2011-12-27

Sendero Luminoso forma partido político no Peru

Moradores da favela de Villa El Salvador, em Lima, passam em frente a um muro pixado com os dizeres “Liberdade para Abimael Guzmán”, o líder do grupo guerrilheiro Sendero Luminoso preso em 1992. [Reuters/Pilar Olivares]

Moradores da favela de Villa El Salvador, em Lima, passam em frente a um muro pixado com os dizeres “Liberdade para Abimael Guzmán”, o líder do grupo guerrilheiro Sendero Luminoso preso em 1992. [Reuters/Pilar Olivares]

Por Lucien Chauvin

LIMA — A vitória final sobre o violento grupo guerrilheiro Sendero Luminoso continua fora do alcance das autoridades peruanas quase duas décadas após a prisão da maior parte da liderança do partido proscrito.

Seu fundador e líder, Abimael Guzmán, foi capturado em setembro de 1992. Sua prisão, e a de seus seguidores mais próximos, eliminou definitivamente a ameaça política e militar imposta pelo Sendero Luminoso — como o grupo é conhecido em espanhol.

Guzmán, de 77 anos, passou a pressionar o governo por negociações logo após ser preso, mas nenhum dos cinco presidentes do Peru aceitou conversar, prometendo, porém, dar fim ao que sobrou do grupo, sem, entretanto, obter muito êxito. O presidente Ollanta Humala, que tomou posse em julho, prometeu livrar o país do terrorismo até o fim de seu mandato em 2016.

Mas a tarefa não será nada fácil, tendo em vista as diferentes formas adotadas pela organização terrorista. A situação atual, no entanto, indica que Humala — um tenente coronel reformado que enfrentou o grupo guerrilheiro nos campos de batalha no início dos anos 90 — pode conseguir realizar em cinco anos o que seus antecessores não conseguiram em 20.

Resistência nas regiões do VRAE e do Vale do Alto Huallaga

Dois focos de resistência armada em locais remotos da vasta região de floresta do país dão seguimento à luta. O Estado Maior das Forças Armadas relatou que, em meados de 2011, o Sendero Luminoso contava com 500 membros, incluindo combatentes armados e operadores logísticos que agem no Vale dos Rios Apurímac e Ene (VRAE), na região de floresta do centro-sul e no Vale do Alto Huallaga, ao norte.

Segundo autoridades, a facção de Huallaga teria matado cinco pessoas em 2011, cujos corpos traziam a marca que indicava que as vítimas eram consideradas informantes. Estima-se que, no total, 50 pessoas tenham morrido dessa forma desde que foi decretado o estado de emergência na região em dezembro de 2005.

Tal medida, renovada a cada seis meses, foi anunciada depois que oito policiais foram mortos em uma emboscada. O grupo do Alto Huallaga é liderado por Florindo Flores, ou “Camarada Artemio”, o único membro do grupo original do Sendero Luminoso que ainda se encontra em liberdade.

Artemio, de 50 anos, comanda a região do vale desde o auge do grupo armado no início dos anos 90. Sua frente se tornou um componente essencial da luta da organização, tendo recebido dinheiro do tráfico de coca e cocaína, que foi utilizado para financiar suas atividades terroristas em todo o país. Quase 75% do território peruano encontrava-se em estado de emergência quando Guzmán foi preso em 1992.

As forças de Artemio vêm diminuindo com o passar dos anos e graças à captura de muitos de seus principais coordenadores militares e de logística pelas autoridades. Pelo menos seis de seus colaboradores mais próximos foram mortos ou presos nos últimos dois anos. Em entrevista concedida no início de dezembro ao veterano jornalista peruano Gustavo Gorriti, Artemio afirmou que seus combatentes dariam fim às ações armadas, mas que não se desmobilizariam. Ele instou o estado a aceitar a proposta de Guzmán de uma “solução política para o conflito interno” e negociar. A demanda foi totalmente rejeitada.

“Não pode haver negociações com o Sendero Luminoso. Eles perderam”, disse o deputado Octavio Salazar, general de polícia reformado e ex-ministro do Interior do governo anterior. “A única coisa que Artemio pode fazer é se entregar às autoridades. Ele sabe que seus dias estão contados.”

De fato, uma pesquisa realizada em 18 de dezembro pelo Ipsos Apoyo, principal instituto de pesquisas de opinião, mostra que 86% dos peruanos são contra a negociação.

Produção de coca é um grande negócio para o Sendero Luminoso

A facção do VRAE, que opera na área de florestas da região centro-sul, é uma força mais letal. Seu líder, Víctor Quispe Palomino, está na luta há tanto tempo quanto Artemio, mas deixou de ser fiel a Guzmán e rejeita a ideia de uma “solução pacífica”, chamando-o de assassino tirano. Já Artemio e os advogados do líder do Sendero luminosos classificam Quispe de “antimaoista” e mercenário.

O grupo de Quispe já matou 12 soldados desde o início do ano. O caso mais recente ocorreu durante um ataque duplo em 12 de dezembro, em que os rebeldes atiraram contra um comboio militar e, depois, contra um helicóptero que trazia reforços, matando um soldado e ferindo outros 11. Ao todo, cinco soldados foram mortos desde que Humala tomou posse no fim de julho.

Assim como o grupo do Alto do Huallaga, a facção do VRAE opera em uma área produtora de coca/cocaína. A região se tornou a principal fonte da droga no ano passado, com o plantio de 19.723 hectares — comparado a 13.025 hectares no Alto Huallaga, segundo o Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime. O VRAE está sob estado de emergência desde maio de 2003.

Jaime Antezana, estudioso da organização terrorista desde os anos 90, concorda que os combatentes do VRAE não são mais maoistas, mas que, hoje em dia, são traficantes de drogas que continuam a utilizar o nome Sendero Luminoso por se tratar de uma “marca” conhecida.

“A facção do VRAE não tem interesse em política. Eles usam o nome porque as pessoas conhecem e têm medo”, afirma Antezana. “A luta no VRAE não visa o controle de território por razões políticas, mas sim para assegurar as rotas do tráfico de drogas.”

Os líderes militares também admitem a conexão das drogas. O general do Exército, Leonardo Longa, por exemplo, declarou após um ataque a um posto militar em novembro que tirou a vida de um soldado, que o Sendero Luminoso estava reagindo a operações antidrogas que haviam apreendido 1,5 tonelada de cocaína nas semanas anteriores.

Embora não tenham prendido ou matado nenhum líder da organização terrorista no VRAE, os militares vêm, aos poucos, realizando avanços. As autoridades afirmam que o palco das operações do grupo no vale, que abrange as regiões de florestas das províncias de Ayacucho, Cusco, Huancavelica e Junín, foram reduzidas a alguns entrepostos em locais remotos. Hoje, existem 33 bases de repressão na região, comparado a 20 há três anos.

Estado rejeita iniciativa do Sendero Luminoso para formar partido político

No final de 2011, surgiu uma nova frente, mas, desta vez, a batalha é política. Os advogados de Guzmán e de outros membros da hierarquia encarcerada do Sendero Luminoso formaram um partido político, o Movimento pela Anistia e Direitos Fundamentais (Movadef), tendo coletado quase 360.000 assinaturas, mais que o dobro das 164.000 necessárias para registro, e estabeleceu 75 comitês provinciais em todo o país.

O escritório de registro da Junta Nacional de Eleições (JNE), no entanto, rejeitou a inscrição do partido em 28 de novembro, argumentando que o Movadef endossa a violência. O partido recorreu da decisão.

“A decisão de rejeitar o Movadef é inconstitucional”, diz Alfredo Crespo, um dos fundadores do Movadef. “Fomos rejeitados por motivos filosóficos e pela JNE, mas apenas o Supremo Tribunal tem direito de bloquear um partido político que cumpre com todas as exigências.”

Crespo, que passou 12 anos na prisão por sua atuação no Sendero Luminoso e que se tornou advogado de Guzmán desde que foi libertado em 2006, entrou com um recurso no início de dezembro. “Vamos lutar contra essa decisão nos tribunais peruanos e até internacionalmente, se necessário. A constituição está do nosso lado”, afirma.

O Movadef trafega por uma linha tênue porque a legislação do Peru tipifica a “apologia ao terrorismo” como crime sujeito a pena de 20 anos de prisão. O partido foi rejeitado por incluir em sua orientação filosófica o Pensamento Marxista-Leninista-Maoista-Gonzalo e por alegar que está trabalhando em prol da criação da República Popular do Peru.

O Pensamento Gonzalo é a interpretação de Guzmán do Maoismo e sua aplicação prática no Peru, que prega que a revolução armada e violenta é a única maneira de provocar mudanças. O nome de guerra de Guzmán era “Presidente Gonzalo”.

A decisão da JNE afirma que a ideologia implica em “violência, morte, destruição … que vão de encontro ao sistema democrático.”

Ainda assim, Crespo alega que as ideias de Guzmán são apenas um princípio para o Movadef, ao passo que constituem uma ideologia para o Partido Comunista do Peru, que é a designação formal do Sendero Luminoso.

“As autoridades querem nos classificar como uma organização terrorista porque falamos abertamente que seguimos o Pensamento Marxista-Leninista-Maoista-Gonzalo”, afirma. “Esta é a nossa única orientação política. Queremos resolver os problemas do conflito interno politicamente, dentro do sistema atual.”

Um partido legal do Sendero Luminoso não conta com o apoio da maioria dos peruanos. Segundo a pesquisa do Ipsos Apoyo de dezembro, 84% afirma que não deveria ser permitido ao Movadef participar da vida política do país.

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3 de Comentários

  • Fredy N.Garcia P. | 2012-05-29

    Realmente ese "seudo" partido político pro-terrorismo es una verguenza nacional. Yo vivi en la época de la Pacificación Nacional y conosco muy bien Sendero Luminoso. Esos guerrilleros dejaron mi país en la ruina y a merced de los enemigos vecinos que quieren robar nuestras riquezas naturales. El Gobierno Peruano debe tomar una actitud ante esta "estafa".

  • Floyra | 2012-01-26

    Situação Atual: Depois de 1992, o PCP-SL foi dividido em três partes. Aqueles que seguem a luta armada e que desconhecem a liderança de Abimael Guzman: http://www.youtube.com/watch?v=_Olei66v6JU Aqueles que seguem a luta armada, mas como uma defesa, quase sem ação: http://www.youtube.com/watch?v=6zT7ZRUj3zk&list=UUmQH_7jPDz0S33s5mSruFmQ&index=13&feature=plcp Aqueles que agora defendem Guzman e deseja se tornar partido político: http://www.youtube.com/watch?v=XfrjDSFsh0E assistir a esses 3 vídeos que você poderia ter uma melhor conclusão.

  • Manuel Báez | 2012-01-01

    Se o Sendero Luminoso disse que renunciou às armas, por que não admiti-lo como um partido político? Negar essa possibilidade é negar seu direito de participação na política pública do Peru e forçar o grupo a viver na ilegalidade e a adotar outros métodos de luta, acima de tudo o método das armas. Com relação ao tráfico de drogas, tenho minhas reservas quanto a isso... Se são narcotraficantes, não são comunistas, não são revolucionários, eles não almejam mudanças sociais, econômicas ou políticas que sirva para modificar a distribuição das riquezas, que sirva para resgatar as pessoas dos falsos valores que o capitalismo representa, pai dos vícios, do terrorismo, da fraude e das mentiras no mundo. Os revolucionários marxistas nunca traficam a vida, nunca são símbolos de morte e de vícios.