Comando Militar da Amazônia treina tropas para defender a floresta

Amazon Military Command Trains Troops to Defend the Forest

Por Andréa Barretto/Diálogo
dezembro 22, 2016

Como coroamento do ano de instrução militar do Comando Militar da Amazônia (CMA), mais de 1.500 homens e mulheres participaram da Operação Machifaro III, entre os dias 14 e 18 de novembro. O objetivo do exercício está expresso no próprio nome escolhido para a atividade. Machifaro é uma província da Amazônia que, no século 16, foi palco de resistência do grupo indígena local contra os exploradores espanhóis. O espírito de defesa do território brasileiro é o que a operação atual resgata. “A Operação Machifaro se desenvolve no contexto de defesa externa, quer dizer, no contexto de emprego do poder militar frente a um outro Estado”, declarou o General de Brigada Antonio Manoel de Barros, comandante do Centro de Operações do CMA. Criada em 2014, essa é a terceira edição da operação que vem ocorrendo anualmente e, pela primeira vez, teve como terreno de atuação um centro urbano, a cidade de Manaus, capital do estado do Amazonas. A novidade buscou exigir dos participantes o emprego de táticas para o combate em ambiente de cidade. Em Manaus, por exemplo, uma equipe de militares fez o papel de hackers para promover o exercício de guerra cibernética, outra inovação da edição Machifaro de 2016. A inclusão desse tema no treinamento segue diretriz da Estratégia Nacional de Defesa, documento que define o setor cibernético como estratégico para a defesa brasileira, ao lado dos setores nuclear e espacial. Além da capital amazonense, a operação abrangeu os municípios de Manacapuru e Iranduba, localizados na região metropolitana de Manaus. Adestramento avançado Os mais de 1.500 militares participantes da Operação Machifaro foram provenientes de três unidades do CMA, sediadas em três diferentes estados da região amazônica: Amazonas, Roraima e Rondônia. Também participou do treinamento uma equipe do Centro de Defesa de Cibernético do Exército, que fica em Brasília. As unidades do CMA foram a 16ª Brigada de Infantaria de Selva, com sede em Tefé, no estado do Amazonas; a 17ª Brigada de Infantaria de Selva, com sede em Porto Velho, capital de Rondônia; e Organizações Militares da 1ª Brigada de Infantaria de Selva, com sede em Boa Vista, capital de Roraima. A Operação Machifaro é uma atividade de adestramento avançado porque envolve as unidades do topo do escalão da estrutura de um Comando Militar, as chamadas brigadas, diferentemente dos adestramentos básicos, os quais envolvem as unidades menores, a começar pelo pelotão, conforme explicou o Gen Brig Barros, que disse ainda que a Operação Machifaro III exigiu um investimento de mais de US$ 445.000. O deslocamento de todo o pessoal proveniente de localidades tão distantes – além do deslocamento dos meios como obuseiros, lanchas, helicópteros e armamentos – para o centro de realização da operação foi a primeira dificuldade superada nesta operação. “As más condições das poucas estradas que ligam os centros urbanos da Amazônia são uma realidade. Por isso, concentrar uma quantidade numerosa de meios, viaturas e pessoal através desse modal se torna para a gente um grande desafio”, afirmou o Major Leriche Albuquerque Barros, que serve na 16ª Brigada de Infantaria de Selva e participou do planejamento, coordenação e execução da Operação Machifaro. Invasor versus invadido Foi preciso uma semana para que todos os participantes e todos os meios fossem mobilizados para a região metropolitana de Manaus. Uma vez concentrados ali, foi dado início ao exercício de treinamento. “Fizemos dois adestramentos simultâneos, mas que aplicaram estratégias diferentes para lidar com a situação hipotética de invasão da Amazônia”, esclareceu o Gen Brig Barros. Um dos exercícios envolveu os militares da 16ª Brigada, que contou com o apoio de unidades de artilharia e cavalaria da 1ª Brigada, com quatro obuseiros. Esse grupo tinha o objetivo de enfrentar uma força oponente com poder militar supostamente inferior ao das tropas brasileiras. O outro exercício envolveu as tropas da 17ª Brigada, que também contou com reforço da 1ª Brigada, com um obuseiro. Esse grupo tinha como oponente hipotético uma potência com poderio militar indubitavelmente superior, diante da qual se aplicou a chamada estratégia de resistência. “A estratégia de resistência tem como premissa defender a soberania de um território em que o inimigo tem um poder incontestavelmente superior”, disse o Maj Leriche. “Isso resulta, na prática, na aplicação de ações complexas que buscam tirar a vontade do invasor de combater aqui dentro. Por exemplo, a gente faz com que ele não consiga dormir direito, não tenha comida, que a água dele esteja contaminada etc.”, completou. Para que o cenário criado se aproximasse ao máximo de uma situação real, a 16ª Brigada fez o papel do invasor com maior poder militar, enquanto a 17ª Brigada atuou como força de resistência. Ambas as unidades treinaram tiros com obuseiros e morteiros pesados, usando munição real, e tiveram que planejar e executar ações uma contra a outra. Em uma das situações, por exemplo, as tropas da 17ª Brigada tiveram que desmontar um obuseiro para infiltrá-lo de forma dissimulada em um terreno, de modo a não chamar a atenção do inimigo, que estava controlando algumas vias de acesso. “A ideia era testar o que dá certo ou não e tirar daí os ensinamentos”, contou o Maj Leriche. O Gen Brig Barros avaliou positivamente o resultado do treinamento. “A estratégia de resistência é uma coisa nossa, criada pelas nossas Forças Armadas. A gente não tem em que se basear para desenvolver a doutrina do combate de resistência; contamos apenas com algumas referências históricas. Por isso, precisamos estar em constante aperfeiçoamento do adestramento”. Além do treinamento das tropas, a Operação Machifaro proporcionou atendimentos médicos e odontológicos e atividades educacionais e de recreação à população do município de Manacapuru.
Share