2011-10-01

Caiu Na Rede

Os cidadãos norte-americanos detidos são escoltados pela polícia paquistanesa ao entrarem no tribunal de Sargodha, em 18 de janeiro de 2010. Os homens que usaram a internet para contatar terroristas foram condenados em junho de 2010 por conspiração criminosa e financiamento de organizações terroristas. [THE ASSOCIATED PRESS]

Os cidadãos norte-americanos detidos são escoltados pela polícia paquistanesa ao entrarem no tribunal de Sargodha, em 18 de janeiro de 2010. Os homens que usaram a internet para contatar terroristas foram condenados em junho de 2010 por conspiração criminosa e financiamento de organizações terroristas. [THE ASSOCIATED PRESS]

UNIPATH

Há uma força a ser canalizada no mundo intangível das salas de bate-papo, sites de redes sociais e trocas internacionais de e-mails. Como seria de se esperar, os terroristas voltaram-se para a esfera virtual para engrossar suas fileiras.

Na batalha para difundir ideologias extremistas, a internet é uma arma importante. Os grupos terroristas, como a al-Qaida, usam sites, celulares e redes sociais para atrair recrutas e difundir suas ideologias distorcidas.

“A nova militância é impulsionada pela internet”, afirmou Fawaz A. Gerges, especialista em terrorismo da London School of Economics, ao Los Angeles Times. “Os campos de treinamento terrorista no Paquistão e Afeganistão estão sendo substituídos por campos virtuais na rede”.

ARMAS ELETRÔNICAS

O arsenal do momento vai além de armas e bombas: computadores, câmeras de vídeo, DVDs – qualquer coisa que sirva para divulgar mensagens na rede – tornaram-se armas inestimáveis para grupos terroristas, de acordo com o professor Bruce Hoffman, da Universidade de Georgetown. Em maio de 2010, Hoffman, que passou 30 anos estudando terrorismo e insurgência, apresentou um depoimento escrito para a Subcomissão de Inteligência, Partilhamento de Informações e Avaliação de Riscos de Terrorismo da Comissão de Segurança Interna do Congresso dos Estados Unidos. “A internet, antes vista como uma ferramenta educativa e de esclarecimento, transforma-se, em vez disso, em um veículo muito útil para os terroristas, com o qual passam a difundir sua propaganda sem fundamento, além de inúmeras teorias da conspiração, mentiras e convocações para a violência em alto e bom som”, escreveu ele.

A internet elimina as barreiras geográficas, tem uso barato ou gratuito e permite a comunicação em tempo real. Na última década, o número de sites de grupos terroristas passou de menos de 15 para mais de sete mil. Hoffman explicou que essa “face mutável do terrorismo no século 21” pode ser vislumbrada nos tipos de itens interceptados pelas autoridades durante suas investigações. Em 2004, por exemplo, a invasão de uma casa forte da al-Qaida em Riyadh, na Arábia Saudita, rendeu mais do que o típico arsenal terrorista formado por armas, munições e outros explosivos. A polícia também encontrou câmeras de vídeo, laptops e gravadores de CD, além de acesso de alta velocidade à internet.

Essa provisão de armas modernas fazia parte de uma campanha publicitária destinada à juventude saudita. Os equipamentos permitiam aos terroristas capturar imagens dramáticas, depois transformadas em vídeos enviados a sites, com arte gráfica especialmente concebida para cativar os jovens recrutas.

GRANA E GANA

Para arregimentar apoio e financiamento, os extremistas postam vídeos de operações e gravações de palestras de seus equivocados acadêmicos religiosos, Abdul Hameed Bakier escreveu na publicação semanal Terrorism Focus (Foco no Terrorismo). As salas de bate-papo e os grupos de discussão são usados para arregimentar seguidores. Os fóruns deste tipo também permitem que os simpatizantes de causas terroristas busquem orientações na rede.

“Os aspirantes a mujahidin são provenientes de vários países, árabes e não árabes. Em alguns casos, os pedidos para seguir a jihad são claros, como quando o usuário de um fórum posta um pedido para ir para um país específico para travar a jihad”, explicou Bakier. “Os destinos mais populares para a guerra sagrada parecem ser o Iraque, o Afeganistão e a Palestina”.

O caso dos cinco cidadãos norte-americanos condenados no Paquistão sob a acusação de terrorismo, em junho de 2010, ilustra como a internet tornou-se um canal internacional para aqueles que querem afiliar-se a organizações terroristas. Ramy Zamzam, Waqar Khan, Umar Farooq, Aman Hassan Yemer e Ahmed Minni foram condenados a 10 anos de prisão por conspiração criminosa e financiamento de organizações terroristas. Depois de viajarem dos Estados Unidos para o Paquistão, os cinco foram presos em dezembro de 2009, quando as autoridades começaram a suspeitar que pretendiam juntar-se a extremistas no Afeganistão, país vizinho.

Segundo as autoridades, o contato com terroristas começou enquanto os homens ainda estavam nos EUA. Um recrutador do Taliban travou correspondência com Minni depois dele ter postado comentários no site YouTube, elogiando vídeos que mostravam ataques contra tropas dos EUA. Com o progresso da comunicação, os homens compartilharam uma conta de e-mail, onde deixavam mensagens na pasta de rascunhos, para evitar a detecção.

O Los Angeles Times observou que dentre 12 casos de terrorismo doméstico nos EUA, divulgados publicamente pelo FBI em 2009, em quase todos, a internet foi citada como a ferramenta usada para recrutar e radicalizar. “Basicamente, não é a al-Qaida que está chegando a eles”, explicou Gerges. “Eles estão usando a internet para chegar à al-Qaida”.

Foi esse o caso de Bryant Neal Vinas, americano, e Najibullah Zazi, residente legalizado dos EUA. Ambos declararam-se culpados, perante os tribunais norte-americanos, de acusações de terrorismo, respectivamente em 2009 e 2010. Os dois foram seduzidos pela propaganda da al-Qaida na internet e acabaram por ser radicalizados em Nova York. Mais tarde, viajaram ao Paquistão para juntarem-se a combatentes extremistas.

AVANÇO RÁPIDO

A internet também encurtou o tempo gasto pelos terroristas para planejar e cometer ataques, de acordo com Garry Reid, vice-secretário assistente de defesa para operações especiais e luta contra o terrorismo dos EUA. Como exemplo, ele citou o caso do nigeriano Umar Farouk Abdulmutallab, que tentou explodir um avião nos Estados Unidos em 25 de dezembro de 2009. Apenas seis semanas transcorreram entre o momento em que Abdulmutallab fez contato com extremistas na internet até a sua tentativa de destruir um avião lotado.

“Eu diria que o inimigo tem maximizado o uso de tecnologia e ferramentas de comunicação globais para a sua grande vantagem”, comentou Reid, durante uma reunião do subcomitê do Senado dos Estados Unidos em março de 2010. “Eu concordo com o Sr. Reid”, acedeu o embaixador dos EUA Daniel Benjamin, coordenador de contraterrorismo do Departamento de Estado dos EUA. “É um desafio enorme, com implicações de fato infinitas. Se você olhar para a história do terrorismo, a internet é provavelmente a mais importante inovação tecnológica desde a dinamite, e é muito difícil lidar com todos os diferentes aspectos”.

JIHAD JANE

A prisão da americana Colleen LaRose, em outubro de 2009, é outro exemplo de como a internet é explorada pelo terrorismo. As autoridades dos EUA alegam que ela se tornou obcecada pelos radicais islâmicos na rede e usava os apelidos “Jihad Jane”e “Fátima LaRose” para recrutar combatentes do sexo masculino para travar a violência no sul da Ásia e Europa. De acordo com seu indiciamento, ela também contratou mulheres com passaportes ocidentais, capazes de viajar para a Europa para apoiar o terrorismo. As autoridades também acreditam que ela arrecadou fundos para essas operações online.

“LaRose mostrou que você pode se tornar terrorista no conforto de seu próprio quarto. Não seria possível fazer isso há 10 anos”, disse Hoffman ao Los Angeles Times. Nos meses que antecederam sua prisão, LaRose utilizou sites de redes sociais, fóruns de discussão e e-mails para recrutar novos participantes. A americana Jamie Paulin-Ramirez foi acusada de ser um deles. Paulin-Ramirez passava longos períodos na internet até voar para a Irlanda e casar-se com um suspeito de terrorismo, no mesmo dia em que desembarcou. Ela foi acusada de conspirar com combatentes no exterior, comprometendo-se a assassinar em nome da jihad e a ajudar os terroristas. Ambas foram indiciadas em março de 2010.

Em fevereiro de 2011, LaRose declarou-se culpada de quatro acusações federais, incluindo conspiração para apoiar terroristas e conspiração para assassinar um alvo estrangeiro. No mês seguinte, Paulin-Ramirez declarou-se culpada de conspiração para fornecer apoio material a terroristas.

RECRUTAMENTO VIA CELULAR

Agentes de segurança sauditas têm conseguido bloquear sites filiados à al-Qaida e prender os administradores dos mesmos. Há dois anos, a Arábia Saudita promulgou a Lei de Tecnologia da Informação, que proíbe o uso de tecnologias modernas, como computadores e telefones celulares, para apoiar o terrorismo. O General Mansour al-Turki, porta-voz de segurança do Ministério do Interior da Arábia Saudita, disse ao jornal árabe internacional Asharq al-Awsat que a lei prevê sentenças de 10 anos de prisão e/ou multa de 5 milhões de riyal (cerca de US$ 1,3 milhões) para qualquer pessoa que configure um site para promover ideologias terroristas, ajudar pessoas a se comunicarem com terroristas ou fornecer informações sobre a fabricação de bombas. Já que o governo saudita tem dificultado progressivamente as operações dos terroristas na rede, grupos como a al-Qaida usam, cada vez mais, telefones celulares para enviar mensagens de texto, áudio e vídeo. Além de permitir que alcancem um maior número de recrutas, o pesquisador de mídia eletrônica Ahmad al-Kayyali contou ao jornal Asharq al-Awsat que a alternativa possibilita ainda que a al-Qaida mire jovens usuários desta tecnologia.

Fontes: Asharq al-Awsat; The Associated Press; Los Angeles Times, Comissão do Departamento de Segurança Interna, Subcomissão de Inteligência, Partilhamento de Informações e Avaliação de Riscos de Terrorismo dos Estados Unidos

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Fri Apr 18 00:18:53 2014

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