2012-09-03

As fronteiras não são barreiras

O Almirante José Cueto, chefe do Comando Conjunto das Forças Armadas do Peru, falou sobre questões de segurança nacional e de combate ao narcotráfico, em uma entrevista exclusiva a Diálogo, em 26 de julio. (Foto: Marcos Ommati/Diálogo)

O Almirante José Cueto, chefe do Comando Conjunto das Forças Armadas do Peru, falou sobre questões de segurança nacional e de combate ao narcotráfico, em uma entrevista exclusiva a Diálogo, em 26 de julio. (Foto: Marcos Ommati/Diálogo)

Marcos Ommati/Diálogo

Entrevista com o Almirante José Cueto Aservi, chefe do Comando Conjunto das Forças Armadas do Peru

Em uma entrevista exclusiva concedida a Diálogo durante a Conferência Sul-Americana de Defesa (SOUTHDEC 2012), realizada em Bogotá, na Colômbia, entre os dias 24 e 26 de julho, o Almirante José Cueto, chefe do Comando Conjunto das Forças Armadas do Peru, falou sobre questões de segurança nacional e sobre a necessidade de se criar um organismo regional para combater o narcotráfico, entre outros temas.

Diálogo: Qual o principal desafio que o Peru enfrenta atualmente em relação à segurança nacional?

Almirante José Cueto: No campo da segurança do cidadão, oferecemos apoio à segurança pública em todos os aspectos que abalam o país no momento, com todos os movimentos sociais e pró-ambientais que se desenvolvem a cada dia de maneira mais complexa em todo o país. De forma muito direta, nossas Forças Armadas estão empenhadas em dar uma solução a uma parte focada naquilo que chamamos de VRAEM, que são os vales no centro do país onde ainda existem remanescentes de grupos terroristas que já há muitos anos estão vinculados ao narcotráfico. Se a isto se somarem as dificuldades da geografia da região, é necessário que as operações que ali realizamos permanentemente sejam de grande magnitude e complexidade, e um consenso é realmente necessário, não apenas das Forças Armadas, mas também de todos os escalões do estado.

Diálogo: Mas há uma autorização na Constituição, como em outros países como o Brasil e El Salvador, através da qual fica estabelecido que se o presidente solicitar, as Forças Armadas podem auxiliar a Polícia em alguns casos?

Alm Cueto: Sim, nossa Constituição estabelece que apenas com a autorização do presidente da República e sob sua solicitação, as Forças Armadas podem atuar em apoio à Polícia. Se a questão exceder e ultrapassar totalmente as forças policiais, que é o que acontece, por exemplo, nesta zona do VRAEM, serão as Forças Armadas que assumirão o controle total, e a Polícia atuará em apoio às forças de ordem que, neste caso, ficarão sob a direção do Comando Conjunto das Forças Armadas.

Diálogo: O senhor disse, em sua apresentação, que achava importante a existência de um organismo regional para combater o narcotráfico. Poderia abordar esse tema?

Alm Cueto: Eu tentei explicar que, da mesma maneira como as pessoas envolvidas com o narcotráfico e o crime organizado transnacional não reconhecem fronteiras, o que nós teríamos que fazer é ter um só organismo, os quais atualmente temos separadamente, mas que estes poderiam integrar-se apenas com o objetivo de estabelecer políticas e, com isto, chegar a mecanismos reais de ação contra essa luta organizada. Não se trata apenas, por exemplo, no caso do Peru, que lutemos contra o narcotráfico, contra o desmatamento ilegal, a mineração ilegal que vem dia após dia assumindo conotações realmente devastadoras para o meio-ambiente, mas sim que esses delitos que, como eu já disse, não têm fronteiras, também sejam enfrentados de forma conjunta pelos diferentes escalões dos diversos países, sem “olhar fronteiras”, sempre respeitando a soberania de cada nação. No entanto, isto precisa ser bem articulado, de maneira tal que as fronteiras não sejam uma barreira para a luta contra todos esses crimes transnacionais, o terrorismo, o narcotráfico, a mineração ilegal, o desmatamento ilegal e outros que agora estão em conluio, não apenas aqui, mas também na Colômbia, na Bolívia, etc. Para isto é preciso, agora, que não apenas os escalões militares pensem da mesma forma, mas que basicamente os escalões políticos também pensem da mesma forma; sei que é difícil, mas em algum momento isto terá que acontecer.

Diálogo: Seria algo como a Força Tarefa Conjunta Interagentes Sul (JIATF-S)?

Alm Cueto: Eu comentei com o Tenente-Brigadeiro-do-Ar Fraser [Douglas Fraser, comandante do Comando Sul dos Estados Unidos] que poderia ser uma força como o JIATF-S a comandar a batuta, ou qualquer outra que inter-relacionasse os mecanismos, como o que fazemos neste momento na América do Sul, através da UNASUL, CARSI, CARICOM. Que haja uma confluência de opiniões em uma possível reunião, onde o único tema comum seja a luta contra o crime organizado, o que, acredito, não deva ser difícil e ao que ninguém, em sã consciência, possa se opor, mas que isto permita depois, em outro nível, o nível operacional, que seja criado esse grande centro de recepção de informações de forma automatizada, digital, que permita ativar diferentes organizações, sejam elas locais, de um país em particular, ou transnacionais, contra esse tipo de flagelo. Não vejo outra alternativa, caso contrário continuaremos com o que temos atualmente, com cada país tratando de fazer as coisas à sua maneira. Fiquei impressionado com os quadros apresentados pelo Ten Brig Fraser referentes à quantidade de movimentos ilegais. Claro, vemos resultados, mas são poucos, porque se existiu um movimento de 120 mil toneladas de drogas e só se conseguiu apreender 20 mil, resta-nos muito trabalho ainda a fazer.

Diálogo: As Forças Armadas do Peru realizaram um belo trabalho humanitário no Haiti depois do terremoto de 2010. O senhor poderia falar um pouco sobre esse “dom” humanitário que tem o Peru?

Alm Cueto: Não diria que apenas o Peru o faça, nós o fazemos de forma recíproca. Também sofremos desastres naturais, fazemos parte da cadeia do Pacífico, onde os terremotos nos visitam de vez em quando, e tivemos desastres onde recebemos a ajuda de outros países. Da mesma forma, dentro das limitações de um país como o Peru que está, no entanto, em desenvolvimento, se pudermos ajudar, e isto sempre foi feito, ajudamos qualquer país que seja, e não somente do lado sul-americano. O auxílio pode ser feito por via aérea ou, como ocorre com o Haiti, pode-se enviar inclusive algumas embarcações para prestar esse tipo de ajuda humanitária, mas isto é sempre feito, isto sempre se fez.

Diálogo: E por que não se criar também um organismo regional para esse tipo de assistência, para evitar a desorganização dos primeiros dias?

Alm Cueto: Sempre que ocorre um desastre natural, os primeiros dias são realmente muito agitados, apesar de existirem mecanismos multinacionais de apoio aos desastres naturais. Efetivamente, há mecanismos de apoio aos desastres naturais. O que ocorre é que sempre que há um desastre natural, nos primeiros dias realmente instala-se o caos, porque logo o que acontece são os problemas de comunicação. A primeira coisa que se precisa levar em conta é que é preciso que todos nós concordemos em ter um sistema único de comunicações, de forma tal que elas não sejam cortadas. Se não houver comunicação, que desastre! Nós sentimos isto na própria carne no último terremoto, porque perdemos as comunicações e tivemos dificuldade para restabelecer uma rede que nos permitisse utilizar tais meios para apoiar a zona de desastre.

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