2010-04-29

Presidente da Bolívia se desculpa à comunidade gay

Recentes comentários polêmicos do presidente boliviano Evo Morales irritaram a comunidade gay. (Alfredo Estrella/AFP/Getty Images)

Recentes comentários polêmicos do presidente boliviano Evo Morales irritaram a comunidade gay. (Alfredo Estrella/AFP/Getty Images)

Por Edson Hurtado para Infosurhoy.com — 29/04/2010

SANTA CRUZ, Bolívia – O presidente Evo Morales recentemente pediu desculpas à comunidade gay e afirmou que seu governo “respeita a diversidade sexual”, segundo o porta-voz, Iván Canelas.

O pedido de desculpas vem uma semana após declarações polêmicas feitas por Morales durante a abertura da Conferência Mundial dos Povos Mundo sobre as Mudanças Climáticas e os Direitos da Mãe Terra. Durante seus ataques habituais ao capitalismo, Morales afirmou: “o frango que os homens comem está cheio de hormônios femininos e é isso que causa o desvio em sua [masculinidade]”, aludindo à orientação sexual masculina.

“O presidente Morales não fez qualquer menção a homossexuais e, nesse sentido, respondemos à organização espanhola que consiste de lésbicas e gays, ratificando nosso respeito à sua liberdade sexual”, disse Canelas, em resposta à federação nacional de lésbicas, gays, transexuais e bissexuais da Espanha (FELGT), uma organização de defesa dos gays e lésbicas sediada em Madri, que manifestou preocupação quanto aos comentários de Morales.

Enquanto isso, a fundação para a igualdade LGBT, defensora dos direitos dos gays, lésbicas, bissexuais e transgêneros na Bolívia desde 2007, enviou uma carta contundente a Morales na semana passada, pressionando-o a esclarecer seus comentários e se desculpar.

“Não é possível um presidente fazer esse tipo de declaração diante dos olhos do mundo”, disse Alex Bernabé, diretor da fundação para a igualdade LGBT. “Ele impediu avanços dos direitos civis e induziu a homofobia e a intolerância na comunidade.”

Membros da comunidade gay na Bolívia ficaram frustrados com os comentários de Morales. “[Evo Morales] foi longe demais com seus comentários e fez todos os bolivianos serem mal vistos”, afirmou Juan de Pedro, um bioquímico de 24 anos que se identifica como gay. “O mundo quer um pouco de sabedoria e não um monte de intolerância, ignorância e discriminação.”

Além das palavras do presidente, a evidente tendenciosidade do governo em relação à homossexualidade provocou a ira da comunidade gay da Bolívia, de acordo com Juana Durán, uma estudante universitária de 28 anos que se identifica como lésbica.

“Estamos todos com medo”, disse ela. “Apesar do discurso político sobre mudança e inclusão das minorias, os direitos humanos continuam sendo minados e piadas continuam sendo feitas em detrimento daqueles que tomaram um rumo diferente e escolheram livremente sua orientação sexual.".

O artigo 14 da Constituição da Bolívia, sancionada em janeiro de 2009, afirma que “o Estado proíbe e pune qualquer forma de discriminação baseada em sexo, cor, orientação sexual, identidade de gênero, origem, cultura, nacionalidade, cidadania, idioma, credo religioso, ideologia, filiação política ou crenças filosóficas, estado civil, status econômico ou social, tipo de ocupação, escolaridade, deficiência, gravidez ou outros fatores que tenham por objetivo ou propósito anular ou prejudicar o reconhecimento, gozo ou prática, numa base de igualdade, dos direitos de todos”.

Produtores de frango também se ofenderam com os comentários de Morales e temem que isso possa causar uma queda nas vendas.

“Não é verdade, é uma vergonha, é inacreditável”, afirmou Ricardo Alandia, presidente da associação nacional de avicultura boliviana, citado pelo jornal El Deber de Santa Cruz. “Eu não sei quem disse uma coisa dessas ao presidente. Temos provas irrefutáveis de que não usamos hormônios.”

O vice-ministro de desenvolvimento cultural da Bolívia, Pablo César Groux Canedo, declarou através de um comunicado ao jornal mexicano Excélsior que os comentários de Morales “foram mal interpretados”, mas que suas declarações “são verdadeiras”.

Os comentários de Morales ofuscaram a conferência sobre mudança climática, segundo Pedro Shimose, colunista do El Deber de Santa Cruz.

“A imagem da Bolívia (que é a forma como nos conhecem no mundo todo) é mais triste a cada dia”, escreveu ele numa coluna recente. “Se continuarmos expondo a nossa desgraça através da mídia, vamos nos isolar ainda mais de um mundo que nos olha com piedade ou nos ignora.”

Esta reportagem está fechada para comentários e avaliações.