2010-01-11

Chávez ameaça empresários após desvalorização do bolívar

Clientes correram para os shoppings da Venezuela para comprar produtos antes do aumento dos preços, que devem subir após a desvalorização do bolívar fuerte. (Rosario Tejero/Inforsurhoy.com)

Clientes correram para os shoppings da Venezuela para comprar produtos antes do aumento dos preços, que devem subir após a desvalorização do bolívar fuerte. (Rosario Tejero/Inforsurhoy.com)

Por Rosario Tejero para Infosurhoy.com — 11/01/2010

CARACAS, Venezuela – O presidente Hugo Chávez organizou o Exército, a Guarda Nacional e a milícia para tomar as ruas do país, na tentativa de impedir empresários de aumentarem os preços depois que o governo desvalorizou o bolívar fuerte (BsF), moeda do país, na última sexta-feira.

Em seu programa semanal “Alô Presidente” em 10 de janeiro último, Chávez disse que não havia nenhuma razão "para ninguém aumentar preços" e prometeu um plano para evitar qualquer aumento.

“Eu quero que o povo e a Guarda Nacional saiam às ruas, lutem contra a especulação e tomem medidas", disse Chávez. “Nós não podemos permitir que empresários burgueses ou oligarcas digam que os preços aumentaram por causa das medidas anunciadas na sexta-feira."

Chávez ameaçou expropriar empresários se eles aumentarem os preços.

“Eu sou capaz de tomar o açougue do açougueiro e dá-lo aos trabalhadores", disse Chávez. "Tenho certeza de que [os trabalhadores] não vão roubar o povo. Tenho certeza de que eles iriam baixar os preços."

Em 8 de janeiro, Chávez anunciou que a taxa de câmbio frente ao dólar americano aumentaria de 2,15 para 2,60 bolívares sobre todo alimento, medicamento e maquinário importados. Para uma longa lista de produtos importados, como equipamentos eletrônicos, carros, artigos têxteis, tarifas aéreas, máquinas de lavar, refrigeradores e bebidas alcoólicas, a taxa de câmbio aumentaria de 2,15 para 4,30 bolívares.

Há também um mercado de câmbio paralelo usado por importadores de produtos não essenciais que não recebem dólares americanos com taxas preferenciais. Nesse mercado, a moeda fechou a 6,25 bolívares por dólar americano na última sexta-feira, pouco antes do anúncio da desvalorização.

O diretor do Departamento de Economia da Universidade Central da Venezuela (UCV), José Guerra, disse ao Infosurhoy que a média da desvalorização anunciada por Chávez foi de 64%, o maior ajuste desde 1996.

O ministro da Economia e Finanças, Alí Rodríguez, reconheceu numa entrevista transmitida pela televisão estatal VTV, que a medida teria um impacto inflacionário de um adicional de 3% a 5% na previsão inicial do governo. A meta para esse ano foi um aumento de não mais que 22%.

O professor do Departamento de Economia da Universidade Central da Venezuela (UCV), Orlando Ochoa, afirma que o provável aumento dos preços será entre 20% e 30% até o final de 2010.

“A desvalorização será paga pelo povo venezuelano com uma inflação mais alta que o esperado", disse Guerra. “Haverá um significativo aumento nos preços. Isso tem sido a história da Venezuela.”

A inflação em país rico em petróleo tem sido tradicionalmente alta. Durante a última década, a taxa mais baixa foi de 12,3% em 2001, mas, no ano passado, subiu para 25,1%, de acordo com dados do Banco Central da Venezuela.

O diretor do instituto de pesquisa Datanálisis, Luis Vicente León, disse que a medida causará uma estagnação no poder de compra.

Numa entrevista ao Infosurhoy, León observou que seu instituto tinha estimado uma pequena recuperação no poder de compra para esse ano numa variação de 2% a 3%, mas o ajuste da taxa de câmbio destrói essa possibilidade. León concluiu que o efeito da desvalorização e seu consequente impacto nos preços não vão permitir que o poder de compra melhore.

O salário mínimo mensal na Venezuela é de 967 bolívares (cerca de US$ 372 no novo câmbio oficial do bolívar, a 2,60 bolívares por dólar americano, ou US$ 154 no câmbio paralelo de 6,25 bolívares por dólar).

O anúncio da desvalorização do bolívar causou uma onda de pânico por compras pelos venezuelanos. Consumidores correram para os supermercados, farmácias e lojas de eletrônicos nesse fim de semana, para comprar bens antes do aumento dos preços. Funcionários do governo afirmam que o país importa 60% do que consome.

Vendedores do luxuoso shopping center San Ignacio, em Caracas, que preferiram não se identificar, disseram que os empresários ainda irão aumentar os preços. Os sócios, entretanto, confirmaram o processo de mudança dos preços porque a nova taxa de câmbio entra em vigor nessa semana.

Além do shopping, as lojas no centro e na zona leste de Caracas estavam transbordando de clientes, ao ponto de os funcionários terem que limitar a entrada nas lojas para evitar desordens.

Os produtos mais procurados foram alimentos, fraldas, televisores, máquinas de lavar e geladeiras.

Flor García, uma dona-de-casa que teve que esperar na fila por duas horas para comprar uma máquina de lavar, disse que estava esperando por uma liquidação, mas, por causa da desvalorização, ela teve que comprar nesse fim de semana.

“Na semana que vem, isso custará duas vezes mais", disse Flor García. "Eu não posso arriscar."

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