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2012-04-12

As crianças na era das UPPs

Uma policial distribui livros e quebra-cabeças para crianças na inauguração da Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) do Vidigal, favela da Zona Sul do Rio de Janeiro. (Cortesia de Clarice Castro)

Uma policial distribui livros e quebra-cabeças para crianças na inauguração da Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) do Vidigal, favela da Zona Sul do Rio de Janeiro. (Cortesia de Clarice Castro)

Por Daniela Oliveira para Infosurhoy.com – 12/04/2012

RIO DE JANEIRO, Brasil – A funcionária pública Vivianne Moraes, de 31 anos, sempre teve medo de deixar o filho brincando sozinho na rua.

Desde a implantação da Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) no Morro São Carlos, na Zona Norte do Rio de Janeiro, em maio de 2011, ela está tranquila.

Vivianne sabe que Guilherme, 11, pode jogar bola com os amigos no “campinho” ou brincar em outros lugares da favela sem que alguém da família esteja de olho.

“Andar livremente pela comunidade tem sido muito importante para a maturidade e a autoestima dele”, diz Vivianne, que trabalha numa creche da comunidade.

A preocupação com os pequenos cidadãos das favelas cariocas não é apenas de suas mães. Uma série de iniciativas voltadas para as crianças tem chamado a atenção nas comunidades pacificadas.

Uma delas é a cartilha infantil “UPP: a conquista da paz”. Distribuída no Morro do Vidigal, Zona Sul do Rio, durante a inauguração da UPP, a cartilha foi desenvolvida pela Secretaria de Segurança do Estado do Rio e tem texto e ilustrações de Ziraldo, o criador do clássico infanto-juvenil “O Menino Maluquinho”.

O livrinho explica o conceito de cidadania, mostrando a importância dos direitos e deveres de cada pessoa na sociedade, e aborda a integração entre comunidade e polícia.

“Começo a cartilha explicando que cidadão é quem tem consciência de seus direitos e deveres. Quando todo mundo souber o que é ser um cidadão, a vida vai ficar mais fácil”, disse o cartunista na inauguração da UPP. “Eu fiquei muito feliz de ter feito este projeto e espero que ajude no processo de pacificação das comunidades.”

Para Ziraldo, a melhor maneira de se chegar às famílias é por meio das crianças: “A revista ficou bonitinha, o papel é bom, então, todos querem levar para casa. Quando as crianças aprendem, elas levam a mensagem para os pais”.

Policial de UPP e professora de balé

Iniciativas de policiais de UPPs também vêm agradando às crianças.

Na comunidade Cidade de Deus, na Zona Oeste do Rio, uma policial da UPP local, Rafaela Malta, ensina balé para crianças da favela. Todas as tardes, ela dá aulas de graça para cerca de 70 meninas no pátio de uma escola pública da comunidade, o Ciep Luiz Carlos Prestes.

Antes de Rafaela começar as aulas, a escola era ocupada depois do horário escolar por jovens que usavam drogas.

Na mesma comunidade e também em outras pacificadas, policiais das UPPs dão aulas gratuitas de futebol, karatê, inglês e música.

No Morro do Borel, desde junho de 2011, os policiais da UPP levam turmas inteiras de crianças das escolas da comunidade para um passeio pelo centro da cidade.

Os alunos e professores entram num ônibus da Polícia Militar, almoçam no Quartel General da corporação e, tendo policiais como cicerones, visitam museus e locais históricos do Rio.

Pesquisas com foco nas crianças

A NGO Centro de Criação de Imagem Popular (CECIP) fez duas pesquisas, em 2010 e 2011, com foco nas crianças de comunidades.

O primeiro estudo, “O impacto sobre a primeira infância das políticas de segurança pública e iniciativas comunitárias em comunidades urbanas de baixa renda”, foi realizada em duas comunidades já pacificadas do Rio, Dona Marta e Morro dos Macacos, e uma de Salvador que ainda não tinha uma política de segurança pública, Calabar.

Os pesquisadores fizeram dinâmicas de grupo com crianças e entrevistaram moradores, pais, líderes comunitários e autoridades. Mais de 300 pessoas participaram desta primeira etapa.

Na segunda pesquisa, “Criança Pequena em Foco – Marco Zero: as políticas públicas de segurança e de urbanização das favelas do Rio de Janeiro e atenção dada às crianças pequenas”, foram entrevistadas cerca de 20 pessoas, entre representantes das comunidades do Chapéu Mangueira, da Providência e dos Macacos, assim como lideranças das UPPs e de órgãos do governo.

“Conseguimos enxergar os impactos positivos na implantação das UPPs nessas comunidades. Mas fomos a campo para ouvir a avaliação dos moradores e saber o que está faltando, especialmente em relação às crianças pequenas”, diz Cláudia Ceccon, coordenadora de projetos do Cecip.

A pesquisadora Beatriz Pérez, que coordenou os pesquisadores nas visitas, lamenta que as crianças não sejam o objetivo principal da maioria das políticas públicas em prática hoje.

“Percebemos ações que vão beneficiar as crianças por tabela, quando venham a ser instaladas, mas elas não foram pensadas para este grupo”, diz a pesquisadora.

Beatriz cita como exemplo as obras e melhorias do Morar Carioca, programa criado em 2010 pela Secretaria de Habitação com o objetivo de promover a inclusão social, por meio da integração urbana e social de todas as favelas do Rio.

“As pesquisas do Morar Carioca com moradores e o diálogo a respeito do que virá a ser implantado não incluem crianças, apenas homens e mulheres de 14 a 24 anos”, explica Beatriz. “E as crianças merecem uma atenção especial no projeto de urbanização, uma vez que são poucos os espaços onde podem circular e brincar de forma segura.”

Vida nas favelas

Segundo as duas pesquisas, apesar de todos os problemas, os moradores das comunidades gostam de estar ali e sairiam por poucos motivos.

Cerca de 92,3% dos entrevistados se identificam positivamente com o lugar em que moram. No entanto, eles também percebem a necessidade de uma série de melhorias.

“A chegada das UPPs de forma rápida trouxe uma expectativa de que todos os outros serviços públicos venham a reboque. Tudo o que os moradores querem é saneamento básico, coleta de lixo efetiva, mais creches e escolas de educação integral, novas oportunidades de cursos profissionalizantes e espaços para recreação infantil”, diz Beatriz.

A UPP Social, programa que cuida dessas melhorias, coordena esforços dos vários órgãos da prefeitura e promove parcerias com os governos estadual e federal, o setor privado e a sociedade civil. Em algumas comunidades, como o Complexo do Alemão, ela chegou antes mesmo da UPP.

Em algumas comunidades, como o Complexo do Alemão, ela chegou antes mesmo da UPP.

Mas o economista Ricardo Henriques, presidente do Instituto Pereira Passos (IPP) e responsável pelo programa, reconhece que nem sempre é possível atender às expectativas da comunidade.

“Existem os tempos da expectativa e da urgência dos moradores e o tempo da máquina pública”, disse Henriques na própria pesquisa do Cecip. Para ele, tem sido um desafio “fazer com que a máquina pública saia do tempo da ineficiência para o tempo da eficiência”.

No Dona Marta, primeira comunidade a ser pacificada, ainda em 2008, as maiores preocupações dos moradores são o esgoto a céu aberto (45,3%), o acúmulo de lixo (43,8%) e a falta de serviços públicos (25%). A violência e a segurança pública não foram citadas como problemas.

“Muita coisa mudou desde a UPP, mas estamos ansiosos para a chegada da UPP Social”, relata a auxiliar de serviços gerais Agda Souza, 33, moradora do Dona Marta. “A gente sabe que a coleta de lixo é algo que vai virar realidade em breve, mas é duro viver num local sujo.”

Ela explica que, antes da pacificação, garis comunitários faziam o serviço, pagos pela associação de moradores. Depois da chegada da UPP, a coleta de lixo começou a ser organizada pela Companhia Municipal de Limpeza Urbana (Comlurb), mas ela ainda não chega a pontos mais altos do morro.

Mais novatos e mulheres

Um outro ponto abordado pela pesquisa é a formação dos policiais das UPPs. Para as pesquisadoras do Cecip, a academia policial não prevê o cuidado com crianças e adolescentes.

“Os policiais ainda são treinados pela lógica do confronto. Não foram necessariamente condicionados para atuarem como mediadores de conflitos e para lidar com crianças”, diz Beatriz. “Se bem que recentemente eles perceberam que precisavam rever o processo de recrutamento e de treinamento dessas pessoas.”

Para o coronel Rogério Seabra, coordenador das UPPs, houve uma mudança no treinamento dos policiais desde a implantação da primeira unidade.

“Estamos aprendendo na prática. Descobrimos, por exemplo, que policiais com menos tempo de academia têm mais chances de dar certo nas UPPs, porque eles nunca passaram por confronto, nunca levaram bala e são melhores no relacionamento com a comunidade”, diz o coronel.

Ele completa dizendo que as mulheres também costumam se sair melhor no policiamento comunitário.

“Se eu pudesse, teria nas UPPs um efetivo feminino bem maior. Hoje, apenas 9% dos policiais de UPPs são mulheres.”

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1 Comentário

  • RAIMUNDO MARQUES | 2012-06-09

    Oi amigos pretendo receber noticias atualizadas sou radiaçista de PEDRA BRANCA CEARA