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2010-03-24

País pequeno, mas com grande poder futebolístico

O treinador Gerald “Tata” Martino comemora enquanto os jogadores se divertem ao confirmarem a quarta participação seguida do Paraguai na Copa do Mundo. (Juan Barreto/AFP/Getty Images)

O treinador Gerald “Tata” Martino comemora enquanto os jogadores se divertem ao confirmarem a quarta participação seguida do Paraguai na Copa do Mundo. (Juan Barreto/AFP/Getty Images)

Por Hugo Barrios para a Infosurhoy.com — 24/03/2010

ASUNCIÓN, Paraguai – Assim que o juíz Salvio Fagundes apitou, iniciou-se a estridente comemoração que se estendeu além das arquibancadas do Estádio Defensores del Chaco, onde um público de 38.000 festejou a vitória de 1 a 0 sobre a Argentina, garantindo uma vaga na Copa do Mundo de 2010.

Para entender a razão das 6,3 milhões de pessoas deste país, sem acesso ao mar, entalado entre as superpotências do futebol — Brasil e Argentina —, transformarem esse nação em um mar de cores vermelhas, brancas e azuis vibrantes, basta dar uma olhada na significativa noite de 9 de setembro de 2009.

Aos 27 minuto, o gol do atacante Nelson Váldez foi o ponto decisivo do jogo, mas também se tornou o início de um novo capítulo da história mais inverossímil do futebol internacional.

Apenas cinco equipes do hemisfério ocidental foram qualificadas nas últimas Copas: Brasil, Argentina, México, Estados Unidos e ….Paraguai.

Sim, o Paraguai. Esse país da América do Sul que tropeça em vários obstáculos em matéria de recursos naturais, infraestrutura e indústria conseguiu superar as proezas de países com melhores condições como Colômbia, Venezuela e Chile.

Desde a Copa do Mundo de 1998 na França, a equipe nacional do Paraguai tem atuado nos maiores estádios do mundo, enquanto muitas equipes de outros países assistiram às edições de 2002 e 2006 pela TV. Em junho não será diferente, já que o Paraguai estará entre as 32 esquadras de todo o mundo, competindo pelo mais prestigioso troféu na África do Sul.

Como isso é possível num país onde 38 de cada 100 são pobres e a liga profissional do país está desguarnecida, já que os melhores jogadores saem do país para ganhar a vida jogando para outros clubes?

Na verdade, é muito simples. Para o Paraguai, é questão de orgulho.

“O segredo de nossa qualificação foi que os jogadores e todos os profissionais envolvidos na equipe nacional fizeram seu trabalho com responsabilidade e com mínimo estardalhaço”, declarou o treinador Gerald “Tata” Martino à FIFA.com. “Se nós deixarmos de fazer o que os treinadores anteriores alcançaram e perderam na qualificação, então seremos um ponto negativo na história do [futebol] paraguaio.”

Para Ariel Ramírez, jornalista do Diario Última Hora, simplesmente não há lógica para explicar a razão de o Paraguai, que está classificado em 29º lugar no mundo pela FIFA, ter crescido e estar entre as maiores equipes na hierarquia futebolística da América do Sul. As 10 vitórias da equipe na fase de qualificação somente se equiparam às do Chile, e o Paraguai jogou tão bem durante a fase de qualificação, que os dois últimos jogos foram insignificantes porque já haviam garantido uma vaga na Copa do Mundo. A Argentina, por outro lado, precisou vencer o jogo final para ter direito à viagem para a Africa do Sul.

“A equipe [paraguaia] atual é claramente internacional, a maioria de seus jogadores são de ligas estrangeiras. Este é um país que exporta jogadores”, comentou Ramírez.

A fuga de talentos é tão intensa porque a Associação do Futebol do Paraguai (APF) – a maior liga profissional do país – não é financeiramente poderosa. A liga de 12 equipes recebe em média 2.000 fãs por jogo. Nos cinco primeiros jogos, 69.000 espectadores assistiram aos jogos, o que se reverteu em $1,38 milhão guaranís (US$ 292). Já o campeonato da Argentina, por exemplo, precisou de apenas dois jogos para atrair o mesmo número de fãs.

“Garanto a você que 50% dos jogadores de nossas ligas não possuem assistência médica ou ganham menos ou equivalente ao salário mínimo [mensal] de ($ 1,408 milhão de guaranís ou US$ 298)”, disse Alfredo Mazzacotte,jogador do Club Tacuary, equipe da principal categoria do futebol paraguaio. “As necessidades se notam mais nas divisões menores, muitas vezes os jogadores não têm nem campo para praticar. Cada equipe que chega ao campeonato da APF recebe da rede de TV US$ 150.000 pela transmissão.”

A falta de dinheiro fez com que muitas equipes dos principais jogadores, incluindo Salvador Cabañas (México), Enrique Veras (Equador), Óscar “Tacuara” Cardozo (Portugal) e Roque Santa Cruz (Inglaterra), assinassem contratos lucrativos com outras ligas.

“[Os jogadores] ganham pouco porque o país ganha pouco”, disse Ramírez. “Os clubes não podem segurar seus bons jogadores por muito tempo porque somos um país pobre e, assim que aparece um novo talento, eles já o transferem rapidamente para o exterior.”

Quando se trata da equipe nacional, os jogadores também não são bem recompensados, já que muitos recebem entre 2 e 3 milhões de guaranís (US$ 420 a US$ 630) por mês, segundo Ramírez. Martino, o treinador da equipe, recebe US$ 48.000 por mês, salário comparado ao que recebe “o treinador de um clube na Argentina que está longe dos melhores”, disse Ramírez.

Alberto Acosta, presidente do Club Guaraní, disse que a equipe nacional superou a fraca equipe profissional do país otimizando e avaliando talentos e fazendo com que os jogadores principais permaneçam comprometidos com a equipe nacional.

“No Paraguai o futebol foi consolidado e classificado nos últimos anos e a maioria dos membros da equipe agora jogam no exterior”, disse ele. “O Paraguai está novamente na Copa do Mundo e isso se deve à excelente qualidade de seus jogadores, ao trabalho árduo dos líderes da AFP e à gestão técnica eficiente.”

Félix Darío León, treinador do Club Guaraní, disse que, na última década, as equipes paraguaias reforçaram os investimentos nas divisões menores.

“É difícil a realidade do futebol paraguaio em nível local, mas na última década surgiu uma nova leva de jogadores”, destacou León. “Os clubes apostaram no reforço de suas divisões menores e este é o segredo que explica a razão do Paraguai estar em sua quarta Copa Mundial.”

Rubén Darío Da Rosa, jornalista do grupo Teledeportes, empresa que detém os direitos de transmissão dos campeonatos paraguaios, informou que a equipe nacional simboliza o povo.

“O futebol local tem as suas necessidades, mas elas são as mesmas em qualquer país”, comentou Rosa.“O futebol evoluiu muito, tem os seus méritos.”

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