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2011-09-29

Territórios da Paz: Ação integrada contra o crime

Os policiais designados para atuar no programa Territórios da Paz do governo do Rio Grande do Sul passaram por um treinamento específico e foram escolhidos com base no nível de proximidade de suas relações com a população. (Cortesia Brigada Militar)

Os policiais designados para atuar no programa Territórios da Paz do governo do Rio Grande do Sul passaram por um treinamento específico e foram escolhidos com base no nível de proximidade de suas relações com a população. (Cortesia Brigada Militar)

Por Cristine Pires para Infosurhoy.com – 29/09/2011

PORTO ALEGRE, Brasil – Desde 1971, a dona de casa Tereza Miranda mora exatamente no mesmo endereço no bairro Restinga, em Porto Alegre (RS).

Um dos maiores bairros da capital gaúcha – com 2.149 hectares e 21 vilas – a Restinga também está entre os mais violentos.

Mas agora o bairro é um dos Territórios da Paz. Em 13 de setembro, a Restinga tornou-se a primeira comunidade atendida pelo programa de policiamento comunitário do governo gaúcho.

“Eles estão fazendo um ótimo trabalho”, afirma Tereza. “Vai melhorar muito porque a gente se sente mais seguro.”

A violência ainda é cotidiana na região, mas a resposta já está mudando, completa Tereza.

Há poucos dias, ela ainda ouviu tiros e teve que se esconder com medo de balas perdidas.

Em seguida, viu um rapaz ser assassinado na esquina de sua casa.

“Mas, em poucos minutos, estava cheio de policiais aqui em busca do assassino”, conta.

Além da Restinga, os Territórios da Paz foram implantados simultaneamente nos bairros Rubem Berta, Lomba do Pinheiro e Morro Santa Teresa. Juntos, os quatro concentram 37% dos homicídios da capital que, por sua vez, representa um quarto dos homicídios do Rio Grande do Sul.

Polícia Civil e a Brigada Militar irão atuar de forma integrada para reduzir os índices de criminalidade nos bairros onde o projeto for implementado.

Os postos de policiamento comunitário funcionam em ônibus da Brigada Militar, que permanecem em pontos fixos nos bairros beneficiados com o programa.

“Cada núcleo terá três policiais mais um coordenador”, explica o delegado Carlos Sant’Ana, coordenador do Programa Estadual de Segurança com Cidadania (Proesci).

Os profissionais designados para atuar no Territórios da Paz passaram por um treinamento específico e foram escolhidos com base no nível de proximidade de suas relações com a população.

“É preciso ter mais diálogo, pois o contato com a comunidade será diário”, diz Sant’Ana.

Desde 28 de setembro, as quatro comunidades beneficiados com o Territórios da Paz também contam com um disque-denúncia local (0800.64.23.456). O serviço funciona 24 horas e recebe ligações de telefones fixos e celulares para que os moradores possam denunciar à polícia casos de violência, ameças ou crime.

Diferentes áreas unidas contra criminalidade

O plano do governo gaúcho insipirou-se no Programa Nacional de Segurança Pública com Cidadania (Pronasci), em vigor desde 2008.

A diferença, segundo Sant’Ana, está na forma da implementação.

“O modelo gaúcho tem o que chamamos de transversalidade, ou seja, fazemos contato com diversas secretarias para que cada uma delas apresente ações que ajudem na prevenção social da criminalidade”, explica o delegado.

Treze órgãos de governo – entre secretarias e autarquias – estão envolvidos no Territórios da Paz.

Mas a meta é dar as condições necessárias para que a própria comunidade reduza os índices de violência.

A Restinga é o primeiro bairro a receber os programas, que serão gradualmente implementados.

Em 27 de setembro, representantes de diversas áreas envolvidas estiveram no bairro para apresentar à comunidade como funciona essa integração.

A Secretaria de Economia Solidária, por exemplo, irá oferecer linhas de microcrédito especial para os Territórios da Paz.

“Quem tiver uma máquina de caça-nível terá o equipamento apreendido, pois é crime. Mas queremos dar condições de esse pequeno comércio ter fontes de renda na legalidade, e isso ele poderá buscar via microcrédito”, destaca Sant’Ana.

Na área da Saúde, o programa Primeira Infância Melhor dará acompanhamento para as crianças recém-nascidas, uma forma de acompanhar de perto as famílias e prevenir violência doméstica e maus-tratos a crianças.

Empresas do setor de energia também são parceiras do Territórios da Paz. A ideia é que ofereçam uma tarifa social para a população onde o programa é implementado.

Assim, o fornecimento de energia elétrica deve ser formalizado junto às prestadoras, evitando o furto por meio de ligações clandestinas – o chamado gato.

Os ginásios poliesportivos da comunidade também devem se integrar ao programa, oferecendo atividades às crianças no turno oposto ao que estão na escola. Assim, os jovens não ficariam circulando ociosos pelo bairro.

O governo pretende implementar 20 Territórios da Paz no Rio Grande do Sul até 2014. Depois de Porto Alegre, a iniciativa será estendida para as cidades de Passo Fundo, Caxias do Sul e Canoas.

Apreensão de drogas em alta

A qualificação das investigações é outra importante estratégia de combate à criminalidade no Rio Grande do Sul. A utilização da chamada repressão qualificada é a principal arma das polícias Civil e Militar para reduzir os índices de criminalidade no estado.

“Aplicamos técnicas com uso da inteligência”, resume o delegado Heliomar Franco, coordenador das delegacias especializadas do Departamento Estadual de Combate ao Narcotráfico (Denarc). “É um acompanhamento demorado, que pode levar meses, mas que tem trazido ótimos resultados.”

Os policiais observam os grupos que traficam na tentativa de apreender a droga diretamente nos depósitos.

“Nas bocas de fumo não há grande quantidade, mas sim no transporte e nos depósitos”, diz Franco.

Para chegar aos pontos de transporte e armazenagem dos entorpecentes, os policiais primeiramente identificam o local de venda e acompanham a movimentação.

“Assim, descobrimos o roteiro de entrega das drogas, mapeamos as rotas e podemos agir”, completa Franco.

Uma das descobertas das autoridades revela a preferência dos traficantes por armazenar as drogas na área rural. Mas os entorpecentes também podem estar estocados em grande quantidade nas áreas urbanas.

“Apreendemos quase 400 Kg de maconha em uma residência em um bairro bem habitado”, diz Franco.

A maconha, vinda principalmente no Paraguai, é a droga mais apreendida no Rio Grande do Sul.

A cocaína, proveniente da Bolívia e Colômbia, é encontrada em sua forma livre (escama de peixe), pasta-base e crack industrializado.

Com a nova abordagem, a polícia gaúcha conseguiu triplicar a apreensão de drogas em 2011 em comparação ao primeiro semestre do ano passado.

Com as investidas da polícia gaúcha, 4,2 toneladas de maconha, cocaína e crack não chegaram aos consumidores finais.

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1 Comentário

  • [email protected] | 2011-10-04

    Territórios da Paz: Ação integrada contra o crime