2012-07-09

Ministério da Defesa do Brasil quer aumentar gastos militares

O ministro da Defesa brasileiro, Celso Amorim, fala a jornalistas em 30 de maio no Ministério da Defesa, em Brasília. [Ueslei Marcelino/Reuters]

O ministro da Defesa brasileiro, Celso Amorim, fala a jornalistas em 30 de maio no Ministério da Defesa, em Brasília. [Ueslei Marcelino/Reuters]

Por Janie Hulse

O ministro da Defesa brasileiro, Celso Amorim, afirma que o país deve gastar em defesa, no mínimo, o que gastam os outros membros do BRIC, o grupo dos principais países emergentes do mundo: Brasil, Rússia, Índia e China.

Amorim apresentou sua proposta de equiparar os gastos com a defesa ao nível dos BRIC em recente audiência da Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional do Senado. Citando dados do Instituto Internacional de Pesquisas para a Paz de Estocolmo (SIPRI) — um grupo de reflexão sueco que elabora relatórios anuais sobre gastos com defesa no planeta — o ministro disse que o Brasil gasta 1,5% do PIB no setor, enquanto o percentual dos outros integrantes do BRIC gira em torno dos 2,3%.

Esse aumento dos gastos militares iria na contramão dos cortes da pasta do ano passado. O Brasil, que hoje é o país que mais investe em defesa na América Latina, reduziu em 8,2%, ou US$ 2,8 bilhões (R$ 5,7 bilhões), seu orçamento militar de 2011, como parte de um esforço para desacelerar uma economia superaquecida e frear a inflação. Como consequência, houve uma queda de 3,3% das despesas militares na região naquele ano, segundo o SIPRI.

Amorim alega que se o Brasil quiser estar em linha com seus pares Rússia, Índia e China, deverá reverter os cortes do ano passado e elevar seus investimentos na defesa. China e Rússia aumentaram seus gastos militares de 2011 em 6,7% e 9,3%, respectivamente, enquanto na Índia as despesas caíram um pouco devido a pressões inflacionárias semelhantes às do Brasil.

Brasil: Protagonista mundial emergente

Durante a recente reunião da Comissão de Defesa, Amorim exemplificou o papel de potência mundial emergente do Brasil com uma anedota, comparando seus encontros com o ex-secretário de Defesa americano, William Perry, há 18 anos, e com o atual, Leon Panetta, recentemente.

“Quando recebi Perry, dizia-se que o Brasil não precisava desenvolver seu potencial de defesa porque havia uma superpotência que cuidaria de tudo. Nosso exército seria responsável apenas por combater o narcotráfico e o crime organizado”, lembrou. “Hoje, a perspectiva é totalmente diferente. O atual secretário disse que, no mundo contemporâneo, outros países devem estar aptos a encarar seus desafios de defesa.”

Alguns analistas, como Ricardo Rivas, professor da Universidad de Palermo, em Buenos Aires, concordam.

“É razoável que um país como o Brasil, especialmente dada a sua estatura como BRIC, eleve seus gastos com defesa”, afirmou Rivas ao Diálogo. “Ele deve proteger as recém-descobertas reservas de petróleo em águas profundas, uma ideia recentemente validada pelas Nações Unidas no tratamento de zonas econômicas exclusivas. Um gasto maior com defesa não deve significar uma agressividade maior.”

Guiado por um senso de propósito e importância globais, o Brasil continuará com a política de fortalecimento de sua defesa da última década. O aumento dos gastos anunciado segue-se a uma política recentemente implantada que dá incentivos fiscais a empresas do ramo. Em outubro de 2011, a presidente Dilma Rousseff assinou uma medida que isenta de impostos por cinco anos as indústrias locais de equipamentos estratégicos, como armamentos, munição, satélites, foguetes, aviões e veículos militares.

SIPRI: Brasil ocupa o 11º lugar em gastos em defesa no mundo

O Ministério da Defesa do Brasil lançou um programa de US$ 7 bilhões (R$ 14,2 bilhões) para desenvolver quatro submarinos diesel-elétricos — um dos quais será nuclear de ataque rápido, o primeiro do gênero na região. Em seu relatório anual, o SIPRI coloca o Brasil em 11º lugar entre os 15 países que mais gastaram com as forças armadas em 2011. Ainda assim, o valor foi um dos menores em termos de percentual do PIB entre os grandes países — e o especialista em segurança regional Thomaz Guedes da Costa afirma que deve continuar assim.

“A nova proposta do percentual equivalente ao marco orçamentário dos demais BRICs para a defesa brasileira parece não convincente”, garante Costa, professor da Faculdade de Assuntos de Segurança Internacional da Universidade de Defesa Nacional dos EUA. “É difícil argumentar como a defesa brasileira pode se equiparar em natureza e ameaça a Rússia, Índia ou China. Fora o crime organizado, não há percepção de uma ameaça grave, interna, coletiva à segurança nacional do país que leve o Brasil a parar de arrastar sua política de defesa.”

Peter Hakim, presidente emérito do Diálogo Interamericano, também questiona a proposta de Amorim. Recentemente, ele escreveu que o Brasil “não enfrenta hostilidades graves de nenhum de seus vizinhos e suas tropas não estão em guerra com ninguém. Não tem inimigos. Então, por que elevar os gastos militares em 25-30%, ou cerca de 9 ou 10 bilhões de dólares anuais?”

Grandes projetos de defesa já estão em andamento

Com certeza, será um desafio para o governo brasileiro convencer os cidadãos da necessidade de gastar mais com defesa.

Foi durante o mandato do ex-ministro da Defesa Nelson Jobim, em 2007 e 2008, que o Brasil lançou com sucesso sua atual agenda de segurança, focada na criação de instituições de defesa de nível de potência mundial, além de proteger a vasta floresta amazônica e as reservas de petróleo em águas profundas no Atlântico Sul. Hakim chegou a mencionar essa estratégia oficial mas não se deu por satisfeito.

“Talvez o Brasil, um dos maiores consumidores de cocaína do mundo, esteja mais preocupado com o tráfico de drogas do que demonstra”, observa. Recentemente, o Brasil ocupou as manchetes internacionais ao lançar uma grande operação militar anticrime na Amazônia, na fronteira norte do país.

De acordo com uma reportagem da BBC, mais de 8.500 soldados participaram da Operação Ágata 4, que envolveu o bombardeio de pistas de pouso ilegais, utilizadas por contrabandistas de drogas, e a apreensão de aviões que transportavam drogas da Colômbia e da Bolívia, os principais produtores de cocaína da região.

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15 de Comentários

  • Marcelo | 2012-10-25

    Uma pessoa física quando começa a enriquecer passa a ser caçado por bandidos então ele tem que se proteger com medidas de segurança. Da mesma forma, uma pessoa jurídica, empresa, quando começa a crescer ela começa, também, a ser alvo da concorrência devendo se proteger com o sigilo da informação e o mesmo acontece com um PAÍS EMERGENTE, pois " RIQUEZA QUE NÃO SE PROTEGE, SE PERDE." PARABÉNS, MINISTRO CELSO AMORIM. Marcelo, militar.

  • coco | 2012-10-23

    o Peru perdeu em 1879 e não aprende a lição estamos em 2012 e nada acontece com um governo autoritário e no Peru a corrupção é o pão de cada dia e seus ministérios são uma praga de máfias e inclusive os famosos Ministérios da Defesa e do Interior

  • alex | 2012-10-12

    SE CRIAMOS A "AMAZONIA AZUL" PORQUE NAO DEFENDE-LA?

  • DENNIS BERRIOS | 2012-10-06

    NÃO IGNOREM ESTES COMENTÁRIOS PORQUE SÃO VERDADE SOU NICARAGUENSE LATINO-AMERICANO PELA GRAÇA DE DEUS E SINTO-ME ORGULHOSO DE SÊ-LO E POR ISSO DEFENDERIA MEU PAÍS E A AMÉRICA LATINA ENTREGANDO MINHA VIDA EM LUTA O BRASIL E A AMÉRICA LATINA INTEIRA TÊM QUE TOMAR MEDIDAS DRÁSTICAS PORQUE JÁ SE ESGOTARAM OS RECURSOS VITAIS DE MUITAS POTÊNCIAS MUNDIAIS E POR TAL RAZÃO SEREMOS ALVO DO PODER MILITAR DEVASTADOR DESSAS POTÊNCIAS ... QUE JEOVÁ DEUS BENDIGA A AMÉRICA LATINA UNIDA... PAZ E LIBERDADE.

  • MANUEL ARGANDOÑA | 2012-10-04

    PARA SER UMA POTÊNCIA UM PAÍS TEM QUE TER UM POVO INSTRUÍDO E EM BOAS CONDIÇÕES DE VIDA. O BRASIL INFELIZMENTE TEM UMA PORCENTAGEM MUITO PEQUENA DE CLASSE MÉDIA (O PT DE LULA DIZ QUE OS QUE RECEBEM A “BOLSA-FAMÍLIA” SÃO OS NOVOS INCLUÍDOS DA CLASSE MÉDIA! ESSE VALOR É DE +/- US$ 30,00/MÊS POR FILHO INSCRITO NA ESCOLA....Rssss). A POBREZA SANGRA EM TODAS AS CAPITAIS… NÃO SE PODE TRANSITAR COM TANTA GENTE VIVENDO NAS CAPITAIS. FALTAM PONTES E VIADUTOS PARA RECEBER MAIS GENTE!! E O QUE DIZER DOS HOSPITAIS!! FILAS DE DIAS PARA SER ATENDIDO.... SEM CAPACIDADE ... SEM GENTE PREPARADA. NÃO IMAGINO O BRASIL EM GUERRA, SERIA UM TIRO NO PRÓPRIO PÉ, PELA FALTA DE EDUCAÇÃO MÍNIMA.

  • Waldir | 2012-10-03

    Concordo que o Brasil deve possuir poderio militar não para intimidar nossos parceiros comerciais do Cone-Sul e nossos vizinhos, os quais possuímos um laço, mas principalmente por questões de proteção de nossas riquezas. É sabido que a região é muito rica em petróleo, água, minerais e temos a Amazônia. Só por isso já justificaria pelo menos um país com a dimensão do Brasil, que faz fronteiro com a grande maioria dos países do sul, em ter esta capacidade de defesa do seu terrítorio e dos parceiros e vizinhos. Sou amplamente favorável que estes investimentos ocorram e rápido.

  • andré Luis | 2012-09-28

    Além da selva amazônica, há petróleo e outras fontes de recursos naturais o que em pouco tempo será mais caro que o próprio petróleo, a água, o Brasil tem uma das maiores reservas de água doce do Mundo, o aquífero guarani que abrange o Brasil chegando até o Paraguai ocupa uma área maior que muitos países da Europa, se o Brasil não se preocupa com sua defesa será um alvo fácil para aqueles que esgotam seus recursos naturais.

  • aaaa | 2012-09-14

    ESSE SAIE SO FALA A VERDADE

  • Mauro Ferreira | 2012-09-09

    A America do Sul sera o proximo oriente medio. Existem reservas de agua, petroleo e minerio abundantes. Argentina e Uruguay possuem uma das maiores reservas de agua potavel do planeta. A Venezuela riquezas petroliferas imensas. Peru e Bolivia minerios que podem suprir a necessidade mundial. O Brasil e os paises da America do Sul tem que seguir com a alianca militar e estarem preparados, porque nao ha duvida que seremos os alvos no futuro.

  • Mauro Ferreira | 2012-09-09

    A America do Sul sera o proximo oriente medio. Existem reservas de agua, petroleo e minerio abundantes. Argentina e Uruguay possuem uma das maiores reservas de agua potavel do planeta. A Venezuela riquezas petroliferas imensas. Peru e Bolivia minerios que podem suprir a necessidade mundial. O Brasil e os paises da America do Sul tem que seguir com a alianca militar e estarem preparados, porque nao ha duvida que seremos os alvos no futuro.

  • Pedro Oscar Pérez | 2012-08-16

    Os acontecimentos históricos e conjunturais demonstram e ratificam as afirmações de eventuais e/ou potenciais agressores da América Latina que sistematicamente vão revelando que é o continente dos alimentos e recursos naturais cobiçados pelos que não estão dispostos a negociar em boa fé, mas por meio de pressões e agressões. A vil “Primavera Árabe” é um exercício sangrento de pseudo-líderes mundiais para monopolizar recursos que estão começando a escassear e perder sua aposta com o negócio da guerra. O Brasil é sem dúvida o estandarte da coesão estratégica do continente latino-americano, de onde hoje a UNASUR pode brindar o suporte político e tático para fazer frente aos desafios do futuro imediato. Como exemplo, temos a posição do Reino Unido em relação ao Equador: se não fazem o que queremos, nós usaremos a força. Depreciando qualquer avanço das relações do direito internacional desde a Segunda Guerra Mundial. O Brasil tem uma responsabilidade de tomar decisões em sua área de defesa, não somente em favor dos brasileiros, mas também na consolidação da América do Sul como um continente em pleno desenvolvimento e melhoramento, que pode ser incendiado sob os mais absurdos pretextos.

  • OSCAR LUIS | 2012-08-15

    SE VOCÊ QUER A PAZ, PREPARE-SE PARA A GUERRA; DEUS BENDIGA O BRASIL E A AMÉRICA LATINA UNIDAS.

  • Raúl Manrique | 2012-07-31

    Se é verdade que o Brasil não está em guerra e aparentemente não tem nenhum inimigo, também é verdade que isso poderia ocorrer em médio ou longo prazo se fosse atacado por outra nação mais poderosa interessada em apoderar-se de seus recursos e de chegar ao poder na região, tal como já ocorreu com outras nações na história recente. Uma maior força militar e um maior desenvolvimento tecnológico e científico poderiam servir de elemento desencorajador para que tal coisa não ocorra. Parece-me que seria falta de precaução não cuidar agora desses assuntos quando o país tem os recursos e paz, e não quando os perder e for tarde demais. Além disso, o Brasil tornou-se um guarda-chuva protetor da América do Sul, ou assim deveria ser. É o único país que pode ter uma verdadeira capacidade de resposta a uma grande agressão na região.

  • Paulo Roberto | 2012-07-19

    Peter Hakim, presidente emérito do Diálogo Interamericano é contra o Brasil gastar com a Defesa, os EUA gasta milhões e porque o Brasil não pode? Eles pensam que somos bóbo, a Amazônia está ai, os sais minerais de maior riquesa do Mundo, e a água pura que só existe no Brasil, o Petróleo, e ainda fala que não precisamos nos armar? Vai dormir Peter...... Parabéns ao Minsitro da Defesa e ao Governo Federal.

  • maricieloyessamin garcia bringas | 2012-07-12

    muito bem porque eles apoiam as pessoas