2011-07-01

Sendero Luminoso e sua Ameaça Mutante

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General-de-Brigada (Aposentado) Andrés Acosta, do Exército Peruano

Considerando a definição básica do que vem a ser uma ameaça, pode-se dizer que o Sendero Luminoso (SL) continua a constituir um risco para a população. Seus militantes armados têm capacidade de mobilização e podem causar danos às forças do governo. Esse é o propósito do grupo e, na verdade, ele o alcança. O SL recebe fundos de traficantes e madeireiros ilegais, e exerce controle sobre uma parte do território peruano que, embora pequeno, representa um fator psicológico e simbólico para seus seguidores.

As operações do SL têm variado consideravelmente ao longo dos últimos 10 anos. O grupo já não mais ataca a população civil e, ao invés disso, concentra-se exclusivamente na polícia e Forças Armadas. O modus-operandi empregado varia de emboscadas a patrulhamentos a pé, passando por audaciosos ataques contra helicópteros, e, até mesmo, assédio às bases de combate do país. Estima-se que o grupo conte com cerca de 600 militantes armados nas redondezas do vale dos rios Apurimac e Ene, região conhecida como VRAE. Os membros são recrutados entre a população rural produtora de coca e incluem também crianças raptadas, que são posteriormente doutrinadas e treinadas para matar. O grupo inclui ainda soldados dispensados das Forças Armadas, contratados com salários muito superiores aos ofertados pelo mercado local de trabalho (acima de US$ 500 por mês).

Armas de guerra estão ao dispor do grupo, incluindo metralhadoras e lançadores de foguetes usados contra helicópteros. É prática muito comum colocar armadilhas nos arredores de campos ou de rotas obrigatórias do território rural do VRAE. Estas armadilhas artesanais, feitas com muita imaginação e criatividade, são difíceis de serem descobertas por meio de dispositivos de detecção e equipes especializadas de busca.

Embora o VRAE seja a principal área de atuação do SL, o grupo também continua operando na região do Alto Huallaga. Lá, o SL quase chegou a ser derrotado, mas a vitória completa ainda não foi alcançada. Na região do Alto Huallaga, a legião armada está em número menor, consistindo em menos de 150 militantes. O problema é que a ameaça do SL mudou e seus membros se tornaram “terroristas traficantes narco-madereiros [ilegais]”, de acordo com o General-de-Brigada Leonardo Longa López, comandante-geral da 31ª Brigada de Infantaria encarregada do VRAE, conforme publicado na edição de dezembro de 2010 da revista do Exército peruano, Expresión Militar.

O que o General Longa chama de terror narcomadeireiro é o “resultado da mutação sofrida pelos terroristas remanescentes do VRAE, que se converteram em narcotraficantes e agentes beneficiários da extração ilegal de madeira”. Esta transformação permitiu que o grupo influenciasse a população local, formada principalmente por pessoas carentes e imigrantes da região montanhosa do Peru. Com a falta de oportunidades de empregos, esta influência tem transformado a economia local que agora é conduzida por essas duas atividades ilegais sob a proteção armada do SL.

O General Andrés Acosta tem mestrado em desenvolvimento nacional e defesa e é doutor em ciências políticas e relações internacionais.

O Sendero Luminoso transforma crianças em soldados capazes de assassinar

Sendero Luminoso continua a recrutar crianças

O grupo narcoterrorista Sendero Luminoso (SL) continua a recrutar menores e até mantém uma escola de doutrinação para crianças, chamada de “Escola Popular”, segundo uma reportagem do Panorama, programa de televisão peruano em edição que foi ao ar em novembro de 2010.

Esta escola está localizada na região do vale dos rios Apurímac e Ene (VRAE). Imagens exibidas na reportagem mostram crianças recitando frases marxistas, leninistas e maoístas. O programa também mostrou imagens de crianças enfileiradas no estilo de formação militar, empunhando armas de longo alcance.

Quando chegam aos 15 anos e alcançam pouco mais de um metro de altura, estas crianças já são consideradas veteranas de guerra, informou a Noticieros Televisa, do México. O SL tem, dentre seus recrutas, crianças que são transformadas em soldados treinados para matar, segundo a mesma reportagem.

O Cabo Arí Zevallos, sobrevivente de uma emboscada do SL na selva da Sarabamba, em Ayacucho, revelou durante a reportagem que dentre os agressores estava uma criança de 11 anos de idade, que foi forçada por uma mulher a atirar e matar um soldado ferido.

Ántero Flores Aráoz, ministro de defesa do Peru até o final de 2009, reconheceu em uma entrevista para o Noticieros Televisa que o “Sendero Luminoso doutrina e converte crianças, para usá-las na sua guerra contra o Estado”.

Por meio de uma simples busca na internet usando as palavras “crianças” e “Sendero Luminoso” podem ser encontradas imagens perturbadoras de crianças recrutadas pelo SL, fortemente armadas com um arsenal que inclui metralhadoras AKM e fuzis automáticos leves. A maioria veste-se como adultos, com jaquetas azuis e calças camufladas, e apresenta expressões explicitamente desnudadas da inocência infantil. Elas perderam a infância para se tornarem máquinas de guerra.

DIÁLOGO

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5 de Comentários

  • Karla Palacios | 2011-10-16

    Está claro que quem deve comandar a região do VRAE é o general Longa, que é um estudioso desse fenômeno e conhece de perto, tem que se dar a César o que é de César, esse governo quer mudanças e tem nas mãos o que procura

  • fernando melgar vargas | 2011-10-15

    Concreto, conciso e preciso.

  • Nicolas | 2011-10-15

    O Sendero luminoso como organização política, considero que já não é uma ameaça para a segurança do país, foi derrotado política e militarmente com a captura de seus dois líderes, Guzman em 92 e Feliciano em 99 e é a partir deste momento e circunstâncias que se produz e se consolida a aliança narcoterrorista, sendo o remanescente terrorista um instrumento violento e experiente que utiliza o narcotráfico para realizar suas atividades ilícitas, dando-lhe um sopro ideológico que confunde certos analistas e que lhe permite atrair supostos militantes, que não são nada além de camponeses cocaleiros que se veem beneficiados com essa atividade, essa aliança narcoterrorista ou Nova Estratégia poderia se chamar SENDERIZAÇÃO DO NARCOTRÁFICO, quer dizer que o narcotráfico como ameaça externa e global utiliza esse remanescente criminoso e violento para alcançar seus objetivos

  • victor velasquez | 2011-10-14

    CADA COMENTÁRIO OU REPORTAGEM A RESPEITO ME DEIXA A TRISTE SENSAÇÃO DE QUE OS GOVERNOS QUE SE SUCEDEM DESDE FUJIMORI E AS FORÇAS ARMADAS EM CADA PERÍODO FORAM INCAPAZES DE AFRONTAR COM ÊXITO TAL AMEAÇA POR MEDO DE UMA NOVA OFENSIVA LEGAL QUE COLOQUE TODOS OS ATORES NA CADEIA. HÁ MUITAS VÍTIMAS A LAMENTAR E MUITOS COMPANHEIROS DE ARMAS A CHORAR PARA QUE O SENDERISMO PÓS-GUZMAN CONTINUE FAZENDO PARTE DA MARCA PERU E AS FORÇAS ARMADAS NÃO CONSIGAM SER LAUREADAS POR SUA HISTÓRIA.

  • EDUARDO GARCIA | 2011-10-14

    EXCELENTE O COMENTÁRIO, ESPERO QUE CONCEITOS COMO OS QUE VOCÊ ACABA DE PROPORCIONAR SIRVAM DE BASE ÀS NOVAS ESTRATÉGIAS QUE O GOVERNO DEVE ADOTAR DITANDO LEIS QUE PERMITAM UM MELHOR CONTROLE NA ÁREA, BASICAMENTE PARA DEBILITAR A NOVA MODALIDADE DO SENDERO DE TRAFICAR COM MADEIRA JÁ QUE O VINHA FAZENDO SOMENTE COM A COCA. SOBRE AS ESCOLAS DE DOUTRINAMENTO QUE É UM TEMA CONHECIDO E SOBRE O QUAL NÃO SE ATUA DE FORMA DEFINITIVA, SERIA BOM CONTINUAR COM O QUE ALGUMA VEZ SE FEZ QUE FOI CERCAR TODA A ÁREA E CONTROLAR NO DETALHE O QUE SAÍA E ENTRAVA, E NA VERDADE DEU RESULTADO NO CURTO PERÍODO EM QUE SE PERMITIU FAZÊ-LO. PARABÉNS POR SUA REPORTAGEM UM FORTE ABRAÇO EDUARDO

Fri Apr 18 00:18:53 2014

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