2009-12-21

Argentina está perdendo o gás

Regulações dos últimos seis anos leva a Argentina a uma crise de energia. (JOHN MACDOUGALL/AFP/Getty Images)

Regulações dos últimos seis anos leva a Argentina a uma crise de energia. (JOHN MACDOUGALL/AFP/Getty Images)

Por Ezequiel Vinacour para Infosurhoy.com – 21/12/2009

BUENOS AIRES, Argentina - A Argentina ficará sem gás natural nos próximos oito anos, segundo o ex-secretário argentino de Energia Daniel Montamat, que também é o ex-presidente da YPF (antiga companhia estatal Yacimientos Petrolíferos Fiscales, hoje Repsol YPF).

A falta de energia foi causada pela política de concessão de subsídios nas tarifas de energia, durante os governos dos presidentes Néstor e Cristina Kirchner nos últimos seis anos.

“Quando chegasse o tempo de fazer cálculos, eles poderiam perceber que os subsídios foram uma política distributiva terrível”, disse Montamat, que também é o ex-diretor da extinta companhia de distribuição Gas del Estado. “Os subsídios têm um alto custo fiscal, não geram nenhuma infraestrutura, frustram o equilíbrio entre o suprimento e a demanda e beneficiam mais os ricos do que os pobres.”

Gustavo Petracchi, outro ex-secretário de Energia, concorda.

“Em se tratando da questão do gás, tudo está muito errado”, disse Petracchi. “A política de subsídio é insustentável uma vez que não estimula investimentos estrangeiros, ou seja, a exploração de novos campos.”

Mas Daniela Sbatella, pesquisadora do Instituto de Estudos Econômicos e Fiscais da Universidade de La Plata, prediz até mesmo uma perspectiva sombria.

“Há falta de investimento na Argentina. Até 2014 teremos gás, mas posteriormente o cenário é incerto”, disse Daniela Sbatella. "Como há mais demanda no momento, as companhias de distribuição são obrigadas a fornecer menos gás para as indústrias, para que essas encaminhem a clientes residenciais. Para expandir a capacidade real, os preços na Argentina devem estar de acordo com os preços internacionais.”

Eduardo Fracchia, diretor acadêmico de economia da escola de negócio e gestão da Universidade Austral em Buenos Aires, disse que a Argentina não deveria estar nessa situação.

“Em 1990, a Argentina fez uma forte aposta no gás e tinha 50% da sua produção de energia baseada no hidrocarboneto, o dobro dos Estados Unidos”, disse Fracchia. “[A Argentina] tinha uma das maiores porcentagens do mundo.”

“Depois do colapso econômico em 2002 e da desvalorização do peso argentino, o preço do gás de consumo interno ficou artificialmente baixo, fazendo com que as indústrias deixassem de investir na exploração de novos campos", explicou Fracchia.

“Como paliativo para a falta de gás, o governo decidiu restringir exportações aos países vizinhos, e o mais afetado foi o Chile”, disse Fracchia. “Posteriormente, durante o período de 2004-2006, eles importaram o óleo combustível e o gasóleo da Venezuela para substituir o gás nas estações de energia termais. O resultado foi oito vezes mais caro. O governo gastou, durante os últimos quatro anos, US$ 12,38 milhões em pesos argentinos (US$ 3,26 milhões) para cobrir a diferença. Na Argentina, a projeção de gás apresenta um preocupante cenário para 2010.”

A falta de gás natural está no centro da crise de energia do país, segundo Montamat.

“As reservas foram reduzidas durante os últimos seis anos”, disse Montamat. “A Argentina costumava ter 800 milhões de metros cúbicos de gás e agora só tem a metade. Isto significa que nós temos apenas oito anos de reservas. É um problema sério uma vez que 52% da dependência energética da Argentina está no gás natural. Só a Rússia depende mais do gás natural do que a Argentina, mas ela tem 78 anos a mais de reservas além de ser um grande país produtor e exportador.”

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