2012-05-07

Chile busca ampliar presença na Antártica

Membros da tripulação do M/S Explorer chegam a Punta Arenas de uma base de pesquisa chilena na Antártica, depois que seu navio afundou em 23 de novembro de 2007. [Reuters/Ivan Alvarado]

Membros da tripulação do M/S Explorer chegam a Punta Arenas de uma base de pesquisa chilena na Antártica, depois que seu navio afundou em 23 de novembro de 2007. [Reuters/Ivan Alvarado]

Por Janie Hulse

O Chile segue um plano multibilionário para aumentar sua presença na Antártica. O Plano Antártica, como é conhecido, tem por objetivo aperfeiçoar a capacidade nas áreas de ciência, turismo e defesa do país sul-americano no continente gelado.

Em janeiro, o presidente Sebastian Piñera revelou seu programa que busca renovar e construir bases; investimentos que garantem ao Chile a posição de portal da Antártica; a consolidação das 67 entidades existentes no país relacionadas à Antártica em uma única instituição e o desenvolvimento do turismo na região Antártica-Magalhães.

Embora a mídia local tenha-se referido a esse plano de quatro pilares como novo, isso não significa necessariamente uma mudança de política.

“Faz tempo que o Chile tem interesse em estabelecer presença na Antártica, há cerca de 50 anos. Agora, o país precisa modernizar as bases existentes”, diz o doutor Jaime García, um brigadeiro da reserva do Exército chileno que possui doutorado em ciência política. García explicou que esses aprimoramentos são apenas uma questão natural num momento em que o Chile reivindica a região da Antártica como parte de seu território, a chamada XII Região de Magalhães e Antártica chilena – cuja capital é Punta Arenas.

O coronel Arturo Contreras, professor na Universidad de Chile, em Santiago, também se referiu ao legado antártico de seu país desde o final do século XVI, ressaltando que “no aclamado poema La Araucana, Alonso de Ercilla y Zúñiga descreveu o Chile e a Antártica como um pertencendo ao outro”.

O Chile possui quatro bases permanentes que funcionam o ano todo e outras oito que operam apenas durante o verão, quando o clima é um pouco mais complacente, com máximas de 1,11°C. Uma delas, a Base Presidente Eduardo Frei, é dirigida pela Força Aérea chilena e, inclusive, abriga uma pequena vila chamada Villa Las Estrellas, com uma população de mais de 80 militares, cientistas e professores. Além da base argentina Fortín Sargento Cabral, é a única colônia fixa na Antártica.

Em fevereiro passado, a maior base do Brasil na Antártica, Comandante Ferraz – localizada na Baía do Almirantado, na Ilha do Rei George – foi destruída por um incêndio que matou dois oficiais da Marinha e destruiu milhões de dólares em pesquisas sobre o efeito das mudanças climáticas e seu impacto no planeta.

De acordo com uma lei internacional, a Antártica não pertence a nenhum país, embora partes do continente sejam reivindicadas pela Argentina, Austrália, Chile, França, Nova Zelândia, Noruega e Reino Unido. Um tratado internacional de 1959 separa a Antártica como uma área de preservação científica e veda atividades militares no continente. Atualmente, 49 países, incluindo o Chile, assinaram o Tratado da Antártica, cujos principais objetivos são garantir o uso pacífico da região e seus mares circundantes, enquanto abriga pesquisas científicas e previne futuras disputas territoriais.

O problema, explica Contreras, é que a aplicação desse conceito gera confusão e conflito. Os países têm uma longa tradição de disputa sobre a Antártica. Por exemplo, o Chile reivindica soberania sobre todas as terras entre as longitudes 53º e 90º oeste, a Argentina entre as 25º e 74º oeste, e o Reino Unido entre as 20º e 80º oeste – o que significa que essas respectivas reivindicações se sobrepõem.

“A Antártica continuará a ser uma terra de ninguém no curto prazo, administrada internacionalmente, mas, eventualmente, o aquecimento global forçará uma mudança no médio prazo, quando o verdadeiro potencial do continente se tornar mais evidente e o poder geoestratégico aumentar”, diz o coronel.

De fato, os planos de aprimoramento do Chile para a Antártica surgem apenas alguns anos após relatórios revelarem a presença de minérios valiosos como minério de ferro, cobre, ouro, níquel, platina e carvão. O continente pode também conter reservas de petróleo – mas o desafio é alcançar toda essa riqueza mineral sob uma grossa camada de quase 3,22 km de espessura de gelo.

Alguns especialistas argumentam que a distância para mercados-chave, condições climáticas proibitivas e quantidades limitadas identificadas tornam esses recursos comercialmente inviáveis. Ademais, uma emenda ao Tratado da Antártica assinada em 1991 proíbe a extração mineral, exceto para fins científicos.

O tratado por si só também proíbe atividades militares na Antártica. Entretanto, os militares e seus equipamentos podem ser usados em pesquisas científicas e em outros fins pacíficos.

“Não se pode confundir a presença militar com bases armadas ou posturas defensivas. Os militares chilenos sempre foram responsáveis pela construção e manutenção das bases”, diz Contreras, assinalando que a Antártica contém 80% das reservas de água potável do mundo, em um momento em que a escassez de água e energia tem-se tornado uma das principais preocupações globais.

A Antártica está estrategicamente localizada entre África do Sul, Austrália e América do Sul, e é rodeada pelos três maiores oceanos do mundo: o Pacífico, o Índico e o Atlântico. Isso a torna atraente como base de operações caso surja um grande conflito. No Hemisfério Ocidental, estende-se até perto da Passagem de Drake, uma rota alternativa entre os oceanos Pacífico e Atlântico. Embora essas águas turbulentas sejam de difícil navegação, são, porém, a única alternativa ao Canal do Panamá nas Américas.

Chile, Argentina, Brasil e Peru são os únicos países sul-americanos que demonstraram interesse na Antártica. Mesmo assim, como Contreras ressalta, somente o Chile e a Argentina possuem reivindicações territoriais e uma voz no sistema do Tratado da Antártica.

“A Antártica é uma oportunidade para aumentar a cooperação Chile-Argentina”, pontua, “como também de cooperações sul-americanas mais amplas lideradas por esses dois países-ponte.”

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3 de Comentários

  • Pablo Ernesto | 2013-12-06

    Caros Anibal e Pinguino, Lamentavelmente demonstram uma total falta de conhecimento sobre as pesquisas realizadas e em realização na Antártida pelo Chile, muito antes da existência de um "Barão de Teffé" e de pesquisas brasileiras, aquelas já existiam! A presença antártica chilena está longe de limitar-se a presença militar ou a tentativas de ter bebês (rs) naquela região do globo, a Antártica Chilena aparece em mapas já no século XIX. Ao contrário do que muitos brasileiros acreditam, existem muitos cientistas na AL sem serem do Brasil... Acredito que este mal seja devido à falta de informações (conforme estudos, a educação no Brasil está muito abaixo da média, incluso sendo dos últimos colocados na AL), a uma prensa tendenciosa e etc. Como fato cito a parceria que o Brasil possui para um observatório astronômico no norte do Chile (um telescópio) amplamente divulgado como "Telescópio brasileiro no Chile", se pesquisarem verão que os EUA e Chile CONVIDARAM o Brasil a uma pareceria em novo telescópio. Agora, comparando as capacidades de pesquisa realizadas pelo Reino Unido ou EEUU com TODOS os países da AL... é obvia uma inferioridade econômica, qualitativa, quantitativa e de FOCO.

  • Anibal | 2013-03-01

    Essa é a prova viva do PONTO DE VISTA IRRACIONAL do Exército Chileno. Quem vê palavras emblemáticas. Pela razão ou pela força. Um ponto de vista geopolítico muito distorcido.

  • Pinguino Antartico | 2012-05-11

    Lamentável a análise, tanto pela visão geopolítica antiquada e sem profundidade, assim como pelos atores entrevistados, que em nada refletem a atual realidade do Chile na Antártica. Se alguém ainda pensa que mantendo presença militar no Continente Branco melhoramos nossa pretensão de soberania, seríamos os únicos ingênuos entre os 7 países reivindicantes, pois a maioria deles tem se voltado à Antártica para fazer uma investigação de ponta, pois em uma eventual reivindicação, a demonstração de que um país desenvolveu conhecimento científico sobre um lugar em particular (através de revistas de grande circulação, internacionais, ISI) será um argumento, sem dúvida, importante. Não importa quantos bebês, selos comemorativos e medalhas sejam produzidos, senão a demonstração empírica de conhecimento científico. Isso poderia explicar por que países como o Reino Unido, com uma visão geopolítica “claríssima”, traçaram como meta produzir a melhor ciência envolvendo a Antártica do mundo, com o apoio de todos os seus operadores antárticos... isso faz parar para pensar. Finalmente, basta checar a imprensa... Chile na Antártica destaca-se por suas bases militares?

Fri Apr 18 00:18:53 2014

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