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2012-07-12

Venezuela: Acordos com Irã preocupam analistas

Uma concessionária da Venirauto estava vazia no final de junho, dias depois que o presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad visitou a Venezuela. A empresa de carros, criada por meio de acordos entre o país sul-americano e o Irã, produziu apenas 12.000 dos 80.000 veículos que deveria montar desde 2006, segundo o parlamentar venezuelano Abelardo Díaz. (José Bolívar para Infosurhoy.com)

Uma concessionária da Venirauto estava vazia no final de junho, dias depois que o presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad visitou a Venezuela. A empresa de carros, criada por meio de acordos entre o país sul-americano e o Irã, produziu apenas 12.000 dos 80.000 veículos que deveria montar desde 2006, segundo o parlamentar venezuelano Abelardo Díaz. (José Bolívar para Infosurhoy.com)

Por José Bolívar para Infosurhoy.com – 12/07/2012

CARACAS, Venezuela – O presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad revisou e atualizou múltiplos acordos de cooperação entre seu país e a Venezuela durante visita ao país andino em 23 de junho.

Os convênios, que estão em vigor desde 2005, são voltados à melhoria das obras públicas para expandir serviços essenciais, habitação e estradas em toda a Venezuela e à criação de uma corporação binacional para produzir e vender veículos. O número exato de acordos não foi divulgado.

Irã e Venezuela mantêm investimentos mútuos de cerca de US$ 5 bilhões (R$ 10,1 bilhões) em fábricas de cimento, satélites, alimentos, tratores, bicicletas e equipamentos militares.

Com muito alarde, o governo venezuelano anunciou em junho que, com a ajuda do Irã, construiu sua primeira aeronave não tripulada e planejava exportá-la em breve.

A aeronave, que não carrega armas, tem uma varredura de 100 km, autonomia de voo de cerca de 90 minutos e pode atingir uma altitude de 3.000 metros, segundo as autoridades.

O governo destacou também a ajuda do Irã na construção de 14.000 casas, um investimento indispensável no país sul-americano, onde 100.000 pessoas ainda moram em abrigos depois de terem perdido as casas nas chuvas de 2010.

Mas a falta de detalhes sobre o escopo e o alcance desses e de muitos outros acordos assinados nos últimos 13 anos preocupa a segurança local e os analistas do governo, ressalta Rocío San Miguel, diretora da ONG Controle Cidadão.

“As leis venezuelanas proíbem a classificação de documentos como secretos, mas os convênios militares e de defesa assinados com o Irã são secretos”, afirma.

“Nenhum desses acordos foi debatido na Assembleia Nacional. Empresários, acadêmicos e cidadãos comuns da Venezuela foram deixados de fora dessa discussão.”

Rocío diz que os acordos não deram certo.

“Esses convênios não significaram uma melhoria para os venezuelanos e, além disso, minaram nossa soberania nacional”, acrescenta.

Barreiras culturais e socioeconômicas impactaram a cooperação entre Irã e Venezuela, afirma o ex-diplomata venezuelano Milos Alcalay, que foi embaixador do país nas Nações Unidas de 2001 a 2004.

“Temos enfrentado inúmeros problemas porque os iranianos não conhecem nossos costumes, nosso idioma ou nossas leis”, explica. “Trabalhadores contratados por empresas iranianas alegam violações de leis trabalhistas, como abusos e demissões injustificadas.”

Os acordos causaram a fuga de cérebros da Venezuela, lamenta Alcalay.

“Enquanto [os acordos] beneficiam os iranianos, profissionais venezuelanos são forçados a deixar o país, provocando um êxodo que nunca tínhamos visto antes”, afirma. “Eles preferem contratar profissionais que não conhecem a realidade do país, mas que têm privilégios por razões políticas, e não confiam nos venezuelanos para apoiar o processo incondicionalmente.”

A cooperação entre as duas nações também se estende a projetos nos setores de alimentos e agronegócio, incluindo uma fábrica no Irã para processar milho, que é difícil de cultivar no terreno árido e montanhoso do país.

“Temos negócios no Irã que se tornaram um centro de produção para um alimento básico latino-americano, embora eles não saibam nada da base da alimentação do venezuelano, a farinha de milho pré-cozida (arepa)”, diz Alcalay. “E, em vez de favorecer uma empresa venezuelana conhecida que exporta seus produtos para a Colômbia e a América Central, preferem privilegiar o Irã.”

Enquanto isso, a “Venirauto”, uma empresa automobilística formada pelos dois países em 2006, tem sido alvo de muitas reclamações oficiais e protestos trabalhistas.

Uma mudança na distribuição acionária da Venirauto em 2009 deixou a maioria das ações nas mãos do governo venezuelano, que deveria acelerar o processo de produção da empresa.

Mas a transferência de tecnologia necessária para continuar a montagem dos carros na Venezuela ainda não ocorreu, e uma grande quantidade de peças fundamentais ainda são importadas do Irã. Consequentemente, a produção dos dois modelos anunciados pela empresa (Turpial e Centauro) continua dependendo do que acontece em um país estrangeiro.

“Tive a oportunidade de adquirir um, mas não me atreveria porque temo a falta de peças de reposição”, afirma Ramón Alberto Escalante, especialista em relações internacionais e professor da Universidade de Zulia.

Dos 80.000 carros que a Venirauto deveria produzir desde 2006, apenas 12.000 foram montados, informa o parlamentar venezuelano Abelardo Díaz, membro da Comissão de Inspeção do Tesouro da Assembleia Nacional.

“Este acordo [entre Venezuela e Irã] foi feito apenas por apoio político e ideológico, sem estudo prévio de viabilidade”, critica.

Urânio bolivariano

Rocío alerta que o mais perigoso dos convênios é o que dá a empresas iranianas o direito de conduzir pesquisas geológicas para encontrar depósitos de urânio na Venezuela.

Esse programa, conhecido como “Projeto Simón Bolívar”, está em operação desde 2009, segundo a mídia local. O governo venezuelano não divulgou nenhuma informação sobre os resultados da pesquisa.

“É difícil saber o que ocultam esses acordos de cooperação que estabeleceram o projeto Simón Bolívar”, alerta Rocío. “Todos os convênios estão cercados de segredos.”

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