Entrevista com o General-de-Brigada Casados Ramírez, Estado-Maior da Guatemala

General-de-Brigada Hellmuth René Casados Ramírez, chefe do Estado-Maior da Defesa Nacional da Guatemala. (Foto: Sandra Marina/Diálogo)
“Somos um Exército do século XXI”, disse o General-de-Brigada Hellmuth René Casados Ramírez, chefe do Estado-Maior da Defesa Nacional da Guatemala, em uma entrevista concedida a Diálogo durante a Conferência Centro-Americana de Segurança (CENTSEC 2012) em São Salvador. Em uma pausa entre as sessões do evento, patrocinado pelo Comando Sul dos Estados Unidos, o militar explicou que o Exército de seu país adapta-se aos desafios modernos, evolui com o resto da sociedade e, talvez exatamente por isto, goze de um alto índice de popularidade entre os guatemaltecos. A batalha acirrada contra Los Zetas, que se infiltram através da fronteira com o México, e a prisão de líderes do narcotráfico graças à cooperação de El Salvador, Honduras e EUA, foram outros temas da conversação.
Diálogo: Durante a CENTSEC 2012, o senhor falou sobre as inúmeras tarefas realizadas pelo Exército da Guatemala para responder às necessidades do povo guatemalteco. Poderia dizer-nos quais são os mais importantes desafios que seu país enfrenta neste momento?
General-de-Brigada Hellmuth René Casados Ramírez: Temos a missão de continuar contribuindo com as forças públicas de segurança para estabilizar a segurança do cidadão, que é a que atinge o guatemalteco, que está sendo vítima de assaltos, contrabando, extorsões, sequestros etc. Vemos com muita clareza que isto é temporário, mas esta é a missão principal. Na ordem dos desafios, está estabilizar o país, respeitar a paz e também contribuir com o setor da justiça, continuar cooperando com a Organização das Nações Unidas, bem como contribuir e colaborar para amenizar os efeitos dos desastres naturais, pois a Guatemala é o sétimo país em risco de sofrer desastres naturais.
Diálogo: Durante sua apresentação na CENTSEC 2012, o senhor referiu-se à criação de novas unidades no Exército. Poderia falar-nos a respeito disto?
General Casados: Este não é apenas um objetivo institucional e sim do governo. No ano passado, depois de muito tempo sem qualquer aumento [no orçamento], foram liberados cerca de US$ 13 milhões para o orçamento do Ministério da Defesa Nacional, com a aprovação do Congresso. Depois de uma redução de quase 50 por cento em 2004, que gerou muitos problemas de segurança, agora retoma-se a questão da criação destas duas brigadas. Uma será em Petén, onde se concentra todo o crime transnacional, devido à situação do corredor de fronteiras sul com o México, e ali está a Brigada de Operações Especiais da Infantaria de Selva. Petén é o estado mais extenso do país, com quase 8 mil quilômetros quadrados. Em seguida temos a Brigada de Polícia Militar em San Juan Sacatepéquez, exatamente para apoiar a segurança no interior e a segurança do cidadão com a Polícia Nacional Civil e o Ministério de Governo. Essas brigadas serão apresentadas oficialmente no dia 30 de junho.
Diálogo: Entendo que estejam criando também uma unidade entre agências com o Comando Sul dos EUA e com as instituições da Guatemala.
General Casados: Sim, este é o projeto da Força Tarefa Tecún Umán, em San Marcos, na fronteira sul com o México. É um apoio que há muito tempo a Guatemala não tinha, com a aquisição de veículos militares de transporte de pessoal, em conjunto com o Ministério do Governo, o Ministério Público, organismo judicial, superintendência de administração tributária, aduanas, imigração… Esta fronteira sul é uma das mais movimentadas, onde mais se pratica contrabando. É exatamente por causa da pressão exercida pelas Forças Armadas e as forças de segurança do México, que necessitamos blindar nossa fronteira. Temos então a coordenação com a Marinha mexicana através do Grupo de Alto Nível de Segurança da fronteira, que vem funcionando muito bem, porque temos comandantes táticos operacionais que se comunicam entre a fronteira da Guatemala e a do México. Essas informações nos servirão para as operações na fronteira sul. O apoio material é fornecido pelo Comando Sul dos EUA.
Diálogo: A fronteira demanda muito esforço das forças militares e parte disto tem relação com a presença de alguns indivíduos dos cartéis mexicanos de drogas. O senhor poderia abordar esta questão?
General Casados: Os fatos indicam que continuamos a ter um fluxo considerável da organização [Los] Zetas na Guatemala. Ainda que o fluxo não tenha aumentado, esses grupos geram atos de violência principalmente em Petén e Alta Verapaz. No final do ano passado, 26 trabalhadores rurais guatemaltecos que trabalhavam em uma residência em Petén foram decapitados por esse grupo. Em consequência disto, tivemos que decretar um estado de sítio que nos permitiu realizar mais de 25 capturas. Recentemente capturamos um dos principais contatos de Los Zetas na Guatemala, Horst Walter Overdick Mejía, que tinha ordem de prisão internacional.
Diálogo: Como está sendo feita a colaboração com outros países da América Central?
General Casados: A cooperação é permanente. Com o México, é uma relação pelo lado norte e ocidental. São quase 580 quilômetros de fronteiras com os Estados Unidos Mexicanos. Com Belize temos as medidas de fomento da confiança, que são os patrulhamentos de fronteira na zona adjacente. Com El Salvador e Honduras mantemos excelentes relações e, todo mês, os comandantes de cada país reúnem-se com seus homólogos e fazem operações de controle.
Diálogo: Existe algum exemplo concreto do resultado desses trabalhos de colaboração?
General Casados: Recentemente foi expedida uma ordem internacional de prisão contra um bando envolvido no crime organizado e a Nicarágua nos pediu informações sobre a senhora Soliz [Tania Zaleska Solís Castillo], de origem nicaraguense, envolvida em uma quadrilha internacional. A informação foi fornecida e a partir dela a captura se efetivou na Guatemala. Também com El Salvador e Honduras, através de operações e informações, temos realizado capturas de narcotraficantes.
Diálogo: Sabemos que o Exército da Guatemala também trabalhou com afinco na destruição das pistas aéreas utilizadas pelos narcotraficantes…
General Casados: Sim, e aí colaboraram inclusive os próprios prefeitos das localidades, que solicitaram a destruição de algumas pistas por considerarem-nas suspeitas. Gostaria de dizer que em 2009 e 2010 tivemos uma alta concentração de pousos de aviões de narcotraficantes. Utilizando diversos métodos de destruição de pistas, fomos muito eficientes e conseguimos neutralizar a maioria desses voos, através também de operações com informações que trocamos. Como consequência deste trabalho, os voos começaram a desviar-se para a costa Atlântica de Honduras já em 2011. É exatamente ali que está agora a Operação Martillo, na costa Atlântica da Nicarágua e Honduras.
Diálogo: Qual é realmente a participação da Guatemala na Operação Martillo?
General Casados: O Vice-Almirante Charles Michel, que comanda a Força Interagencial à frente da Operação Martillo, visitou-nos e fez a proposta. Então nós criamos unidades especiais, principalmente as da Força Especial Naval, com seus equipamentos e pessoal treinado de forma conjunta para responder ao pedido de uma interceptação mar adentro. Posso dizer que foram feitas operações de 120 milhas náuticas. Isto é o bastante.
Diálogo: O Exército da Guatemala desfruta de grande credibilidade entre a população. Como se conseguiu isto?
General Casados: Isto ocorre porque sempre nos focamos no benefício de nossa sociedade. O militar na Guatemala deve ser um tanto antropólogo, deve conhecer as 23 etnias e ter pelo menos uma noção dos 23 distintos dialetos falados aqui. Assim sendo, quando nos empenhamos em uma área, devemos absorver seus costumes, seus direitos consuetudinários, respeitá-los e integrar-nos a eles. Recentemente realizamos um exercício com 40 soldados canadenses e 250 soldados da reserva dos Estados Unidos, que trabalharão em seis projetos de construção de escolas, fornecimento de água potável, serviços odontológicos, serviços médicos, em conjunto conosco. Esta proximidade, através de operações de informações e relações civis-militares, demonstra que temos consciência das necessidades de nossa população e que estamos em contato com ela. Sabemos que vivemos no coração de nossos cidadãos e queremos continuar neles.




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