2012-03-14

Venezuela: Juventude sofre com onda de crime

O cantor de reggae Juan David Chacón, cujo nome artístico é OneChot (um disparo), está em coma depois de ser baleado na cabeça por pistoleiros desconhecidos durante uma tentativa de roubo enquanto dirigia por Caracas, em 28 de fevereiro. (Cortesia de Edgar Silva)

O cantor de reggae Juan David Chacón, cujo nome artístico é OneChot (um disparo), está em coma depois de ser baleado na cabeça por pistoleiros desconhecidos durante uma tentativa de roubo enquanto dirigia por Caracas, em 28 de fevereiro. (Cortesia de Edgar Silva)

Por Milagros Rodríguez para Infosurhoy.com — 14/03/2012

CARACAS, Venezuela – “Deixe-me apresentar Caracas/Embaixada do inferno/Uma terra de assassinos e pistoleiros/Cem pessoas morrem toda semana/Vivemos em guerra/O país está cheio de doidos.”

É assim que o cantor de reggae venezuelano de 33 anos Juan David Chacón, conhecido como OneChot, descreve a condição de vida na capital de 6,5 milhões de habitantes no clip de seu hit em inglês Rotten Town (cidade podre), de 2010.

A letra de OneChot descreve a realidade sombria da crescente falta de segurança pessoal no país sul-americano e a frustração de todos os venezuelanos, jovens ou não, pegos no meio do fogo cruzado.

“A Venezuela se converteu em um cárcere”, desabafa Rafael Narváez, representante de direitos dos cidadãos da ONG “Defensor dos Direitos Civis”. “Caracas é a segunda cidade mais insegura da região, um recorde para um país que assiste, dia após dia, a seus cidadãos sucumbirem vítimas do crime.”

Foram 3.479 homicídios no ano passado em Caracas, segundo o Observatório Metropolitano de Segurança Cidadã, que faz parte da prefeitura da cidade.

Em 2011, foram registrados 19.336 homicídios na Venezuela, contra 13.080 em 2010, segundo a ONG local Observatório Venezuelano da Violência.

Em janeiro deste ano, foram 1.347 assassinatos no país sul-americano de 28 milhões de habitantes, informou o ministro do Interior, Tarek El-Aissami.

Sem especificar uma faixa etária, o ministro disse que 60% dos homicídios na Venezuela envolveram jovens.

O artista de hip hop local Arvei Angulo Rivas, conhecido no meio musical venezuelano como El Prieto, conhece bem essa realidade.

Angulo, de 30 anos, levantou sua voz para denunciar a violência contra o jovens em seu primeiro clip, Petare, barrio de Pakistán, em que conta a história de moradores do local, a maior e mais perigosa favela de Caracas.

Sou de Petare, lugar que é zona vermelha/Vou te falar claro, não vou fazer rodeios/Todos os dias matam, todos os dias roubam/Se é assassino e tem dinheiro, te condecoram”, protesta o cantor na primeira estrofe de sua música que sacudiu as redes sociais da América Latina.

O músico, que mora em Petare, alerta que a violência na Venezuela se tornou “uma bola de neve, que cresce e cresce”.

“Parece que nada pode deter ou frear essa violência", lamenta. “É uma realidade que existe agora, todo esse banho de sangue.”

Problema endêmico

Elías Jaua, vice-presidente do país, diz que o governo reconhece que “a Venezuela é um país com uma taxa de homicídios alta, mas não está em guerra civil, da maneira que algumas pessoas tentam mostrar”.

Para lidar com o aumento de crimes violentos, o governo disse, em 19 de janeiro, que estava preparando o lançamento de uma estratégia nacional – chamada “Missão de Segurança” –, em que criaria um novo código penal e enviaria soldados às ruas para combater o problema de segurança gigantesco do país andino.

Mas, até agora, a data de início não foi marcada.

A presença de mais policiais e tropas nas ruas não ajudará muito na diminuição do problema, dizem os especialistas locais em segurança.

“Em vez disso, há uma necessidade de pessoal treinado, equipado adequadamente e respaldados por um judiciário forte e independente, além de um ministério público que possa exercer suas funções com clareza e uma reeducação da população carcerária”, sugere o venezuelano Gustavo Rodríguez, especialista em segurança. “Analistas de segurança que estão nas grandes empresas da América Latina devem ser trazidos pelo governo para que ajudem a resolver a situação.”

Crime não é estilo de vida

A vida imitou a arte de uma forma trágica em 28 de fevereiro, quando pistoleiros desconhecidos balearam OneChot na cabeça durante uma tentativa de roubo enquanto o cantor de reggae dirigia por Caracas. O músico, que iniciaria uma turnê nacional no dia seguinte ao incidente, está em coma em um hospital de Caracas. Nenhum suspeito foi preso.

O calvário de OneChot inspirou músicos como El Prieto a continuar pregando uma mensagem de não-violência aos jovens venezuelanos.

“Digo aos menores de idade que abram os olhos”, conta. “Peço que reconsiderem, que percebam que ser um delinquente não é uma fantasia ou uma moda. É algo que o marcará para sempre e, na maioria das vezes, pode até custar a vida.”

Esta reportagem está fechada para comentários e avaliações.

3 de Comentários

  • nancy pino | 2012-04-25

    Por favor, use sua criatividade para algo positivo, a Venezuela também tem coisas bonitas para serem compartilhadas por essa mídia!!!

  • isabel varga muniz | 2012-03-30

    excelente, muito bem escrito, me impressionou muito, parabéns, é uma realidade muito grande que estamos vivendo

  • Mario Beroes | 2012-03-20

    Excelente. Bem redigido. Uma reportagem que toca quase todas as arestas de um problema que está acabando com a juventude venezuelana.