2010-01-01

Pó por pólvora

Um soldado vigia uma pilha de 18.000 armas que foram entregues em 2007 por
					combatentes desmobilizados das Autodefesas Unidas da Colômbia, no departamento
					colombiano de Boyacá. [AGENCE FRANCE-PRESSE]

Um soldado vigia uma pilha de 18.000 armas que foram entregues em 2007 por combatentes desmobilizados das Autodefesas Unidas da Colômbia, no departamento colombiano de Boyacá. [AGENCE FRANCE-PRESSE]

El País

As detenções do sírio Monser al-Kassar na Espanha em 2007 e do russo Viktor Bout na Tailândia em 2008 revelaram o quão simples é contrabandear armas para a América Latina.

Para deter o “Mercador da Morte” Bout e o “Príncipe de Marbella” Monzer al-Kassar, a Agência Antidrogas dos EUA alegou que ambos tentaram vender lança-mísseis portáteis terra-ar de origem russa para as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia. As rotas previstas para ambas operações eram semelhantes: as armas partiam da Romênia ou Bulgária e entravam pela Nicarágua, de onde seriam lançadas de pára-quedas em território colombiano.

Segundo um relatório do Centro para Informação de Defesa de Washington de 2008, há mais de 80 milhões de armas ilegais na América Latina. Qualquer criminoso, até o mais inútil, tem acesso a uma pistola ou fuzil.

A taxa de homicídios na América Latina —140.000 ao ano, de acordo com o Banco Mundial— é mais que o dobro da média mundial. São vários os países que apresentam um índice de homicídios alarmante para cada 100.000 habitantes: Brasil, 28; Colômbia, 65; El Salvador, 45; Guatemala, 50; Venezuela, 35. A violência também afeta a economia. Estima-se o custo desse flagelo em 14,2 por cento do produto interno bruto regional, segundo um informe sobre o crime e violência de 2006 do Banco Mundial.

Além disso, o tráfico ilícito de armas está cada vez mais ligado ao narcotráfico. No Peru, o exército comprovou que os insurgentes remanescentes da guerrilha Sendero Luminoso, hoje dedicada à produção e venda de cocaína, tinham em seu poder lança-mísseis, metralhadoras e fuzis, todos de origem russa. O rearmamento do Sendero custou as vidas de meia centena de soldados peruanos em um ano.

Iquitos e a fronteira entre os países andinos e o Brasil; o golfo de Urabá, que une a Colômbia e o Panamá; e a Tríplice Fronteira entre o Paraguai, Brasil e Argentina, são alguns dos principais pontos de contrabando na região.

Oferta e demanda

Enquanto as armas estão cada vez mais abundantes na região, as munições andam escassas. Os fuzis russos AK-103 adquiridos pela Venezuela são os mais desejados na região, especialmente pelas FARC que continuam em posse de pelo menos 5.000 dessas armas.

Além disso, houve uma proliferação nas trocas de drogas por armas, transações que os cartéis da droga colombiana iniciaram em meados dos anos 90 com a máfia russa. Assim, da mesma forma que a cocaína sai da Colômbia, Peru e Bolívia até a Europa através da Venezuela, Equador e Brasil, as armas percorrem o mesmo caminho na direção oposta.

Dois fiscais da Ciudad del Este, no Paraguai, Adelaida Vázquez e Carolina Gabea, são testemunhas quase diárias desse tráfico na Tríplice Fronteira. Ambas têm uma queixa em comum: poucos recursos e o inimigo em casa. “Temos um grupo de agentes especiais, mas são poucos diante de tanto crime”, explicou Vázquez. “É perigoso ser um agente policial e trabalhar aqui, mas... se você se mantém limpo, os narcotraficantes não se metem com você.”

Medidas contrao tráfico ilegal de armas

Paraguai e Brasil reduzem o contrabando de armas

O Paraguai e o Brasil possuem um acordo para combater o tráfico de armas em suas fronteiras. O convênio, assinado em novembro de 2006 e aprovado em outubro de 2009 pelo Senado Federal do Brasil, fortalece a cooperação na área policial para o combate à fabricação e ao tráfico de armas de fogo, munições e explosivos. Ele solicita também a troca de informações sobre o registro e propriedade de armas.

Pacto para combater o tráfico ilícito de armas de pequeno porte

A Convenção Interamericana contra a Fabricação e o Tráfico ilícitos de Armas de Fogo, Munições, Explosivos, e outros Materiais Relacionados (CIFTA), é o primeiro tratado multilateral elaborado para prevenir, combater e erradicar o tráfico transnacional ilegal nas Américas.

A CIFTA foi criada pela Organização dos Estados Americanos em 1997, tendo sido ratificada por 30 estados-membros da OEA. A CIFTA requer que seus membros apresentem documentação mais efetiva para a exportação e importação, além da criação de identificação para armas de fogo através de marcas apropriadas. A Convenção também requer uma maior troca de informação e cooperação entre os órgãos de segurança, e que haja um intercâmbio de assistência e treinamento técnico entre os seus membros.

A Colômbia e suas fronteiras

A Colômbia criou um batalhão fluvial para controlar o tráfico de armas e drogas nas suas fronteiras com o Peru e o Equador. O batalhão, localizado em Puerto Leguízamo, ao sul do país, contará com três batalhões de infantaria de marinha e um de assalto fluvial. Serão nove patrulhas fluviais velozes, 29 elementos de combate fluvial, unidades blindadas para o transporte de tropas, patrulhas leves para apoio fluvial e rebocadores fluviais, entre outros. Mais de 2.400 agentes uniformizados farão parte do batalhão.

eTrace: Análise e rastreamento de armas de fogo através da Internet

Os países do Caribe e América Central implantaram o eTrace, um sistema de submissão de pedidos para o rastreamento de armas de fogo através da web. Ele proporciona uma troca eletrônica de dados sobre armas criminosas em um ambiente seguro dentro da web. O eTrace foi lançado em 2004 nos Estados Unidos como parte de um programa para modernizar as ferramentas de apoio aos órgãos de segurança públicos.

Os órgãos de segurança pública participantes que tenham acesso à Internet poderão obter informação gratuita em tempo real 24/7. Em 2008, o Escritório de Álcool, Tabaco, Armas de Fogo e Explosivos dos EUA processou mais de 300.000 rastreamentos de armas de fogo solicitados por 58 países.

As agências mundiais de segurança pública reprimem as FARC

As Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia têm desempenhado um papel fundamental no tráfico de armas na América Latina na última década. As armas são adquiridas pelos narcotraficantes como forma de pagamento por drogas. Segundo o jornal nacional El Tiempo, até julho de 2009, o governo colombiano, através da Interpol, enviou a 27 países 209 pedidos oficiais para a verificação da origem de armas apreendidas das FARC durante os últimos 10 anos.

Os maiores êxitos das agências de segurança pública nacionais e internacionais na detenção da compra de armas pelas FARC incluem:

23 de junho de 2001

O ex-chefe da polícia secreta peruana Vladimiro Montesinos é preso em Caracas, Venezuela. Ele foi considerado responsável pelo contrabando de fuzis de assalto AKMS Kalashnikov provenientes da Jordânia para as FARC em uma operação disfarçada como uma compra oficial militar de 50.000 armas para o Peru. Em 1999, ele entregou às FARC caixas com 10.000 fuzis AKMS que foram jogadas de pára-quedas perto de Barrancomina, no departamento de Guainía.

21 de abril de 2001

Um dos maiores traficantes de drogas do Brasil, Luiz Fernando da Costa, conhecido como Fernandinho Beira-Mar, é capturado na selva colombiana perto da fronteira com o Brasil. Beira-Mar entregou à Frente 16 das FARC, próximo de Barrancomina, armas e munições transportadas do Paraguai, em troca de drogas.

7 de junho de 2007

O traficante de armas sírio Monzer al-Kassar é preso em Madri. Ele ofereceu às FARC 15 mísseis terra-ar Strela 2, bem como 7.700 fuzis de assalto Kalashnikov. As armas seriam supostamente enviadas da Bulgária e Romênia em um navio grego e o negócio seria fechado com um certificado falso de usuário final da Nicarágua.

6 de março de 2008

O veterano traficante de armas russo Viktor Bout é preso na Tailândia. Supostamente, ele planejava vender 100 mísseis russos terra-ar Igla para as FARC. Os mísseis seriam enviados da Bulgária para a Nicarágua e então lançados de paraquedas de um avião a caminho da Guiana em território rebelde localizado na selva colombiana.

19 de agosto de 2009

Jamal Yousef, também conhecido como Talal Hassan Ghantou, um ex-oficial militar sírio, é preso em Honduras. Ele tentou vender às FARC cerca de 18 mísseis terra-ar, 100 fuzis de assalto AR-15, 100 fuzis de assalto M16, 10 metralhadoras M60, explosivos C-4, 2.500 granadas de mão, e granadas lança-rojões.

“Lords of war — Running the arms trafficking industry” por Jane’s Intelligence Review

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2 de Comentários

  • lheonel | 2010-11-08

    As drogas são ruins para a juventude e para mim, um rapaz de 15 anos que se depara com a marijuana.

  • angel gabriel | 2010-08-25

    Eu gosto desta página web porque posso ficar informado acerca do que se passa no Mundo e à minha volta.