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2012-02-09

Videogames argentinos ganham o mundo

A Argentina se consolidou como um pólo de ideias, com artistas e designers gráficos talentosos, afirma Hernán Rozenwasser, CEO da empresa QB9. (Eduardo Szklarz para Infosurhoy.com)

A Argentina se consolidou como um pólo de ideias, com artistas e designers gráficos talentosos, afirma Hernán Rozenwasser, CEO da empresa QB9. (Eduardo Szklarz para Infosurhoy.com)

Por Eduardo Szklarz para Infosurhoy.com—09/02/2012

BUENOS AIRES, Argentina – No fim dos anos 90, jovens argentinos aficionados por videogames somaram forças para realizar um sonho: criar os próprios jogos no país.

Eles não tinham capital, nenhuma chance de captar financiamento externo, tampouco experiência empreendedora. A maioria deles acabara de terminar o ensino médio.

Mas eles não desistiram.

Em 2000, o grupo criou a Associação Argentina de Desenvolvedores de Videogames (ADVA) que, em oito anos, transformou o país em um dos pólos produtores mais dinâmicos da América Latina.

Atualmente, o setor tem cerca de 65 empresas – 90% delas com capital argentino.

“O setor faturou US$ 50 milhões em 2011 e emprega entre 2.000 e 3.000 pessoas”, diz Andrés Chilkowski, sócio fundador da ADVA, que reúne 30 companhias.

Uma verdadeira comunidade pulsante, a ADVA reúne programadores, designers, engenheiros, ilustradores, roteiristas e músicos, com idade média de 27 anos.

“Exportamos 95% dos jogos, principalmente para Estados Unidos, Europa e Ásia”, afirma Chilkowski, que também é diretor da pioneira NGD Studios.

Na última década, a indústria de videogames cresceu em todo o mundo graças às novas plataformas de distribuição, como redes sociais e smartphones, segundo Chilkowski.

Os jogos digitais, chamados MMO – massively multiplayer online games – se tornaram massivos, já que milhares de usuários jogam ao mesmo tempo online.

A expansão do mercado mundial fez com que Estados Unidos, Europa e Ásia deixassem de concentrar os desenvolvedores de games. Assim, a atividade vem crescendo na América Latina, sobretudo na Argentina, Brasil e Chile, dizem os empresários do setor.

Preço baixo e criatividade

A primeira vantagem que a Argentina teve para criar sua indústria de videogames foi o baixo custo de produção.

Em 2002, com a desvalorização do peso após 10 anos de paridade com o dólar norte-americano, os salários ficaram muito defasados. Era mais barato produzir jogos na Argentina do que na China.

“Mas não tínhamos experiência. Fomos pagos para fazer um jogo de futebol americano e nem sabíamos as regras”, recorda Chilkowski. “Como o orçamento que pediam nos Estados Unidos era 3 ou 4 vezes mais caro do que o nosso, [para o cliente] valia a pena arriscar. Na segunda tentativa faríamos bem.”

Com o reduzido mercado local e a crescente pirataria, a solução para as empresas argentinas sempre foi exportar, segundo os empresários do setor.

Desde então, as desenvolvedoras de jogos eletrônicos se profissionalizaram e agregaram valor aos serviços.

“Hoje temos custos mais razoáveis. Um programador iniciante nos Estados Unidos ganha cerca de US$ 60.000; na Argentina, cerca de US$ 25.000 [em 2002, ganhavam quatro vezes menos]”, afirma Chilkowski.” “Sem falar da inflação [de 23% ao ano, segundo consultoras privadas], que complica as coisas.”

A Argentina se consolidou como um pólo de ideias, com artistas e designers gráficos talentosos, afirma Hernán Rozenwasser, CEO da empresa QB9.

“O mérito da Argentina foi se posicionar como um centro de criatividade e capacidade”, completa Rozenwasser. “Agora podemos sentar para discutir com clientes do exterior sem que nos vejam apenas como um lugar barato.”

Free-to-play

A história da QB9 é um exemplo do sucesso argentino no mercado de jogos de videogame.

Fundada em 2005, a empresa tem 47 empregados e faturou US$ 1,8 milhão entre agosto de 2010 e julho de 2011, diz Rozenwasser.

Mundo Gaturro, o principal produto da QB9, é o jogo massivo online preferido entre as crianças da América Latina.

A cada mês, quase 1 milhão de usuários únicos divertem-se com Gaturro, um gato divertido criado pelo desenhista argentino Cristian Dzwonik, o Nik.

Como acontece com a maioria das empresas do setor, a principal fonte de renda da QB9 são os serviços para terceiros, como jogos desenvolvidos para campanhas promocionais das gigantes Lego, Mattel e South Park.

“O desafio é comercializar nossos próprios jogos, sem descuidar da parte destinada a terceiros”, diz Rozenwasser.

No caso do Mundo Gaturro, o desenvolvimento foi feito em conjunto com a empresa Clawi, dona do produto. A Clawi cuida da infra-estrutura e da comercialização. A QB9 elabora os jogos do portal e tem participação nos lucros.

O Mundo Gaturro segue o modelo de negócios free-to-play, em que os usuários jogam sem pagar até certo ponto. Para personalizar seu avatar (personagem), eles precisam comprar um passaporte que garante acesso ao catálogo completo do jogo. Um jogador pode vestir seu bichano com roupas de rockeiro ou pirata, por exemplo.

O passaporte de uma mês custa 19,90 pesos (US$ 4,8).

Rozenwasser aposta nos free-to-play como a grande tendência do mercado latino-americano.

“Nos próximos 5 anos, a América Latina será talvez a região com a taxa mais alta de adoção de smartphones”, prevê. “A pessoa vai ter acesso a jogos de alta qualidade na internet usando dispositivos móveis no metrô, no trem e no ônibus. Em casa, jogará com o notebook. E nós queremos estar em todos esses lugares.”

Antídoto para as crises

Além de criativa, a Argentina se caracteriza por uma comunidade empreendedora singular, diz Ezequiel Baum, managing director da NGD Studios, que tem clientes como Cartoon Network.

“Enfrentar uma crise a cada dez anos no país faz com que os empreendedores argentinos se preparem para sobreviver. Sempre buscam a forma de sair adiante”, diz Baum.

Na trajetória da NGD, prudência foi fundamental, completa Baum.

Outros escritórios cresceram demais com o boom de capitais externos nos últimos anos, mas precisaram se reacomodar ou até mesmo fechar as portas passado o auge de investimentos.

A empresa Three Melons, por exemplo, foi adquirida em 2010 pela gigante dos jogos sociais Playdom. Meses depois, a Disney comprou a Playdom e cortou cerca de 30 postos de trabalho na Three Melons.

“Esse é um mercado que muda muito. Nós conseguimos crescer de forma moderada”, destaca Baum.

Em 2011, a NGD comprou a Hungry Games e sua equipe passou de 20 para 30 pessoas. O principal produto é Regnum Online, um free-to-play com 50.000 usuários ativos por mês. A maioria mora na Espanha ou na América Latina e tem entre 18 e 25 anos.

A fonte de renda de Regnum são os conteúdos premium que os jogadores compram para avançar melhor no universo medieval do jogo. Por exemplo: uma sela para andar a cavalo ou um feitiço que permite subir de nível mais rápido.

A NGD também desenvolveu Bunch of Heroes, o primeiro produto argentino vendido na Steam, a principal plataforma mundial de distribuição de games online.

Outras grandes empresas que operam em Buenos Aires são Band of Coders Argentina, Compañía de Medios Digitales (CMD, ligada ao Grupo Clarín), Eudaimonia, Globant e SIA Interactive, além da francesa Gameloft e da brasileira Vostu – líder no país vizinho.

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