2012-02-10

Policiais de UPP dão aulas de futebol e cidadania

O sargento Geraldo Roberto de Souza Júnior, coordenador do programa Premier Skills, diz que a família é o foco principal da iniciativa, que ensina futebol e cidadania no Morro dos Prazeres, favela do Rio de Janeiro. (Renzo Gostoli/Austral Foto para Infosurhoy.com)

O sargento Geraldo Roberto de Souza Júnior, coordenador do programa Premier Skills, diz que a família é o foco principal da iniciativa, que ensina futebol e cidadania no Morro dos Prazeres, favela do Rio de Janeiro. (Renzo Gostoli/Austral Foto para Infosurhoy.com)

Por Nelza Oliveira para Infosurhoy.com — 10/02/2012

RIO DE JANEIRO, Brasil – O campinho de futebol no alto da favela do Morro dos Prazeres, em Santa Teresa, era usado por traficantes de drogas até o ano passado. Mas eles não iam lá para jogar bola.

Com uma vista privilegiada da cidade, eles controlavam a movimentação na favela.

Mas, desde novembro, o local abriga o Premier Skills – Esporte Seguro, um programa da principal liga de futebol inglesa, a Premier League. Por trás da iniciativa, está uma parceria da Secretaria de Estado de Segurança do Rio de Janeiro com o British Council, organização internacional do Reino Unido para oportunidades educacionais e relações culturais.

A instalação de uma Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) na região, em fevereiro de 2011, abriu caminho para o programa, que utiliza o futebol como ferramenta para engajar jovens e desenvolver suas habilidades no esporte.

O Premier Skills está presente em 15 países, com 1.000 treinadores capacitados e 300.000 crianças e jovens atendidos.

Mas o Brasil tem uma característica peculiar: os tutores são policiais, formados em educação física.

“Na Índia, o Premier Skills tem parceria com a polícia, mas é uma parceria apenas estratégica”, explica Ana Paula Bessa, gerente de projetos do British Council. “Só no Brasil os policiais são treinadores.”

Em setembro e outubro de 2011, dois especialistas em projetos esportivos comunitários vieram do Reino Unido para treinar 30 policiais de UPPs. Três estão sendo aproveitados no Morro dos Prazeres. Os outros 27 vão entrar em campo quando o programa for levado para outras comunidades.

A Premier League vai apoiar o projeto por dois ou três anos no Rio, segundo Ana Paula.

“A ideia é que os parceiros locais garantam a continuidade com apoio de instituições privadas, por exemplo”, completa.

O Brasil também é o único país em que o programa é mais focado na inclusão social do que no desenvolvimento do esporte. Além do treino de futebol, os alunos têm aulas de cidadania e participam de mutirões de limpeza.

As atividades são feitas três vezes por semana, com 300 jovens, de 7 a 18 anos, divididos em dois turnos.

Família é o foco

A família é o tema principal do programa, segundo o sargento da polícia militar Geraldo Roberto de Souza Júnior, coordenador do projeto.

“Não adianta apenas falar de cidadania se não fazemos algo prático pela família”, diz o sargento. “O jovem pode sair daqui e encontrar em casa os pais desempregados, envolvidos com drogas e álcool, o que é muito comum em comunidades carentes.”

O próximo passo do programa, segundo o sargento Júnior, é levar ao morro uma equipe da Secretaria Municipal de Desenvolvimento Social para conversar com os jovens e conhecer as necessidades da família.

“Estamos tentando fechar parceria com alguns órgãos do comércio e indústria para promovermos uma feira de empregos e auxiliar esses pais que estão fora do mercado de trabalho”, afirma o sargento.

O programa acabou aproximando Wesley Thomas Dionísio, de 13 anos, de seus pais.

“Eles são separados, mas vêm para cá e ficam me assistindo jogar”, diz Wesley. “Quando um ou outro não pode comparecer, me avisam.”

As lições de civilidade também estão sendo absorvidas. “Acabou o desrespeito, essa história de um moleque xingar o outro”, conta Wesley.

Charles Siqueira, coordenador do módulo de cidadania do programa, confirma: “A gente tem conseguido chegar aos adultos da família através das crianças. As lições aprendidas repercutem em casa”.

Siqueira não é policial, mas foi chamado para participar porque desenvolve projetos sociais na favela há 10 anos. Ele é responsável pelo Galera.com, projeto que usa arte e tecnologia no processo educacional de crianças e jovens da área.

“A UPP facilitou a abertura e a chegada de outros projetos e iniciativas à comunidade, além da possibilidade de associação entre eles”, enfatiza Siqueira.

Com a chegada da UPP, o próprio campo onde acontece o programa, que era de terra batida, foi transformado, em junho, em um estádio de piso de grama, com vestiários, iluminação e arquibancadas, pela MTV brasileira.

De lá, tendo como fundo a bela vista da cidade, a MTV transmitiu o campeonato do programa Rockgol.

Siqueira é também quem organiza os mutirões de limpeza com os jovens do Premier Skills para evitar a disseminação da dengue. A doença, transmitida pelo mosquito o Aedes aegypti, contaminou, em 2011, 168.241 pessoas e matou 140 apenas no estado do Rio.

“Ao mesmo tempo em que as pessoas podem ser coletivas, podem ser extremamente mesquinhas nas atitudes cotidianas como, por exemplo, jogar lixo em qualquer lugar”, diz Siqueira. “Trabalhamos muito a ideia de que cada um deve fazer a sua parte.”

Uma das seis meninas do projeto, Ana Lúcia Araújo da Silva, de 10 anos, lembra que, antes do Premier Skills, o campo era “só terra, lama e sujeira”.

Os dez jovens que se destacarem no programa serão levados, em 10 de março, para conhecer a sede do Premier Skills, em Londres. Os critérios de avaliação são o desempenho na escola e em campo e o comportamento em família e em comunidade.

“Assim que escolhermos os participantes teremos que começar a providenciar passaporte. Muitos não têm nenhum documento, nem mesmo registro de nascimento”, lembra Ana Paula Bessa.

A carência dos atendidos foi o que mais chamou a atenção da tutora soldado da polícia militar Geisa Silva Santos.

“E não é só financeira, mas também de educação, de carinho, de tudo”, diz a soldado. “Tem crianças que perguntam se eu quero levá-las para casa, se podem me chamar de mãe. Acabam mesmo virando meus filhos.”

Outro tutor, o soldado da polícia militar Bruno Leone, lembra as mudanças que ocorrem com os participantes no decorrer do programa.

“No começo, eles tentam te desafiar, mostrar que são superiores, brabos”, diz o soldado. “Com o tempo, os que parecem revoltados e rebeldes são os mais carentes e tendem a se tornar dóceis e melhores amigos.”

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