2012-02-23

México: Atletas estariam envolvidos com narcotráfico

O ex-goleiro da seleção mexicana Omar “El Gato” Ortiz foi preso no mês passado por suposto envolvimento com uma quadrilha especializada em sequestros administrada pelo cartel do Golfo. (Juan Albert Cedillo para Infosurhoy.com)

O ex-goleiro da seleção mexicana Omar “El Gato” Ortiz foi preso no mês passado por suposto envolvimento com uma quadrilha especializada em sequestros administrada pelo cartel do Golfo. (Juan Albert Cedillo para Infosurhoy.com)

Por Juan Alberto Cedillo para Infosurhoy.com — 23/02/2012

MONTERREY, México – A recente prisão do ex-goleiro da seleção mexicana Omar “El Gato” Ortiz por supostas conexões com o crime organizado chamou a atenção para a inserção de organizações criminosas em todo o México.

Além disso, provocou a intensificação de programas de prevenção voltados para a raiz do problema, como a marginalização e a pobreza, já que apenas o trabalho policial não é suficiente para combater o crime, segundo autoridades.

O presidente mexicano, Felipe Calderón, expressou preocupação com a prisão do goleiro, em 7 de janeiro. Ortiz também jogou no Rayados de Monterrey.

“As autoridades judiciais decidirão se ele é culpado ou não, mas as evidências de corrupção e decadência na sociedade são muito perturbadoras, verdadeiramente chocantes”, disse Calderón.

Ortiz é acusado de ser pago pelo cartel do Golfo para fornecer informações sobre milionários que dariam ótimas vítimas de sequestro. O jogador teria recebido 100.000 pesos mexicanos (R$ 13.360) por vítima, segundo a Procuradoria Geral do estado de Nuevo León.

Ortiz foi detido depois da denúncia de um vizinho que havia sido sequestrado.

Após alguns dias preso, o goleiro foi transferido, em 20 de janeiro, para um presídio de segurança média fora da cidade, onde permanecerá até o julgamento.

Mas Ortiz não é o único desportista mexicano recentemente detido sob acusação de envolvimento com o crime organizado.

O lutador Camilo Gurrola Gallegos, conhecido por “Estrella Dorada Jr.”, também foi acusado de participação em uma rede de sequestros.

Gurrola Gallegos, de 26 anos, foi detido em Monterrey em 11 de janeiro, afirmaram fontes oficiais. Outra acusação que pesa contra ele é a de pertencer a uma organização criminosa e praticar roubos violentos.

Outro lutador, José Alberto Loera Rodríguez, apelidado de “El Voltaje Negro”, seria uma das lideranças do cartel Los Zetas em Monterrey.

Loera Rodríguez, 28 anos, está entre os supostos mandantes do incêndio criminoso do Casino Royale, que matou 52 pessoas, em resposta à recusa dos proprietários em se deixar extorquir.

Má gestão x crime

Para o professor José Juan Cervantes, da Universidade Autônoma de Nuevo León, em Monterrey, a detenção de Ortiz, Gurrola Gallegos e Loera Rodríguez mostra que a ganância e a má gestão financeira são os principais fatores responsáveis pelo ingresso de atletas no mundo do crime.

“Quando suas carreiras no esporte terminam – até mesmo por causa de uma lesão –, os astros não estão preparados para administrar de maneira eficaz as fortunas que construíram em um curto período”, observa Cervantes.

O professor diz que os atletas profissionais deveriam receber treinamento em administração financeira e planos de aposentadoria.

“A penetração do crime organizado nos esportes demonstra que [os atletas] estão procurando novas fontes de renda”, acrescenta.

Do ponto de vista das autoridades, entretanto, os atletas devem responder por seus crimes na Justiça até o máximo permitido por lei.

“[Ortiz] não é um dos melhores exemplos de ídolo do esporte”, disse um porta-voz do Conselho Estadual de Segurança de Nuevo León, que pediu para usar o pseudônimo de Benito Armendáriz por temer retaliações.

Ortiz e Loera Rodríguez eram grandes usuários de drogas antes de serem presos, afirmou Armendáriz.

“Convocamos os cidadãos que tenham sido vítimas dessas pessoas a se apresentar”, acrescentou.

Investimento social: um elemento fundamental

O recrutamento de atletas profissionais pelo crime organizado fez com que autoridades federais e estaduais reforçassem os programas sociais em sua luta contra os cartéis do narcotráfico e a criminalidade.

Em Monterrey, uma das cidades de maior desenvolvimento industrial e econômico do México, 30% da população de 4,5 milhões de habitantes vive em favelas.

“O Ministro do Desenvolvimento Social em Nuevo León recentemente fortaleceu seu programa ‘Unidos por mi Comunidad’ (Unidos pela Minha Comunidade) em diversas regiões marginalizadas, para avançar com a renovação urbana”, conta a porta-voz do Ministério, Rosa Carmen Romero.

Rosa insiste que os agentes policiais devem trabalhar com as comunidades que atendem para atingir melhores resultados.

“Após o diagnóstico inicial, analisamos a área para intervenção e reunimos os órgãos e instituições necessários para suprir as necessidades mais prementes da comunidade”, explica.

Rosa afirma que, no fim do ano passado, 253,4 milhões de pesos mexicanos (R$ 33,6 milhões) foram investidos na construção do maior centro comunitário do México com o objetivo de promover o desenvolvimento social na Independencia, uma comunidade carente de Monterrey que se transformou em uma fortaleza do crime organizado.

Com 6.800 m², o supercentro comunitário “Bicentenario de la Independencia” oferece gratuitamente aulas de ensino médio, oficinas de música, serigrafia, culinária e hotelaria, além de sete campos de futebol, bibliotecas, cinemas, academias de ginástica e centros de computação avançados para os 42.000 moradores da comunidade. A ideia é evitar o envolvimento dos moradores com o crime organizado e as gangues, diz Rosa.

Segundo a porta-voz do Ministério, o centro comunitário, inaugurado em 25 de setembro do ano passado, é financiado por empresas de todo o estado.

O modelo de desenvolvimento social utilizado baseia-se no que foi implementado na Colômbia, com a participação de organizações religiosas, empresas, representantes da sociedade civil e instituições educacionais, como o Instituto Tecnológico de Monterrey, explica Rosa.

“Combater a falta de segurança e a violência não é trabalho só da polícia”, disse o prefeito de Monterrey, Fernando Larrazábal, na inauguração do centro comunitário. “Precisamos de projetos como este para restaurar o tecido social.”

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