2012-04-23

Honduras: Governo e empresas abrem banco de alimentos

Alejandra Rosales é uma mãe solteira bastante esperançosa quanto ao Banco de Alimentos de Honduras. “Espero não ver mais crianças desnutridas ou comendo das latas de lixo”, diz. (René Novoa para Infosurhoy.com)

Alejandra Rosales é uma mãe solteira bastante esperançosa quanto ao Banco de Alimentos de Honduras. “Espero não ver mais crianças desnutridas ou comendo das latas de lixo”, diz. (René Novoa para Infosurhoy.com)

Por René Novoa para Infosurhoy.com – 23/04/2012

TEGUCIGALPA, Honduras – Alejandra Rosales revira as barracas de alimentos no mercado Jacaleapa, na zona sul da cidade, examinando cuidadosamente a qualidade e o preço das mercadorias.

Ela só vai ao mercado a cada dois meses, pois está entre os 1,4 milhão de desempregados no país centro-americano de 8 milhões de habitantes.

“Temos que fazer a comida durar”, diz Alejandra, de 30 anos. “Às vezes, guardamos parte do almoço para comer no jantar. Tentamos não desperdiçar recursos.”

Alejandra está sem emprego há dois anos, o que obrigou ela e sua filha de 10 anos a ir morar na casa de três quartos de sua mãe, Dolores Barahona, em um bairro de baixa renda na zona sul de Tegucigalpa. A família tenta sobreviver com as 8.500 lempiras (R$ 834) mensais que Dolores recebe como secretária de uma agência governamental. Desse total, 1.500 lempiras (R$ 146) vão para a prestação da casa, e o resto cobre despesas como água, luz, saúde, transporte e alimentação.

“No momento, eu e minha filha estamos sendo um peso para minha mãe porque não há empregos”, lamenta Alejandra.

Histórias como a de Alejandra inspiraram organizações e empresas privadas locais a lançar, em dezembro do ano passado, o Banco de Alimentos de Honduras (BAH), organização sem fins lucrativos que fornece alimentação nutricional a gestantes e lactantes, mães solteiras e crianças. O BAH é o primeiro do gênero em Honduras.

“Este projeto nasceu da iniciativa de diferentes organizações do setor privado, preocupadas com os altos índices da desnutrição que afetam quase 2 milhões de hondurenhos”, ressalta a presidente do BAH, Mey Hung. “Há muitas crianças menores de 5 anos que precisam de nossa ajuda.”

Em Honduras, cerca de 200.000 crianças menores de 5 anos são cronicamente desnutridas, segundo o Programa Mundial de Alimentos das Nações Unidas.

“Esperamos atingir as zonas com os maiores índices de desnutrição entre crianças, mulheres e jovens em risco social”, explica Mey, que também é chefe de Assuntos Corporativos em Honduras da rede varejista global Wal-Mart do México e da América Central. “O BAH não busca atacar a taxa geral de desnutrição, mas atingir as zonas onde os índices são mais altos.”

Entre os sócios fundadores do BAH, estão o banco local Banco Atlántida, a empresa de laticínios Lácteos de Honduras (Lacthosa), a indústria açucareira Fundación de la Agroindustria Azucarera (Funazúcar) e o Wal-Mart, detalha Mey. A iniciativa conta também com o apoio logístico e financeiro da Secretaria de Agricultura e Pecuária (SAG), da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação, da ONG Solidaridad e do escritório de advocacia local Central Law Honduras.

A ONG coleta alimentos e dinheiro através de doações de suas organizações-membros, que os armazenam em suas instalações enquanto a sede do BAH é construída, diz Mey.

A construção do prédio é financiada totalmente pela iniciativa privada, afirma Mey, que não fornece detalhes financeiros devido a cláusulas de privacidade.

“Estamos verificando se a construção atende a todas as exigências sanitárias e de salubridade para o armazenamento e a embalagem dos alimentos”, acrescenta.

O novo prédio deve ficar pronto em algumas semanas. Após a inauguração, o BAH espera vender produtos alimentícios a 12% do valor de varejo em áreas pobres de Tegucigalpa, além de San Pedro Sula, 244 km ao norte da capital; La Ceiba, 403 km ao norte de Tegucigalpa, e da região sul do país, que tem a maior concentração de comunidades pobres, afirma Jacobo Regalado, chefe da SAG.

A equipe do BAH irá realizar um estudo socioeconômico das famílias nas comunidades-alvo para garantir que a ajuda chegue ao destino certo. O estudo inclui uma avaliação médica para detectar casos de desnutrição.

“O governo de Honduras fornecerá apoio logístico e de infraestrutura nas áreas de atuação da organização”, assegura Regalado.

Mais de 12.000 famílias de todo o país devem se beneficiar com a iniciativa, segundo a SAG.

Os lucros obtidos com a venda dos alimentos serão utilizados para cobrir os custos de transporte, aquisição de mais mercadorias e treinamento de potenciais doadores sobre como melhorar as condições sanitárias em seus centros de processamento e armazéns, detalha Mey.

O mais pobre da região

De acordo com estatísticas da organização humanitária global Oxfam International divulgadas em 2011, 48,5% da população hondurenha sofre de desnutrição crônica, enquanto 20% apresenta algum nível de má nutrição.

A desnutrição é consequência da alta taxa de pobreza em Honduras, pois 67,4% (5,5 milhões) de seus habitantes estão abaixo da linha de pobreza. Destes, 42,8% (2,3 milhões) vivem em condições de destituição e miséria, de acordo com o BAH.

“São as maiores taxas de pobreza da América Central”, constata Mey.

A Pesquisa Permanente de Domicílios 2011 do Instituto Nacional de Estatísticas (INE) aponta como renda média per capita por domicílio 2.774 lempiras (R$ 271) por mês.

A maioria dos hondurenhos não tem condições de adotar uma dieta nutricional balanceada, pois uma cesta de 30 produtos, incluindo itens básicos como arroz, ovos, batata e leite, custa 13.600 lempiras (R$ 1.335) nas áreas urbanas e 7.230 lempiras (R$ 710) nas zonas rurais, de acordo com o INE.

Enquanto o BAH aguarda a conclusão de sua sede, Mey tenta recrutar novos parceiros para a ONG.

“Não importa o tamanho, os produtores que cumprirem os padrões de segurança e manipulação de alimentos e que tiverem produtos adequados para consumo humano podem participar”, explica Mey, que pode ser contatada pelo e-mail [email protected]

Alejandra diz que o BAH garantirá um futuro melhor para todos os hondurenhos.

“Espero que este projeto possa oferecer assistência a todas as mães solteiras, porque alguns projetos não ajudam todas as pessoas afetadas pela crise econômica no país”, ressalta. “Espero não mais ver crianças desnutridas ou comendo das latas de lixo.”

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