2012-08-01

Venezuela: Cidadãos desafiam violência urbana

Um grupo de 30 pessoas participou de um Piquenique Urbano, uma iniciativa da organização de direitos dos cidadãos Ser Urbano, com sede em Caracas, em junho. (Beth Dalmau para Infosurhoy.com)

Um grupo de 30 pessoas participou de um Piquenique Urbano, uma iniciativa da organização de direitos dos cidadãos Ser Urbano, com sede em Caracas, em junho. (Beth Dalmau para Infosurhoy.com)

Por Beth Dalmau para Infosurhoy.com – 01/08/2012

CARACAS, Venezuela – Quando se mudou para Caracas, há dez anos, Angimar Bautista surpreendeu-se ao descobrir que os moradores não saíam de casa à noite.

“Era muito estranho não poder ir à praça com os amigos porque diziam: ‘Ai, os assaltantes’”, conta Angimar, 25 anos, uma estudante de Ciudad Bolívar, localizada no leste venezuelano. “Todo mundo aqui parecia viver com medo dos bandidos.”

Todo mundo menos Angimar.

No início de julho, ela estava entre as 30 pessoas que participaram do Piquenique Urbano, um evento promovido pela organização de direitos dos cidadãos Ser Urbano, no qual moradores jantam e confraternizam em um espaço público em uma das cidades mais violentas da América Latina.

No ano passado, houve 3.479 homicídios em Caracas, de acordo com o Observatorio Metropolitano de Seguridad Ciudadana (Observatório Metropolitano de Segurança Cidadã), órgão vinculado ao governo local.

No período, o primeiro relatório anual da Comissão de Segurança Pública da Região Metropolitana de Caracas registrou que 93% das vítimas de assassinato na cidade de 6,5 milhões de habitantes eram homens entre 15 e 24 anos, e 90% dos homicídios envolveram armas de fogo.

No total, foram registrados 19.336 homicídios na Venezuela no ano passado, acima dos 13.080 de 2010, de acordo com a ONG Observatorio Venezolano de la Violencia (Observatório Venezuelano da Violência).

Mas os participantes do Piquenique Urbano não tiveram medo de comparecer ao jantar em que cada um tem de levar um prato.

A Praça Don Bosco, localizada na zona leste de Caracas, tornou-se uma mesa comunitária montada para os participantes. A Ser Urbano tem organizado Piqueniques Urbanos em diversos parques, praças, shoppings e outros espaços públicos na cidade nos últimos quatro anos.

Um dos fundadores da organização, o jornalista José Orozco, 33 anos, diz que o grupo nasceu da angústia de viver com medo em uma cidade com um alto grau de insegurança.

“A insegurança em Caracas, sem dúvida, leva muitas pessoas a se trancar, ir para casa mais cedo e sair menos à noite”, diz Orozco, enquanto caminha entre travessas com torta de banana, arroz e verduras. “Quando saem, é geralmente de carro. Em Caracas, andar a pé ainda é uma coisa difícil. É uma cidade baseada no carro.”

Orozco afirma que a Ser Urbano quer ensinar aos venezuelanos como recuperar os espaços públicos e reagir à violência de forma civilizada.

“Em março, organizamos um dos piqueniques em uma rua onde um membro da Ser Urbano, Alex Duarte, foi vítima de roubo.”

A Ser Urbano é uma das várias organizações com sede em Caracas que surgiram nos últimos anos em um esforço dos moradores para resgatar espaços públicos e ruas da cidade, com o objetivo final de erradicar a violência em todo o país.

Organizações como a de grafite coletivo Collectivox, a ONG de apoio ao ciclismo Bicimamis e “A Sampablera in Caracas”, grupo que recria uma batalha histórica na praça San Pablo, na capital do país, são alguns dos novos grupos urbanos cujos nomes traduzem suas atividades criativas.

Além de coordenar jantares comunitários, a Ser Urbano organiza guerras de travesseiros e “batalha de bolhas”, onde os participantes têm de criar a maior bolha.

“Sabemos que as pessoas acham estranho, porque essas coisas são muito incomuns [em Caracas]”, afirma Orozco. “Mas o que realmente estamos dizendo às pessoas é que é muito simples organizar coisas como essa. É algo que você mesmo pode fazer em sua comunidade.”

Foi uma guerra de travesseiros que tornou Angimar uma grande fã da Ser Urbano.

“Quando cheguei lá, não entendia nada disso”, lembra. “Vi algumas pessoas jogando travesseiros umas nas outras, mas elas estavam se divertindo tanto que acabei ficando.”

Passar tempo com “pessoas legais” ajudou Angimar a superar a timidez e, hoje, ela raramente perde uma atividade da Ser Urbano.

“Agora, me sinto parte da cidade”, afirma.

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