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2011-09-20

Cultura de Paz contribui para redução de homicídios em São Paulo

O Instituto Sou da Paz ocupa espaços públicos com atividades culturais e esportivas para a população pobre de São Paulo por meio da iniciativa Praças da Paz. (Cortesia de Instituto Sou da Paz)

O Instituto Sou da Paz ocupa espaços públicos com atividades culturais e esportivas para a população pobre de São Paulo por meio da iniciativa Praças da Paz. (Cortesia de Instituto Sou da Paz)

Por Thiago Borges para Infosurhoy.com—20/09/2011

Nota do editor: Ás vésperas do Dia Internacional da Paz, celebrado em 21 de setembro, e da 66ª Assembléia Geral da Organização das Nações Unidas, que acontece de 21 a 27 de setembro em Nova York, nos Estados Unidos, o Infosurhoy.com publica essa reportagem especial sobre como a educação, a cooperação e o diálogo transformaram um bairro que já foi considerado o mais perigoso do mundo.

SÃO PAULO, Brasil – Enterros durante a manhã. Missas de sétimo dia à noite. Entre um turno e outro, consolo aos familiares. Há 15 anos, essa era a rotina do padre irlandês Jaime Crowe, pároco da igreja São Sebastião, no bairro Jardim Ângela, Zona Sul de São Paulo.

“Não havia motivo para matar”, lembra o motoqueiro Paulo Enoc, 36 anos, que mora no Jardim Ângela desde que nasceu. “Se não fossem com a sua cara, você virava vítima.”

Em 1996, o distrito de quase 300.000 moradores chegou a ser considerado o mais perigoso do mundo pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO), com 116 mortes por 100.000 habitantes, de acordo com a Secretaria de Estadual de Segurança Pública (SSP-SP).

“Não bastava enterrar os corpos”, recorda o pároco. “Tínhamos que fazer algo para evitar que os jovens fossem parar no cemitério São Luiz (onde a maioria era sepultada).”

E foi com essa motivação que, desde meados dos anos 90, ações articuladas e protagonizadas pela própria sociedade civil começaram a transformar o Jardim Ângela.

O índice de homicídios no bairro despencou para 15,7 mortes por 100.000 habitantes em 2009, conforme a SSP.

“Eu acho que a região tem um outro espírito agora”, diz o padre.

Se comparada à média estadual, a taxa de mortes violentas no Jardim Ângela ainda é alta.

No primeiro semestre de 2011, o estado de São Paulo registrou o menor índice de homicídios desde 1995: 9,6 mortes por 100.000 habitantes. A taxa representa uma queda de 12,2% em comparação ao mesmo período do ano passado, segundo a SSP-SP.

Nos níveis atuais, São Paulo finalmente atinge uma taxa inferior a 10 homicídios por 100.000 habitantes, que é considerada tolerável pela Organização Mundial da Saúde (OMS).

O governo estadual atribui o resultado a ações policiais, como apreensão de armas ilegais, prisão de criminosos, inteligência para resolver delitos e investimento em viaturas e helicópteros.

Ativistas sociais como o padre Crowe também atribuem à Cultura de Paz a queda no número de mortes violentas em São Paulo – pelo menos é o que prova a experiência dele no Jardim Ângela..

Assim que UNESCO decretou o período de 2001 a 2010 como Década Internacional da Promoção da Cultura de Paz e Não Violência em Benefício das Crianças do Mundo, (a cidade de São Paulo apoiou a proposta e criou fóruns de discussão para melhorias na metrópole.

Os princípios da Cultura de Paz baseiam-se na rejeição à violência, no respeito à vida e na construção da paz por meio da educação, cooperação e diálogo.

“Estamos falando em projetos coletivos opostos ao individualismo”, explica Milena Risso, diretora do Instituto Sou da Paz. “Nos distritos mais violentos, a iniciativa partiu primeiro da sociedade civil.”

O Instituto Sou da Paz atua no apoio a campanhas de desarmamento da população, no incentivo à integração da comunidade com a Polícia Militar e na divulgação da Cultura de Paz nos estádios e nas escolas.

Com o projeto Praças da Paz, a ONG ainda reforma e ocupa espaços públicos com atividades culturais e esportivas.

Caminhada pela Vida e pela Paz foi primeiro passo

Quando chegou ao bairro Jardim Ângela, em 1987, padre Crowe encontrou problemas típicos da época: desemprego, crescimento urbano desordenado, falta de serviços públicos e a consequente violência.

Juntamente com a comunidade, em 1988, ele criou a Sociedade Santos Mártires. O objetivo era suprir a ausência de equipamentos públicos – como creches infantis – na região.

Quando a UNESCO conferiu ao Jardim Ângela o título de região mais violenta do mundo, o pároco percebeu que era preciso fazer mais. Foi então que ele acionou presidentes de associações de moradores, pastores evangélicos, diretores de escolas e comerciantes.

A junção dessas forças resultou em mais de 5.000 pessoas marchando na Estrada do M’Boi Mirim – a principal via local – na primeira Caminhada pela Vida e pela Paz em novembro de 1996.

Em seguida, foi criado o Fórum em Defesa da Vida, que até hoje reúne mensalmente representantes da comunidade em busca de soluções para os problemas locais.

Além disso, o governo estadual implantou cinco bases de polícia comunitária, promovendo mais integração entre as autoridades de segurança e a população local.

A Sociedade Santos Mártires também ampliou suas atividades. Foi implantada uma clínica de reabilitação de dependentes químicos, além de um programa de reiniciação de adolescentes infratores, que passam por cursos profissionalizantes e depois são empregados pelo comércio local.

Para dar conta dos 10.000 atendimentos mensais, 300 funcionários e diversos voluntários trabalham na organização fundada por padre Crowe.

Símbolo da mobilização organizada no Jardim Ângela, as caminhadas pela paz continuam. Mas a adesão triplicou: em média, 15.000 pessoas participam da marcha, que ocorre uma vez por ano.

“É difícil mensurar o peso de cada um desses fatores [na queda do número de homicídios], mas o conjunto deles é o que faz a diferença”, diz Milena, do Sou da Paz.

Enoc, que teve amigos e até um primo assassinado no bairro, diz que, até 2004, ainda “dava para sentir o cheiro da guerra que imperava na região”. Mas o morador no Jardim Ângela confirma que os tempos agora são outros.

“A gente tem liberdade para chegar em casa a hora que quiser”, diz Enoc que, em 2003, ajudou a criar o Família Tupi, um programa que promove campeonatos de futebol e festas para a comunidade.

Grajaú também se une pela paz

O Grajaú, distrito mais populoso de São Paulo, também vem sendo transformado pela paz nos últimos anos.

A iniciativa começou por iniciativa do padre italiano Paolo Parise, que se chocava com as cenas de violência presenciadas na região de 444.590 moradores, conforme números de 2010 do Sistema Estadual de Análide de Dados (Seade).

Três episódios marcantes em 1999 motivaram padre Parise a trabalhar pela redução da violência: o assassinato de um jovem que ele havia visto na noite anterior; a morte de uma paroquiana atingida por uma bala perdida, e o homicídio de um adolescente na porta da igreja durante a missa.

Padre Parise então reuniu um grupo de jovens e, em 2000, lançou o Evento pela Paz, que ocorre uma vez ao ano em espaços públicos do Grajaú.

Os jovens são os protagonistas da iniciativa, desde a organização e captação de recursos à divulgação da iniciativa.

“Esses jovens são estimulados a vivenciar a Cultura de Paz nas relações entre si durante um ano de preparação, mas também na escola, faculdade, trabalho, família”, explica padre Parise.

Os artistas do bairro também se engajam, podendo mostrar seus talentos em festivais de dança, rap e teatro. Um júri formado por convidados elege os melhores em cada categoria, e vencedores ganham prêmios de até R$ 300,00.

“Conseguimos resgatar a autoestima dos moradores”, completa padre Parise.

Em 2000, quando foi realizado o primeiro Evento pela Paz, o Grajaú chegou à marca recorde de 326 mortes violentas em 2003 – um média de 93,32 assassinatos por 100.000 habitantes, conforme o Programa de Aperfeiçoamento das Informações de Mortalidade do Município de São Paulo (Pro-Aim).

Entre os jovens de 15 e 19 anos, o índice foi o quarto maior da cidade naquele ano: 356,8 para cada 100.000 habitantes nessa faixa etária, de acordo com o Seade.

Nove anos depois, o índice geral de homicídios no distrito já havia caído para 11,95 por 100.000 moradores, de acordo com o Pro-Aim.

Para Milena, do Instituto Sou da Paz, a luta contra a violência tem que envolver todas as esferas da sociedade – exatamente como no Jardim Ângela e no Grajaú.

Passada a década dedicada à Cultura de Paz no mundo, ela diz que o tema agora deve ser abordado também no âmbito dos esportes, educação, saúde e cultura.

“É um processo contínuo”, diz Milena.

A fórmula de sucesso de Padre Parise inclui a adoção de programas de médio e longo prazos.

“Apostar no futuro e trabalhar mesmo sem ver resultados imediatos”, completa.

Já o padre Crowe usa um provérbio africano para resumir as mudanças registradas no Grajaú e Jardim Ângela: “Gente simples fazendo coisas pequenas em lugares de pouca importância realizam grandes transformações.”

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