2012-04-01

Medo e Islamismo em Trinidad

Uma mulher reza em Haji Gokool Meah Memorial Masjid durante o festival Eid al-Fitr,
          em St. James, Trinidad, em setembro de 2010. [REUTERS]

Uma mulher reza em Haji Gokool Meah Memorial Masjid durante o festival Eid al-Fitr, em St. James, Trinidad, em setembro de 2010. [REUTERS]

DIÁLOGO

a gentes da Agência de Investigações Anti-Corrupção de Trinidad e Tobago bateram à porta de uma enorme casa localizada na cidade de Valsayn pertencente a um magnata da construção, em agosto de 2010, para cumprir um mandado de busca durante uma investigação de fraude. Em vez disso, os oficiais se depararam com um arsenal de armas militares e drogas ilegais. Em um país mergulhado em violenta criminalidade, os oficiais rapidamente solicitaram, pelo rádio, reforços da Agência contra o Crime Organizado, Narcóticos e Armas de Fogo. Os agentes permaneceram até tarde da noite fazendo buscas na casa, identificando 18 armas, incluindo pistolas e fuzis Kalashnikov, 980 cartuchos de munição e 981 gramas de maconha. Eles prenderam seis suspeitos, incluindo o herdeiro dos negócios da família, Khalil Karamath, de 22 anos de idade.

Karamath estava em liberdade sob fiança por acusações de posse de armas e drogas quando foi abordado pela polícia novamente mais de um ano depois, em novembro de 2011. Durante o estado de emergência declarado durante uma onda de crimes violentos, Karamath e 16 outros muçulmanos foram detidos em conexão com um suposto complô para assassinar o primeiro-ministro Kamla Persad-Bissessar, três membros do governo, ministros e policiais. Karamath se declarou inocente, e nenhuma arma foi encontrada em sua casa. Autoridades de segurança disseram que estavam agindo de acordo com informações para evitar a repetição de uma tentativa de golpe em 1990, perpetrada pelo grupo islâmico Africano Jamaat al Muslimeen.

Em 27 de julho de 1990, o Jamaat al Muslimeen colocou explosivos na sede da polícia no centro de Port of Spain, tomou de assalto o prédio do Parlamento e ocupou a Television Co de Trinidad e Tobago. A revolta causou a morte de 24 pessoas e resultou em danos materiais de centenas de milhões de dólares. Mais de 100 milicianos armados fizeram o primeiro-ministro refém, bem como vários membros do Conselho de Ministros e do Parlamento, até que o grupo se entregou às autoridades seis dias depois.

Atualmente, 22 anos após a tentativa de golpe, a lembrança ainda mancha a imagem da comunidade muçulmana das ilhas, e as autoridades ainda estão investigando os eventos que levaram à insurgência. Acredita-se que Trinidad e Tobago tenha a maior população muçulmana no Caribe – estimada em 78.000, ou seis por cento da população. A lembrança da tentativa de golpe aumentou a fiscalização por autoridades de segurança. Em um país devastado por armas e gangues e cercado pela pobreza, pelo menos um líder muçulmano acredita que o país está maduro para a ideologia extremista e a violência.

Identificando uma ameaça

“O islamismo é muito forte em Trinidad e está crescendo a cada dia”, afirmou Imam Abzal Mohammed, sentado em sua varanda do segundo andar e vestindo um boné branco, camisa de botões, calças compridas e sandálias. Sua mesquita na rua Bonanza, em Princes Town, atende a cerca de 100 famílias. Mohammed conta com orgulho uma história de como seu avô, um imigrante indiano, o iniciou na formação e fundamentos pré-islâmicos em Urdu. Mohammed ocupou várias posições de liderança durante os seus 55 anos no comitê executivo da Associação Anjuman Sunnah-Ul-Jamaat (ASJA), maior organização islâmica do país, que supervisiona 85 das mesquitas locais.

“Temos vivido um longo período em Trinidad onde os muçulmanos e todas as pessoas vivem juntos e felizes, mas o que está acontecendo é que há muitas mudanças ocorrendo atualmente”, disse ele. Mohammed destacou que o islamismo é uma religião pacífica, mas a juventude de Trinidad começou a se interessar pela doutrina salafi. A seita fundamentalista do Sunni Islam, que enfatiza a adesão aos ensinamentos originais do islamismo, se estendeu aos jovens muçulmanos carentes e tem sido associada à violência no Oriente Médio. “Temos um problema sério, não podemos varrê-lo para debaixo do tapete e não podemos escondê-lo.”

Mohammed, que serviu durante vários anos como capelão da prisão, disse que os seguidores de salafismo em Trinidad estão pregando avidamente suas opiniões em mesquitas e recrutando jovens seguidores. “Temos fanáticos que estão pregando um tipo diferente de islamismo em Trinidad”, disse ele, observando que os salafistas enfatizam a importância da jihad como um sacrifício religioso. Ele ouviu que salafistas defendem a jihad violenta, e notificou as autoridades locais sobre o que acredita ser uma ameaça à segurança nacional. “Em Trinidad, tivemos xiitas por um bom tempo. Eles não eram agressivos, mas os salafistas são pessoas agressivas.”

Gary Griffith, capitão aposentado da Força de Defesa e assessor de segurança do primeiro-ministro de Trinidad e Tobago, afirmou que as falhas de inteligência em julho de 1990 permitiram a materialização da tentativa de golpe. Ele defendeu as informações que levaram à detenção dos conspiradores do alegado homicídio em novembro de 2011, mas se recusou a identificar um grupo em particular ou uma religião como uma ameaça.

Em defesa das detenções, o Comissário de Polícia, Dwayne Gibbs, afirmou que havia uma “clara ameaça” ao interesse de segurança nacional. Muitas pessoas influentes em Trinidad são muçulmanas, ressaltou o Sargento Cornelius Samuel, do serviço policial da Divisão Nordeste, cujo superintendente era responsável por alguns dos interrogatórios de detentos. Afirmou que também há muitos criminosos que usam a fé muçulmana como um disfarce para a atividade criminal. “Até certo ponto, a comunidade muçulmana sempre foi vista com uma certa desconfiança”, disse ele.

Defendendo uma crença

Ashmeed Choate, que pratica salafismo em Trinidad, foi um dos 17 muçulmanos detidos na alegada trama de assassinato e identificado pela polícia como o “mentor”. Choate foi detido durante três semanas antes que todos os detidos fossem liberados sem acusações. Durante sua detenção, segundo afirmou, foi acusado de planejar os assassinatos alegados para causar pânico na ilha. Afirmou que ele também fora acusado de fazer doações a instituições de caridade que promovem o islamismo em comunidades pobres da África. Choate rejeitou as duas acusações e disse que mal conhecia os outros detidos.

“Eu não tenho nenhum plano oculto. Não tenho nenhum outro motivo oculto no que eu faço”, Choate falou de seus esforços para convidar trinitários de todas as origens ao islamismo. “Estas são as minhas pessoas. Os trinitários são o meu povo. Meu primeiro objetivo é chamar por Alá, convidar para Alá, convidar para a sua religião.” Choate considera seu trabalho em comunidades carentes como uma boa ação que é evitada pelos muçulmanos comuns, porque ele não concorda com a mesma facção do islamismo da maioria dos trinitários, e porque ele estudou na Península Arábica. Choate nasceu em Trinidad e estudou o islamismo na Arábia Saudita, onde se interessou pelo salafismo como um “retorno às origens” da religião. Segundo Choate, quando retornou de Medina, Arábia Saudita, em 2000, manteve um programa de rádio e televisão e pregou amplamente. Disse também que espalha a mensagem do islamismo para as pessoas “que são menos afortunadas, carentes, pessoas que são marginalizadas na comunidade”. Recentemente, segundo ele, desistiu do programa porque era muito trabalhoso, e queria dedicar sua atenção à função de diretor da Escola Islâmica Darul Qur’an Wal Hadith, em Freeport, uma escola de um cômodo, situada entre uma plantação de mamão e as casas humildes dos pais de alguns dos 100 alunos muçulmanos e não muçulmanos da escola.

Questionado sobre os salafistas que dizem que a sua estirpe do islamismo exige a jihad violenta, disse: “Se eu tivesse a oportunidade, gostaria de debater esta posição com algum salafi diante de qualquer meio de comunicação”.

Fontes: Trinidad Express, The Jamestown Foundation, BBC, PBS, www.theweek.co.uk, Pew Forum on Religion and Public Life

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