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2011-01-17

Cheias e estiagem castigam Brasil

A pecuária de leite, principal atividade econômica da cidade, é a que mais sofre com a estiagem em Candiota, pois a água agora é apenas para consumo humano. A estiagem já provocou perdas de R$ 140 milhões na Região da Campanha do Rio Grande do Sul. (Cortesia da Prefeitura de Candiota)

A pecuária de leite, principal atividade econômica da cidade, é a que mais sofre com a estiagem em Candiota, pois a água agora é apenas para consumo humano. A estiagem já provocou perdas de R$ 140 milhões na Região da Campanha do Rio Grande do Sul. (Cortesia da Prefeitura de Candiota)

Por Cristine Pires, Marcos Giesteira e Ricardo Corrêa – 17/01/2011

As chuvas que castigam a Região Serrana do Rio de Janeiro e já provocaram mais de 640 mortes, também têm provocado perdas e tirado vidas em Minas Gerais.

Em Goiás, as enxurradas ameaçam o patrimônio histórico de Cidade de Goiás, única no Estado tombada como patrimônio da humanidade pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco).

Mas no Sul do país é a seca que faz suas vítimas. No Rio Grande do Sul, a Região da Campanha já soma perdas de mais de R$ 140 milhões devido à estiagem.

Minas Gerais tem o maior número de vítimas

BELO HORIZONTE, Brasil – Minas Gerais é o estado brasileiro com o maior número pessoas desalojadas devido às chuvas.

Do início de novembro, quando começou o período crítico, até a manhã de 16 de janeiro, 17.180 pessoas estão desalojadas, e 2.374 estão desabrigadas, de acordo com a Defesa Civil.

Dos 853 municípios mineiros, pelo menos 130 registraram inundações, vendavais, deslizamentos ou enxurradas. Desses, 81 decretaram estado de emergência.

No total, são mais de 1,2 milhão de pessoas afetadas, 16 mortos e 72 feridos.

As chuvas também já provocaram muitos danos na infraestrutura do estado. De novembro até 16 de janeiro, 104 pontes foram destruídas e outras 339 estão parcialmente danificadas.

Até a noite de 15 de janeiro, nove trechos de rodovias em Minas Gerais possuíam algum grau de interdição, principalmente por queda de barreiras. Dois trechos ferroviários também foram interditados – um em Lavras, no Campo das Vertentes, e outro em Juiz de Fora, na Zona da Mata.

Mas a situação é ainda mais crítica no Sul do estado. Uma das cidades afetadas é São Lourenço, que foi inundada em 13 de janeiro e continuava com ruas submersas até a noite de 15 de janeiro.

Em visita à região, o governador, Antonio Anastasia, prometeu que o Banco de Desenvolvimento de Minas Gerais (BDMG) irá criar um fundo para auxiliar os comerciantes a reconstruírem seus negócios.

Em 14 de janeiro, o Corpo de Bombeiros do Estado anunciou a criação de um batalhão especial para atuar nas ocorrências relacionadas à chuva. São 350 militares treinados em resgates e salvamentos em situações de alagamento, enxurradas e inundações.

Apesar dos problemas no próprio estado, os mineiros estão preocupados com a situação na Região Serrana do Rio. Hospitais das cidades de Além Paraíba e Juiz de Fora, vizinhas ao Rio de Janeiro, foram destacados para receber possíveis vítimas da tragédia.

“Nossa função é atender vítimas em situações já estabilizadas, pré-atendidas no hospital de campanha que foi montado lá (na Região Serrana do Rio)”, explicou o secretário de Saúde de Juiz de Fora, Cláudio Reiff. “Aqueles pacientes que necessitem de um tratamento complementar serão encaminhados para cá. Todos os hospitais públicos cidade estão à disposição.”

Fora isso, empresas, entidades esportivas e a comunidade de Minhas Gerais estão somando esforços para arrecadar alimentos e água para as vítimas da catástrofe no Rio de Janeiro.

Patrimônio da humanidade ameaçado na Cidade de Goiás

BRASÍLIA, Brasil – Única cidade goiana tombada como patrimônio da humanidade pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO), a Cidade de Goiás, conhecida como Goiás Velho, está com o seu patrimônio histórico ameaçado.

Os estragos provocados pelas chuvas, que caem sobre o município há duas semanas, levaram o prefeito municipal, Joaquim Berquó, a decretar situação de emergência em 13 de janeiro.

Impressionada com a destruição durante visita a Goiás Velho em 13 de janeiro, a ministra da Cultura, Ana de Hollanda, anunciou a liberação de R$ 500.000 para reparos e conservação de imóveis centenários. A cidade tem um centro histórico com cerca de 800 construções tombadas.

“A Cidade de Goiás tem um diferencial em relação às outras cidades. Ela é fundamental para a memória, para a lembrança e para a história do Brasil”, afirmou a ministra em nota publicada no website do ministério.

Cinquenta casas estão sob ameaça de desabamento, dois casarões (dos séculos 18 e 19) foram completamente destruídos, oito pontes ficaram danificadas e l23 pessoas estão desabrigadas, segundo o Corpo de Bombeiros.

Cerca de 10 técnicos do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) estão trabalhando para evitar a queda de mais residências.

A casa da poetisa Cora Coralina – o mais importante ponto turístico do município – também foi interditada.

O imóvel fica localizado às margens do Rio Vermelho, que transbordou em 10 de janeiro. As águas barrentas invadiram o porão do museu e obrigaram os funcionários a retirarem o acervo às pressas.

Sul do Brasil sofre com a seca

PORTO ALEGRE, Brasil – Enquanto o Sudeste brasileiro sofre com a tragédia da enchente, no Sul é a falta de chuvas que faz vítimas.

Desde o mês de agosto do ano passado, os níveis estão abaixo da média histórica dos últimos 40 anos.

A terra está rachada.

O gado magro anda pelo campo sem ter o que comer, pois o pasto é ralo.

Algumas cabeças já foram perdidas – morreram de fome.

O poço artesiano, que antes abastecia a casa, agora está seco. Água, só quando o caminhão pipa vem abastecer a região.

O cenário, antes restrito ao agreste nordestino, agora faz parte da rotina do Rio Grande do Sul, que tem sofrido com a seca há anos.

Nesse verão, a estiagem chegou com mais força, reflexo do fenômeno La Niña, que seguidamente tem atingido a região: o resfriamento das águas do Oceano Pacífico reduz significativamente o volume de chuva no Sul do Brasil durante o verão.

A chamada Região da Campanha é a mais atingida e já soma prejuízos de R$ 140 milhões.

Oito municípios decretaram situação de emergência: Candiota, Herval, Pedras Altas, Hulha Negra, Santana do Livramento, Pedro Osório, Lavras do Sul e Cerrito. Outros assinaram decreto e aguardam a homologação por parte da Defesa Civil – é o caso de Bagé, Piratini, Pinheiro Machado e Aceguá.

Em Candiota, um dos municípios mais afetados, 600 famílias que vivem na área rural dependem diretamente do abastecimento de dois caminhões pipa que trabalham sem parar para dar conta da demanda.

A pecuária de leite, principal atividade econômica da cidade, é a que mais sofre, pois a água agora é apenas para consumo humano. Os animais estão em segundo plano.

“Estamos intensificando o trabalho de distribuição porque a água está acabando nos poços artesianos”, disse o prefeito de Candiota, Luiz Carlos Folador.

Alguns produtores estão retirando os animais da cidade e levando o rebanho para regiões que não sofrem com a estiagem.

“Nesta semana tivemos um criador que levou oito caminhões carregados de gado para outras cidades em busca de pasto verde”, disse o prefeito.

Medidas preventivas são fundamentais

Os municípios atingidos com a estiagem pedem ao governo estadual uma política preventiva contra a seca. As cidades defendem a construção de açudes e novos poços, além da revitalização dos existentes.

Também pedem cisternas para a armazenagem da água da chuva.

Medidas paliativas, como a distribuição de água potável e alimentos, já vêm sendo adotadas.

A Defesa Civil do Rio Grande do Sul enviou 300 cestas básicas e 50 filtros de água às famílias da área rural de Candiota. Também foram remetidas 7,2 toneladas de alimentos para Herval.

Nos próximos dias, mais cidades deverão receber auxílio.

Em Bagé, a saída encontrada pela prefeitura foi o racionamento de água por períodos de 12 horas.

“É uma situação crítica”, disse o eletricitário Carlos Eber Dias Pereira, 46 anos. “Têm famílias que ficam acordadas até de madrugada para poder aproveitar as 12 horas que estão com água liberada e poder tomar banho, lavar louça e realizar toda a rotina da casa.”

A estimativa é de perdas superiores a 50% na área plantada de milho, soja e sorgo na região da Campanha, segundo a Associação Rio-Grandense de Empreendimentos de Assistência Técnica e Extensão Rural (Emater).

Pereira também vem acompanhando a agonia dos parentes que moram na área rural.

“Eles perderam tudo, toda a plantação de milho e de hortigranjeiros secou”, disse. “O gado está morrendo. A situação é horrível.”

Clique aqui para conferir o mais recente balanço da destruição

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