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2012-05-07

Psicólogos da FAB levam seu conhecimento ao Haiti

Uma equipe de psicólogos brasileiros enviada para a Missão das Nações Unidas para a Estabilização no Haiti (MINUSTAH) visita uma pequena cidade perto de Porto Príncipe. [Agência Força Aérea/IPA]

Uma equipe de psicólogos brasileiros enviada para a Missão das Nações Unidas para a Estabilização no Haiti (MINUSTAH) visita uma pequena cidade perto de Porto Príncipe. [Agência Força Aérea/IPA]

Por Isabel M. Estrada Portales

Pela primeira vez, psicólogos integrantes da Força Aérea Brasileira foram enviados para uma missão de paz das Nações Unidas no exterior com a finalidade de identificar e compreender os estresses que afetam os militares durante esse tipo de trabalho.

Em dezembro, uma equipe do Instituto de Psicologia da Aeronáutica (IPA) acompanhou o Batalhão de Infantaria de Manaus, que foi destacado para Porto Príncipe como parte da Missão das Nações Unidas para a Estabilização no Haiti (MINUSTAH). O objetivo: aprimorar o treinamento de soldados enviados em missões similares no futuro.

“Foi uma experiência profissional única”, afirma a tenente psicóloga Fabrícia Barros de Souza. “Nossos militares foram receptivos e contribuíram de forma significativa para a coleta de dados. Todos demonstraram ser profissionais altamente capacitados e comprometidos com a missão.”

A Força Aérea Brasileira oferece apoio aéreo ao contingente brasileiro que integra a MINUSTAH, e, mais recentemente, começou a enviar tropas de infantaria. As primeiras unidades chegaram em fevereiro de 2011 provenientes das cidades nordestinas do Recife, Natal e Fortaleza, mas foram, depois, substituídas pelo pelotão de Manaus, que permaneceu no Haiti até o fim de abril.

“Acreditamos ser da maior importância que, juntamente com a excelência técnica e operacional, nós consideremos e constantemente monitoremos os aspectos psicossociais de uma missão desta natureza”, diz o major Luís Felipe, porta-voz da Aeronáutica.

O objetivo é garantir que as tropas brasileiras – que têm marcado presença no Haiti desde 2004 – executem sua missão eficazmente sem risco para sua segurança e saúde ocupacional.

Objetivos da missão

O primeiro contingente das tropas da Força Aérea destacado para o Haiti foi submetido a avaliações psicológicas para determinar se algum de seus membros possuía problemas pessoais ou familiares que pudessem causar problemas durante ou após a missão.

“O projeto trata a questão do estresse em operações de paz como parte específica do trabalho diário dos militares brasileiros”, explica Felipe. “Uma vez que esse monitoramento exige um retorno de informação, incluímos um estudo de perfis profissionais e uma pesquisa de fatores estressantes, que poderiam dar legitimidade ao trabalho realizado com cada soldado novo.”

A tenente-coronel psicóloga Ana Lúcia Lopes, vice-diretora do Instituto de Psicologia da Aeronáutica, ajudou sua equipe a realizar entrevistas individuais e em grupo, palestras e videoconferências; a equipe também participou da rotina diária dos militares que observavam.

“A rotina de trabalho foi intensa e seus resultados representam apenas o começo de uma empreitada audaciosa que busca ganhar visibilidade para o papel da psicologia na realidade operacional”, diz Fabrícia .

Fontes de estresse

Talvez, por esses soldados não estarem lutando uma guerra verdadeira, seja fácil se subestimar as muitas fontes de estresse que esses mantedores da paz enfrentam e os efeitos de longo prazo de tal estresse. Isso inclui o fato de estarem longe da família, morando em uma cultura diferente e os conflitos locais que caracterizam esse tipo de missão.

No Haiti, esse estresse é exacerbado pelas condições de extrema pobreza da população local; agressão verbal de alguns haitianos; o risco de doenças ou morte por doenças infecciosas; vulnerabilidade a atos de violência sem a capacidade de responder com armas; a falta de recursos de comunicação para se manter em contato com amigos e familiares em seu país natal e – talvez o pior de tudo – a incapacidade de melhorar significativamente a vida dos habitantes locais.

“A complexidade das missões de paz também diz respeito a colocar os militares em uma situação nova”, explica Felipe. “É diferente de uma guerra tradicional, que, do ponto de vista psicológico, é identificado com a incerteza e o desconhecido.”

Nesse caso, afirmou, “também não há um inimigo, o que torna o objetivo dessas operações algo mais complicado do que meramente vencer. Esses obstáculos não apenas comprometem o desempenho da missão, mas afetam a motivação e ameaçam a saúde física e mental do soldado”.

O caminho a seguir

O objetivo das entrevistas individuais e em grupo foi o de coletar dados, mas Felipe informa que “nós estávamos à disposição deles em caso de necessidade de uma intervenção”.

A despeito do contato limitado com a população local, a equipe brasileira deixou Porto Príncipe com a clara impressão de que os haitianos são bastante receptivos à presença da MINUSTAH – especialmente as crianças, que aprenderam o nome dos psicólogos num piscar de olhos.

“As tropas dizem que o sorriso dessas crianças é um fator motivador para seu trabalho e, de certa forma, ameniza as condições adversas da missão”, revela Felipe.

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