros do] Tren de Aragua […] estão interessados em territórios precários, onde há muita pobreza e marginalidade”, disse à Diálogo Alejandro Arévalo, investigador da Academia Nacional de Estudos Políticos e Estratégicos do Chile. “É conveniente para eles se estabelecerem em lugares com essas características, porque lá eles podem torturar, gerar mecanismos de pressão sobre os vizinhos, para se estabelecerem ali e desenvolverem suas atividades ilícitas.”
Em setembro de 2024, o então subsecretário do Interior, Manuel Monsalve, e o então vice-chefe de missão da Embaixada dos EUA no Chile, Richard Yoneoka, agora encarregado de negócios, reuniram-se para discutir a segurança das fronteiras e o combate ao crime organizado, concordando em colaborar no controle das fronteiras, para melhorar a segurança dos chilenos.
“Como instituição, temos a certeza de que a coordenação entre as polícias trará mais conquistas e capturas dos membros do Tren de Aragua na região”, concluiu a Prefeita Namor. “É fundamental coordenar o trabalho policial e levá-lo a diferentes países de forma integrada, combinada, profissional, segura, séria, para todos os envolvidos no processo, não apenas para o país, mas para toda a região.”


