2012-05-01

África Ocidental: Novo ponto de trânsito na rota de drogas Europa–América do Sul

O Aeroporto Internacional Amilcar Cabral, na Ilha do Sal, Cabo Verde, está entre os aeroportos da África Ocidental incluídos no projeto do UNODC de combate ao tráfico de drogas. [Larry Luxner]

O Aeroporto Internacional Amilcar Cabral, na Ilha do Sal, Cabo Verde, está entre os aeroportos da África Ocidental incluídos no projeto do UNODC de combate ao tráfico de drogas. [Larry Luxner]

Por Jamie Dettmer

Colômbia ajudará países da região com treinamento no cumprimento da lei para combater o crime organizado — especialmente lavagem de dinheiro e narcotráfico.

Autoridades colombianas e africanas reuniram-se de 27 a 31 de março em Bogotá em um seminário sobre o crime organizado transnacional. Abrindo o evento, a ministra colombiana das Relações Exteriores, María Angela Holguín, disse aos ouvintes que “é impossível para um país, com seus recursos técnicos e financeiros, assumir uma estratégia contra o crime organizado e até mesmo contra o crime comum sem o apoio de outros parceiros”.

O seminário aconteceu enquanto as pobres nações da África Ocidental surgem cada vez mais como pontos de trânsito para drogas ilegais na rota de produtores sul-americanos para o mercado consumidor europeu. Em um relatório de fevereiro de 2012, a Divisão Internacional de Controle de Drogas afirma que a África Ocidental se tornou uma “ponte logística” do tráfico de cocaína para a Europa.

Da mesma forma, o Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC) denunciou que 13% das 217 t de cocaína exportadas da América do Sul para a Europa no ano passado passaram pela África Ocidental. Entre os países usados como pontos de trânsito estão Gâmbia, Gana, Libéria, Nigéria, Serra Leoa, Senegal, Mali, Níger e Guiné-Bissau.

Cartéis estão por trás do drástico crescimento das cargas de drogas

Funcionários antidrogas da ONU afirmam que o tráfico se sofistica a cada dia, com o possível uso de submarinos pelos cartéis sul-americanos para enviar os narcóticos. Eles também acusam os cartéis de enviar grandes navios-mãe com toneladas de cocaína para atracar no litoral mal patrulhado da África Ocidental e, depois, transportar as drogas em barcos menores para diversos destinos e pontos de armazenamento.

Os sul-americanos também utilizam aeronaves. Em 2009, autoridades do Mali encontraram um Boeing 727 abandonado que foi usado no transporte de cocaína.

Apesar do declínio das apreensões de drogas na África Ocidental, o volume e cargas reais podem estar crescendo, alertou o chefe regional do UNODC Alexandre Schmidt, calculando o valor anual das cargas sul-americanas para a África em US$ 900 milhões (R$ 1,7 bilhão), um aumento em relação aos US$ 800 milhões (R$ 1,5 bilhão) de 2009.

Schmidt também destacou a criação de cartéis de drogas na África Ocidental. Na conferência em Dakar, Senegal, afirmou que as apreensões de cocaína com destino à Europa na África Ocidental caíram de 47 t para 35 t entre 2008 e 2009, mas que “houve um reposicionamento de rotas de drogas” e que os traficantes “possuem meios muito mais sofisticados” atualmente.

O consumo local de drogas também cresce rapidamente na região, com cerca de 25 milhões de usuários na África Ocidental, segundo o UNODC. Das 35 t de cocaína que, acredita-se, tenham chegado à África Ocidental em 2009, cerca de 21 t prosseguiram para a Europa, enquanto o restante foi consumido localmente.

UNODC: Contrabandistas exploram a fraqueza da África Ocidental

O diretor do UNODC Yuri Fedotov diz que os sindicatos do crime latino-americanos se aproveitam da pobreza, do controle de fronteira precário e das agências da lei fracas da África.

“A rota de trânsito da África Ocidental alimenta o mercado de cocaína europeu, que, nos últimos anos, cresceu quatro vezes, atingindo uma quantidade quase equivalente ao mercado americano”, disse Fedotov ao Conselho de Segurança da ONU na conferência de 21 de fevereiro.

As ligações do tráfico entre a África Ocidental e a América do Sul se fortaleceram rapidamente nos últimos anos, com criminosos colombianos e o cartel mexicano de Sinaloa na liderança. Fronteiras porosas e agências da lei sem recursos criaram o que especialistas chamam de um ambiente permissivo para os cartéis.

A proximidade da África Ocidental dos lucrativos mercados europeus é outro atrativo, assim como os laços do Brasil com as nações de língua portuguesa de Cabo Verde, Guiné-Bissau e São Tomé e Príncipe — que, em alguns casos, levou ao estabelecimento de conexões do submundo.

Novo programa liga o Brasil a 7 aeroportos da África Ocidental

Anteriormente este ano, a Organização Mundial de Alfândegas juntou-se ao UNODC e à Interpol em um projeto de US$ 3,2 milhões (R$ 6 milhões) para melhorar as comunicações entre a polícia e sete aeroportos em países da África Ocidental e do Brasil. O projeto, conhecido como Aircop, envolve a troca de inteligência entre o Brasil e os aeroportos internacionais de Cabo Verde, Costa do Marfim, Gana, Mali, Nigéria, Senegal e Togo; Guiné e Marrocos devem se juntar depois.

A Europa não é o único destino das drogas sul-americanas que passam pela região. Funcionários de aeroportos filipinos aumentaram sua vigilância a passageiros que chegam de aeroportos da África Ocidental, depois de diversas prisões de mulas.

Em 13 de março, dois ganeses foram pegos com narcóticos, principalmente cloridrato de metanfetamina (conhecido como “ice”). Ao todo, oito mulas da África Ocidental foram presas nos aeroportos filipinos em março, afirma a porta-voz do governo Maria Antonette Mangrobang. “Nós instruímos as autoridades aeroportuárias para observar mais de perto as chegadas da África Ocidental e para fazer mais perguntas”, diz.

Nos últimos 12 meses, 38 supostos membros de gangues de drogas africanas foram presos nas Filipinas.

Tráfico mina sociedade africana

O alarme global sobre o papel da África Ocidental no comércio de drogas foi disparado em 2007, quando a ONU publicou um relatório arrasador sobre o assunto que alerta que, exceto se mais recursos forem mobilizados para combater os narcotraficantes, o tráfico pode desestabilizar a região.

Analistas independentes ampliaram o alarme. Kwesi Aning, um acadêmico do Centro Kofi Annan de Pacificação em Gana, diz que o narcotráfico está minando os frágeis estados da África Ocidental “porque um fluxo crescente de drogas está enfraquecendo as instituições, as comunidades locais e o tecido social”.

Em fevereiro, o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, avisou que o crescimento do crime organizado transnacional, tráfico de drogas e pirataria ameaça a paz e a estabilidade na África Ocidental e no Sahel.

Enquanto isso, a ONU está criando e treinando unidades anticrime transnacional em Guiné-Bissau, Libéria e Serra Leoa. Vários países europeus, inclusive França, Grã-Bretanha e Espanha, também prestaram aconselhamento e financiamento aos governos da África Ocidental para ajudar no combate ao crime transnacional.

Tais esforços parecem que estão começando a dar resultado. No ano passado, a polícia liberiana apreendeu uma carga de cocaína avaliada em US$ 100 milhões (R$ 189 milhões).

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