Uma escola para derrotar narcotraficantes
![Policiais colombianos montam guarda em frente a um carregamento de cocaína encontrado em um laboratório clandestino no estado de Meta. [AGENCE FRANCE-PRESSE]](/images/shared/images/2012/04/01/000_Mvd6077869_optAP.jpg)
Policiais colombianos montam guarda em frente a um carregamento de cocaína encontrado em um laboratório clandestino no estado de Meta. [AGENCE FRANCE-PRESSE]
Durante uma visita à Bolívia em dezembro de 2011, a ministra das Relações Exteriores da Colômbia, María Ángela Holguín Cuéllar afirmou que a América do Sul seria um “oásis no mundo” se não fosse pelo narcotráfico. Em sua opinião, é importante encontrar novas soluções, novas estratégias e ousar mais nessa luta.
“Enquanto um país da região vai bem [no combate ao narcotráfico], outro vai mal, porque é um efeito balão. Quando você pisa em uma extremidade, a massa se desloca para a outra”, disse ela, exortando os países da região a formarem uma frente comum de combate ao narcotráfico. Neste espírito, a Colômbia foi escolhida para sediar a Escola de Inteligência Antidrogas das Américas (Ercaiad, por sua sigla em espanhol) de 2012 a 2016 sob a liderança da Direção de Antinarcóticos da Polícia Nacional da Colômbia (DIRAN). Organizadores acadêmicos e autoridades da área de segurança acreditam que, em Bogotá, a escola vá ampliar a sua atuação para países de língua espanhola na América Latina e no Caribe.
Um problema comum
Holguín Cuéllar afirmou que o sucesso de seu país no controle de cultivos ilícitos de coca e limitação do narcotráfico está forçando os cartéis a assumir operações na Bolívia, Equador, Peru e Venezuela. Em um esforço para impedir a detecção dos carregamentos de cocaína, os traficantes estão usando não só lanchas e embarcações de pesca, mas também construindo submarinos que podem custar US$ 2 milhões e demorar mais de um ano para serem construídos, de acordo com o Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime.
![Representantes do México, Honduras, Panamá, Brasil, Equador, Peru, Bolívia, Chile, Argentina e Colômbia participaram de um treinamento antidrogas de três semanas organizado pela Ercaiad, em dezembro de 2011. [POLÍCIA NACIONAL DA COLÔMBIA]](/images/shared/images/2012/04/01/IMG_8154_optAP.jpg)
Representantes do México, Honduras, Panamá, Brasil, Equador, Peru, Bolívia, Chile, Argentina e Colômbia participaram de um treinamento antidrogas de três semanas organizado pela Ercaiad, em dezembro de 2011. [POLÍCIA NACIONAL DA COLÔMBIA]
Na América Central, as autoridades governamentais de El Salvador relataram que uma das principais causas de homicídios no país é narcomenudeo, ou o narcotráfico em pequena escala, que leva a disputas territoriais sangrentas entre gangues rivais pela venda de drogas. “O grande desafio para as autoridades nos próximos anos será conhecer o sistema e saber o seu funcionamento”, declarou o major colombiano José Alfredo Jiménez, coordenador acadêmico da Ercaiad, em entrevista a Diálogo. O Maj Jiménez comparou as semelhanças entre as organizações criminosas àquelas que operam na Colômbia, Espanha e América Central.
Os criminosos também estão compartilhando tecnologia. No segundo semestre de 2011, a Polícia Nacional da Guatemala desmantelou seis laboratórios clandestinos com capacidade para a produção de grandes quantidades de drogas sintéticas, em San Marcos, na fronteira Guatemala-México. Segundo o Maj Jiménez, os cartéis colombianos estão ensinando a outros traficantes como processar drogas na América Central. “As autoridades foram pegas de surpresa porque nunca imaginaram que os cartéis ou as organizações iriam processar [as drogas] em seus países”, disse ele.
Uma base sólida
Rafael Parada, gerente de projeto da Comissão Interamericana para o Controle do Abuso de Drogas (Cicad) da Organização dos Estados Americanos (OEA), afirmou que o projeto da escola de drogas é o único no hemisfério. “Reúne diferentes comandos policiais da região para receber treinamento em inteligência antidrogas”, disse ele. “Isso nos dá a oportunidade de criar uma rede de analistas de inteligência na região que podem se comunicar, coordenar e compartilhar experiências ou informações sobre o assunto.”
![A Ercaiad organiza seminários em diferentes países nas áreas de narcotráfico, narcoterrorismo e crimes relacionados. [POLÍCIA NACIONAL DA COLÔMBIA]](/images/shared/images/2012/04/01/PC012012_optAP.jpg)
A Ercaiad organiza seminários em diferentes países nas áreas de narcotráfico, narcoterrorismo e crimes relacionados. [POLÍCIA NACIONAL DA COLÔMBIA]
A Ercaiad foi formada em 1998, quando representantes da Bolívia, Brasil, Chile, Colômbia, Equador, Peru e Venezuela tiveram
a visão de criar um programa acadêmico internacional na luta contra o tráfico ilícito de drogas na região. Em seguida, foi criada a Escola Regional de Inteligência Antidrogas da Comunidade Andina, em Lima, Peru, em 1999, sob a responsabilidade da Direção Antidrogas da Polícia Nacional do Peru. De 2000 a 2010, a escola treinou quase 1.500 policiais e agentes da lei com a assistência técnica e financeira da OEA e do Peru.
A pedra angular na luta contra o narcotráfico é a inteligência estratégica, de acordo com o Maj Jiménez, que supervisiona a formação e especialização de policiais e agentes da lei nas áreas de inteligência antidrogas, narcoterrrorismo e crimes relacionados. A escola trabalha para este fim com a cooperação da Diran, da Colômbia, e da Cicad, da OEA.
Parada, da Cicad, afirmou que a Colômbia foi escolhida para sediar a escola com base no sucesso da proposta que apresentaram, sua credibilidade e no prestígio da Polícia Nacional. “Qualquer um que conhece o assunto sabe que eles são os melhores da região, juntamente com os Carabineros do Chile [e] a Polícia Federal brasileira, pois são os principais atores em todo o hemisfério.”
Focado em soluções
Em dezembro de 2011, forças policiais da Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Colômbia, Equador, Honduras, Panamá, Peru e México se reuniram na nova escola Ercaiad para a realização de um workshop de três semanas sobre diferentes aspectos da inteligência antidrogas. O Maj Jiménez explicou que os participantes discutiram as tendências atuais em seus respectivos países e construíram cenários de como o tráfico ilícito poderá estar atuando nos próximos anos. Algumas das tendências discutidas foram o tráfico de droga por via marítima, narcomenudeo, e laboratórios de drogas clandestinas na América Central.
“O compromisso do Governo dos EUA com o Governo da Colômbia tem sido, inegavelmente, a pedra angular que possibilita o avanço no combate a esse problema, nas áreas de consultoria, recursos de logística, treinamento e em todos os assuntos de inteligência”, disse o Maj Jiménez. “Agora a Colômbia, com recursos próprios, está assumindo o seu papel para seguir a mesma linha de conduta na luta antidrogas”.
O Maj Jiménez, que também é o coordenador acadêmico da escola nacional antidrogas da Colômbia, ressalta a importância da formação. Em sua opinião, é uma maneira de estar à frente dos criminosos, porque a corrida é “como um jogo de gato e rato”.
Fontes: Ministério das Relações Exteriores da Colômbia, El Tiempo, InSightCrime.org, www.elsalvador.com




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