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2012-01-05

UFC: nova paixão nacional no país do futebol

O brasileiro Anderson Silva é o dono de dois recordes no UFC – 14 vitórias consecutivas e 9 defesas bem-sucedidas do cinturão – e foi declarado o melhor lutador da história da competição pelo presidente do UFC, Dana White. (Cortesia de Wander Roberto/UFC)

O brasileiro Anderson Silva é o dono de dois recordes no UFC – 14 vitórias consecutivas e 9 defesas bem-sucedidas do cinturão – e foi declarado o melhor lutador da história da competição pelo presidente do UFC, Dana White. (Cortesia de Wander Roberto/UFC)

Por Thiago Borges para Infosurhoy.com — 05/01/2012

SÃO PAULO, Brasil – No país do futebol, um pontapé levou outro esporte às alturas.

O assunto mais comentado pelos brasileiros no Facebook em 2011 não foi a Seleção ou a vitória do Corinthians no campeonato Brasileiro. O campeão do ano foi o Ultimate Fighting Championship (UFC), principal torneio de Artes Marciais Mistas (MMA, na sigla em inglês) do mundo.

Um dos maiores responsáveis pelo sucesso do MMA no Brasil é o autor do pontapé da primeira linha: o lutador Anderson Silva, o Aranha, de 36 anos e 1,89m. O peso-médio é pai de cinco filhos, usa óculos de grau e tem voz fina. Mas, dentro do octógono, ele se transforma.

Em 6 de fevereiro, Silva defendeu o cinturão dos médios contra outro brasileiro, Vitor Belfort. Aos 3min29seg, Silva nocauteou o rival com um chute certeiro de pé esquerdo no queixo.

Silva é o dono de dois recordes no UFC – 14 vitórias consecutivas e 9 defesas bem-sucedidas do cinturão – e foi declarado o melhor lutador da história da competição pelo presidente do UFC, Dana White.

“Até aquele confronto, a mídia nacional nunca havia dado tanta atenção a um combate de MMA”, lembra Eduardo Cruz, jornalista especializado em MMA e autor do blog “MMA, Mano a Mano”.

O embate Silva x Belfort dominou as redes sociais. O campeão, que até então era conhecido apenas entre os fãs de MMA, virou ídolo nacional e garoto-propaganda de rede de fast-food, automóvel e motocicleta.

Especializado em Tae Kwon Do, Jiu-Jitsu, Muay Thai e Capoeira, o lutador virou faixa preta também no Twitter: do dia para a noite, ganhou mais de 900.000 seguidores.

Pela vitória, ele faturou mais de US$ 200.000. Nos meses seguintes, comprou duas mansões, uma no Rio e outra na Califórnia, e, como os craques do futebol, passou a andar cercado de seguranças e assessores.

“Antes, [o MMA] tinha uma imagem negativa, mas agora isso mudou. O que faltava era o público conhecer melhor os praticantes do esporte”, disse Anderson, ao participar de um quadro sobre os destaques do ano num popular programa de TV, “Domingão do Faustão”, em 25 de dezembro.

Na TV aberta

A boa repercussão motivou o UFC a realizar a edição 134 no Rio de Janeiro, no fim de agosto. Pela primeira vez, a competição foi transmitida ao vivo por uma emissora de televisão aberta – a Rede TV!.

Os 15.000 ingressos colocados à venda se esgotaram em menos de duas horas. O evento teve uma superprodução, gerando 435 empregos e um impacto econômico positivo de R$ 66,8 milhões.

Em 2012, pelo menos três edições serão no Brasil, com transmissão ao vivo da Rede Globo, a maior emissora do país.

Em 12 de novembro, a Globo fez um teste de popularidade. A luta da categoria peso-pesado entre o brasileiro Júnior Cigano e o americano Cain Velásquez foi transmitida ao vivo, da Califórnia, com narração de Galvão Bueno.

Cerca de 60 milhões de pessoas assistiram ao duelo, que durou pouco mais de 1 minuto, com vitória por nocaute de Cigano. Mais famoso narrador de futebol e Fórmula-1 do país, Galvão agora tem um novo esporte.

“Não imaginei que, aos 40 anos de carreira, encontraria um novo desafio”, disse Galvão após a luta.

Próxima luta será em 14 de janeiro

A próxima edição do UFC no Brasil será em 14 de janeiro, na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro. Os executivos do UFC querem levar uma das outras edições para um estádio de futebol em São Paulo.

Por trás desses eventos, está o oitavo homem mais rico do mundo, o empresário brasileiro Eike Batista. Com faro para bons negócios, Eike fez questão de assitir da primeira fila às lutas no Rio de Janeiro.

Além de patrocinar dois lutadores, os irmãos Antônio Rodrigo “Minotauro” Nogueira and Antônio Rogério “Minotouro” Nogueira, Eike se associou à IMG Worldwide, um dos maiores grupos de marketing esportivo do mundo, e comprou a franquia do UFC no Brasil

Reality show: primeira vez em TV aberta

A partir de março, a TV Globo vai exibir o reality show “The Ultimate Fighter – Brasil”, que já teve 14 temporadas na TV a cabo americana e será produzido pela primeira vez fora dos Estados Unidos.

O objetivo do programa é descobrir novos lutadores. Os participantes passam a morar e treinar juntos, enquanto competem entre si. O prêmio principal é um contrato com o UFC.

“Há muito talento escondido para se descobrir no Brasil”, disse White, em entrevista coletiva sobre o reality show. “O Brasil será, em breve, o principal mercado do UFC no mundo, ultrapassando os Estados Unidos.”

A primeira audição do programa reuniu, em dezembro, mais de 400 lutadores.

“Temos uma economia estável e o número de pessoas que praticam o esporte não para de crescer”, justifica Marcus Macedo, diretor-geral do Grupo Exim, que detém os direitos da marca UFC na América Latina desde o fim de 2010.

Para atender a esse público – que tem 40% de mulheres –, o Grupo Exim já licenciou mais de 400 produtos com a marca UFC, como bonés, camisetas, luvas, sacos de areia, alimentos, revistas e álbuns de figurinha.

Até agora, a empresa fechou mais de R$ 140 milhões em contratos.

Para 2012, a expectativa é abrir lojas, academias e bares temáticos do UFC no país.

Macedo também quer fortalecer a marca em outros países da América Latina, como Argentina, Chile e Colômbia.

Família Gracie: inventores

Além de Silva na categoria peso-médio, mais dois brasileiros defendem seus cinturões de campeão atualmente: José Aldo Jr. (peso-pena) e Junior “Cigano” dos Santos (peso-pesado).

Mas não é de hoje que atletas brasileiros se destacam no campeonato. O UFC, aliás, foi criado por um brasileiro.

Filho mais velho de Hélio Gracie - patriarca do clã que inventou o jiu-jitsu brasileiro -, Rorion Gracie organizou o primeiro duelo do UFC com alunos de sua academia, em 1993, nos Estados Unidos.

“O MMA tem espectadores no Brasil desde os anos 90. O esporte era acompanhado por fãs que garimpavam vídeos ou assistiam aos eventos ao vivo na internet”, explica Cruz, do blog Mano a Mano.

O professor de educação física Aparecido José Alves, 29, é um desses antigos fãs.

Em 1997, Alves foi a uma locadora perto de sua casa, em São Paulo, e encontrou uma fita VHS com vídeos do UFC.

“Eu fiquei maravilhado com a ideia de reunir lutadores de estilos diferentes no mesmo ringue”, lembra. “E, para minha surpresa, o melhor lutador era um brasileiro”, diz, referindo-se a Royce Gracie.

Como nunca teve TV por assinatura, Alves se acostumou a ver os confrontos na internet. Agora, ele comemora as transmissões na TV aberta.

“Finalmente o esporte ganhou o reconhecimento que merece”, diz Alves.

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